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Mundo

"Há uma enorme frustração entre os palestinos"

Para Sylke Tempel, ataques a faca praticados por palestinos contra israelenses não remontam a ação planejada. Cientista política afirma que, sem espírito de consenso, o conflito jamais será resolvido.

Em entrevista à Deutsche Welle, a cientista política, jornalista e autora Sylke Tempel afirmou que somente um consenso poderá resolver de forma duradoura os conflitos no Oriente Médio.

A editora-chefe da revista Internationale Politik apontou que, enquanto isso, entre os radicais, "surge uma juventude que não aceita o consenso estabelecido pela maioria num Estado, mas que se volta radicalmente contra o próprio Estado".

DW: Tanto na Cisjordânia quanto na Faixa de Gaza, as tensões entre israelenses e palestinos parecem aumentar no momento. Existe um motivo para o atual acirramento da situação?

Sylke Tempel: Não, nada aconteceu que pudesse ser considerado um estopim direto – como, por exemplo, no caso da segunda Intifada, que eclodiu após a visita do então premiê Ariel Sharon ao Monte do Templo. Foguetes continuam a ser disparados regularmente a partir de Gaza. Mas nós somente os percebemos quando há uma reação de Israel, ou seja, é perceptível uma lógica de intimidação.

Além disso, existem em Gaza grupos muitos diferentes. Se o Hamas decidir não lançar mais foguetes, isso não significa que o jihad islâmico também vá fazer o mesmo. A pergunta é, antes, se o jihad islâmico vai conseguir escapar à vigilância dos guardiões do Hamas.

Como avalia a situação em Jerusalém Oriental e na Cisjordânia?

01.08.2013 DW online Quadriga Sylke Tempel

Sylke Tempel: jihad oferece a jovens palestinos uma solução imediata para tudo

Naturalmente, há uma enorme frustração entre os palestinos. Nos últimos meses e anos, nada mudou para eles. De fato, [o chefe de governo palestino, Mahmoud] Abbas apostou na estratégia de conseguir o reconhecimento da Palestina pelo caminho da ONU. Mas, em sua vida cotidiana, os palestinos comuns de Ramallah ou Jenin nada ganham com uma bandeira palestina hasteada em frente ao prédio da ONU.

Acredito que os atuais esfaqueamentos não são uma ação planejada, mas expressão de uma frustração reprimida. Nesses casos, muito depende da reação de Israel: se intervém em prol de uma distensão ou se, pelo contrário, deixa as coisas ainda mais tensas.

Ao menos um dos agressores de um atentado a faca na semana passada afirmou pertencer a uma organização jihadista. O jihadismo poderia também se espalhar para os Territórios Palestinos, de maneira semelhante ao "Estado Islâmico" (EI)?

Uma parcela dos palestinos está disposta a se radicalizar. Isso tem principalmente a ver com o fato de que representantes clássicos – a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e, em certo sentido, também o Hamas – não tenham podido resolver o conflito. Isso não surpreende. Pois os jihadistas, sejam do EI ou da Al-Qaeda, possuem uma estratégia de propaganda muito sofisticada.

Eles conseguem atrair jovens palestinos, independente das condições sociais em que vivem, se têm ou não trabalho. Além disso, alguns palestinos se armam com facas porque querem uma mudança. Em troca, os jihadistas lhes proporcionam ideologias. Pois eles são, até certo ponto, românticos. Para quem se une a eles, os jihadistas oferecem uma solução imediata para todos os problemas deste mundo.

Agora existem abordagens mais sofisticadas, como, por exemplo, o discurso de Abbas nas Nações Unidas, ou a tentativa de obter a adesão a organizações internacionais. Isso traz algum resultados?

Diante da situação global não vejo nenhuma possibilidade de uma grande ofensiva diplomática, tanto devido à postura do governo israelense como ao alto grau de instabilidade das atuais circunstâncias. Aliás, o fracasso de muitas dessas propostas adveio do lado palestino.

De que maneira?

Comecemos por dizer que eles vivem em circunstâncias extremamente difíceis. Pois continua havendo uma ocupação. Os israelenses mantêm uma presença substancial na Cisjordânia, o que é comprovado pelo número de assentamentos e de militares. Além disso, os palestinos não conseguiram montar estruturas estatais. Isso vai de uma coleta funcional de lixo até uma polícia que, digamos, aplique multas. Nesse ponto, os palestinos têm se omitido seriamente.

Em segundo lugar, as negociações fracassaram muitas vezes por fatores psicológicos. Quando se diz a refugiados que já vivem em campos de migrantes há quatro gerações sob as mais difíceis condições, que eles sofreram em vão, que não vão poder voltar aos seus vilarejos de origem, que irão para um Estado da Palestina – mas, justamente, não para a terra que é a Palestina deles –, isso é difícil de aceitar.

Além disso, é preciso superar uma barreira de princípio. Pois os palestinos consideram fundamentalmente injusto o fato de o Estado de Israel sequer ter sido fundado. E, de fato, o que lhes restou foi um país mutilado, com apenas 27% de seu antigo território. Por isso é difícil eles se concentrarem num Estado próprio, no qual deteriam a soberania. Os palestinos nunca conseguiram superar esse obstáculo psicológico.

Israel é um Estado judaico, portanto um país fundamentado na religião. Esse aspectoreligioso, como fator do conflito no Oriente Médio, não terá recebido atenção insuficiente?

Originalmente, nos planos de seus fundadores, Israel não deveria ser um Estado religioso. E tampouco o país deveria se desenvolver em direção a uma teocracia, nem de longe. A definição era: Israel é um Estado cuja maioria da população deve ser judaica. E para a vida em geral essa circunstância é muito mais importante do que o sentimento religioso. No entanto, sobretudo a partir de 1967, surgiu um movimento religioso nacionalista messiânico, para o qual é uma tarefa divina a ocupação da Judeia e Samaria – o nome que dão à Cisjordânia.

Não vejo esse movimento como um grande perigo para os palestinos e para sua pretensão de fundar um Estado próprio na região. Também não vejo para eles grande perigo nos fundamentos do Estado judaico de Israel.

Pois – supondo que palestinos e israelenses concordassem em fundar dois Estados independentes e autônomos: se fosse realizado um referendo sobre essa questão, estou certa de que uma minoria disposta a tudo colocaria acima do Estado de Israel o seu desejo de habitar os montes de Samaria. Nesse ínterim cresceu, entre os radicais, uma juventude que, em vez de aceitar esse consenso estipulado pela maioria no Estado, volta-se radicalmente contra o próprio Estado.

Qual é o principal problema do conflito, em sua opinião?

Quem quer que, em Israel e nos Territórios Palestinos, acredite que o status quo se manterá para sempre, não estudou a história da própria terra. Ilude-se quem achar que pode dispensar um acordo ou se contentar com um acordo destinado ao fracasso – como o de um Estado conjunto com duas populações de culturas totalmente distintas e que, além do mais, há 120 anos vêm se matando mutuamente. Quem não reconhecer que, no fim das contas, somente com um acordo se chegará a algum lugar, vai continuar vivenciando uma catástrofe depois da outra.

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