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Mundo

"Haiti precisa de cérebros, tecnologia e investimentos"

Em entrevista exclusiva à DW-WORLD, Ricardo Seitenfus, enviado do governo brasileiro ao Haiti, faz balanço das eleições e revela plano de mudanças na missão da ONU no país. Força militar deverá dar lugar a apoio civil.

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Soldados brasileiros cuidaram dos locais de votação

DW-WORLD: O chefe da missão de observadores da União Européia no Haiti, Johann van Hecke, disse que a eleição no Haiti foi "um milagre", diante da tensão que reinava no país antes e no dia votação. Como o senhor avalia o desenrolar do pleito?

Ricardo Seitenfus: Certamente essa percepção [de um milagre] decorre da total incompreensão da imprensa internacional, sobretudo da América do Norte e da Europa, da questão haitiana. Houve uma demonização do caso haitiano, que o país era um inferno, um caos, que não pode ser democrático. E ontem houve essa manifestação extraordinária de civismo e vontade de construir a paz e a democracia.

Apesar de denúncias de impedimento de candidatos da oposição, tumultos e mortes no dia da votação, o senhor diria que o pleito foi pacífico?

As mortes, se analisarmos como ocorreram, não foram absolutamente nada comparável ao que ocorreu nas eleições precedentes no Haiti. O que a mídia internacional esperava eram atentados, filas de eleitores sendo metralhadas, bombas sendo jogadas nos centros de votação. Ora, nada disso aconteceu. A eleição foi um grande sucesso, comprovado pela maciça participação do eleitorado, que não necessita votar, já que o voto não é obrigatório.

Os resultados só serão divulgados em alguns dias, mas René Préval liderava as pesquisas entre os 33 candidatos à presidência. Já é possível prever como vão reagir os perdedores?

Ricardo Seitenfuss

Seitenfus prevê período delicado no Haiti

Préval era franco favorito, com chances de ser eleito já no primeiro turno. A reação dos perdedores dependerá do índice que cada um obtiver. Eu acredito que 25 dos 32 perdedores não dirão nada, porque terão índices ínfimos de votação. Quanto aos outros, a minha sugestão é que haja um diálogo, que talvez possa desembocar num governo de união nacional. O período até a posse dos novos dirigentes em 29 de março é de extrema delicadeza e exige muita atenção da comunidade internacional e das forças de paz.

Préval é considerado um testa-de- ferro do presidente destituído Jen-Bertrand Aristide. O que pode acontecer, se Aristide voltar ao país?

Não concordo que ele é um testa-de-ferro do Aristide. Ele tem muitas diferenças com o Aristide e tem vida própria, é ponderado e conciliador. Mas há um problema real, que é o papel futuro, se houver, do ex-presidente Aristide. A posição de Préval é acenar com a Constituição, que dá o direito a todo haitiano a sair e retornar ao país. A minha impressão é que Aristide não voltará, porque as condições de segurança ainda são muito precárias no Haiti e ele fez muitos inimigos em seu caminho.

O senhor disse que a situação da segurança ainda é muito precária. A espiral da violência agora terá um fim, depois das eleições?

A espiral da violência foi muito localizada no bairro de Cité Soleil, onde nos últimos meses foi montada uma indústria do seqüestro. Mas houve um acordo tácito entre todos os envolvidos nas eleições e essas 34 gangues organizadas, para que suspendessem suas atividades para permitir o bom desenrolar da eleição. É por isso que nos últimos 13 dias não ocorreu mais nenhum seqüestro, quando a média era de sete, oito por dia. Préval me disse que vai eliminar essas gangues, se chegar ao poder.

Ele disse como fará isso?

Ele não vai precisar dizer. Pois, se não houver segundo turno, isso será feito já nos próximos dias pela Minustah. [Se nenhum dos candidatos obtiver mais de 50% dos votos, a eleição será decidida no segundo turno, marcado para o dia 29 de março.] O general brasileiro José Elito Carvalho Siqueira já disse que a Minustah (Missão de Estabilização da ONU no Haiti) vai ocupar o Cité Soleil. Ele só estava esperando passar as eleições.

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