″Heimat″: novo ministério desperta velhos temores na Alemanha | Notícias sobre política, economia e sociedade da Alemanha | DW | 13.02.2018
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Alemanha

"Heimat": novo ministério desperta velhos temores na Alemanha

Denominação de nova pasta do governo Merkel, com termo associado ao regime nazista e ainda hoje incômodo para muitos alemães, mostra como imigração, integração e identidade cultural dominam o debate político no país.

Horst Seehofer ao lado de tradicionalistas da Baviera

Futuro ministro de "Heimat", Horst Seehofer, em traje típico bávaro, ao lado de representantes de associação tradicionalista

O acordo de coalizão arduamente negociado que foi fechado na semana passada na Alemanha (e que ainda precisa do aval dos filiados do SPD para valer) foi interpretado como uma vitória para os social-democratas, mas inclui também concessões aos conservadores.

Os líderes da União Democrata Cristã (CDU), da União Social Cristã (CSU) e do Partido Social-Democrata (SPD) concordaram que o Ministério do Interior passará a ser comandado pela CSU, o partido conservador da Baviera, e será ampliado com as pastas da construção civil e "Heimat".

Heimat será um desafio para os tradutores, pois expressões em outras línguas, como homeland em inglês ou "terra natal" em português, não têm a mesma conotação emocional do termo alemão. Heimat designa mais do que apenas um território, ele também inclui sentimentos de familiaridade e pertencimento melhor expressados por uma palavra como "lar". Alemães com tendências nacionalistas também podem associar determinadas paisagens, comidas, roupas e tradições à palavra Heimat.

O deputado social-democrata alemão Karamba Diaby, que nasceu no Senegal, defendeu as novas competências do Ministério do Interior, afirmando que a intenção é ser inclusivo. Ele disse que o conceito de Heimat inclui as ideias de "respeito, tolerância e participação" e mencionou o êxodo de jovens do Leste Alemão como exemplo de problema a ser combatido pelo novo ministério.

Protesto da AfD

"Nossa terra, nossa Heimat", diz cartaz da AfD

O historiador alemão Paul Nolte, porém, declarou à agência de notícias EPD que se trata de um eufemismo para controle de fronteiras e política migratória. "Provavelmente uma senha para a repressão da imigração", disse.

Já a organização Comunidade Turca na Alemanha (TGD) criticou os planos de se criar uma pasta ministerial para Heimat, afirmando que colocar a expressão em primeiro plano é enviar o sinal errado no momento errado. "Tememos que o termo não signifique coesão social e pertencimento, mas exclusão e divisão", disse o presidente da TGD, Gökay Sofuoglu, ao jornal Berliner Zeitung.

Peso da história

A palavra tem também uma conotação negativa, e muitos alemães do pós-Guerra devem sentir arrepios só de ouvi-la. O regime nazista associou a expressão ao seu Estado nacional, o que faz com que muitos políticos hoje evitem usá-la.

Recentemente, porém, Heimat experimentou um renascimento. O partido populista de direita Alternativa para a Alemanha (AfD), criado em 2013, usou amplamente a palavra em sua publicidade. E também a deputada verde Katrin Göring-Eckardt usou a expressão numa convenção partidária em setembro passado. "Nós amamos este país, esta é a nossa Heimat, e esta Heimat não será dividida."

Dois dias depois, a ala jovem do partido, a Juventude Verde, escreveu no Twitter que o termo é discriminatório e, por isso, não se presta para combater idelogias de extrema direita. "Solidariedade em vez de Heimat!", afirmou.

O presidente Frank-Walter Steinmeier também se envolveu no debate ao explicar sua própria definição da palavra durante uma cerimônia para celebrar a Reunificação, em 3 de outubro. No discurso, ele disse que muitas pessoas não conseguem entender o mundo de hoje e anseiam por algo como Heimat. "Compreender e ser compreendido, isso é Heimat. Heimat é o lugar onde o 'nós' se concretiza", afirmou.

Katrin Göring-Eckardt

Katrin Göring-Eckardt usou a expressão numa convenção do Partido Verde

Para Nolte, o uso da palavra no nome de um ministério é também uma tentativa de "tirar água do moinho da AfD" e atender aos anseios de pessoas que têm "necessidade de mais Heimat".

Aqueles que ficaram para trás

A criação de uma pasta ministerial para "Heimat" pode obrigar os políticos a encontrar uma definição exata para a palavra. A Baviera, de onde virá o futuro ministro do Interior, Construção e Heimat, Horst Seehofer, produz um relatório anual sob esse nome, o qual inclui sua própria definição. "Heimat significa estar em casa, permanecer em casa e se sentir em casa", diz.

O relatório é elaborado pela Secretaria Estadual das Finanças, Desenvolvimento Regional e Heimat, que afirmou que o foco central da estratégia da pasta é estimular a geração de empregos e o desenvolvimento de infraestrutura nas áreas rurais da Baviera. Segundo a secretaria, o objetivo é impedir que essas regiões fiquem para trás.

Os pilares dessa estratégia incluem garantir que dinheiro público seja investido também nas áreas rurais (com foco específico em regiões economicamente fracas), que o acesso à internet esteja disponível em todo o estado e que a administração pública seja descentralizada. Outra tarefa é "promover a identidade regional" por meio de um "prêmio Heimat" para "organizações voluntárias locais que preservem a arte, a cultura, as tradições e os costumes".

Embora não esteja claro se a CSU pretende transferir esse modelo para o nível federal, parece claro que os políticos conservadores esperam que o novo Ministério do Interior, Construção e Heimat seja bem-recebido por eleitores rurais que, de outra maneira, poderiam ser atraídos pela AfD. Ao menos é o que indica uma declaração do deputado Mike Mohring, da Turíngia, que no ano passado defendeu a criação de um ministério para Heimat como "resposta às preocupações de pessoas que se sentem deixadas para trás".

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