1. Inhalt
  2. Navigation
  3. Weitere Inhalte
  4. Metanavigation
  5. Suche
  6. Choose from 30 Languages

América Latina

"Há um regime de impunidade no México", diz ativista Javier Sicilia

Poeta mexicano, que teve filho foi morto em 2011, pede ajuda a governos europeus contra impunidade no México. Em entrevista à DW, ele prevê a explosão de um país onde o crime está infiltrado nas estruturas do Estado.

O filho do renomado poeta e escritor mexicano Javier Sicilia, Juan Francisco, foi assassinado aos 24 anos de idade, em 28 de março de 2011, junto com outros seis jovens, a mando do crime organizado. Desde então, Sicilia, nascido na Cidade do México em 1956, renunciou à poesia para encabeçar um movimento social que uniu as vítimas de crimes de todo o México.

O Movimento Nacional pela Paz com Justiça e Dignidade, que ele lidera, luta junto a outras organizações civis mexicanas pelo esclarecimento de numerosos crimes, num país cuja taxa de impunidade chega a 95%.

Em 26 de setembro último, uma série de ataques da polícia matou pelo menos seis alunos da Escola Normal de Ayotzinapa, no estado de Guerrero. Outros 43 estudantes continuam desaparecidos. A região, que conta com joias turísticas como Acapulco e Ixtapa Zihuatanejo, abriga também os municípios mais pobres do país, com níveis de miséria equivalentes a países africanos como o Mali ou Maláui, segundo relatórios da ONU.

A Deutsche Welle conversou com Sicilia pelo telefone. De sua casa em Cuernavaca, no estado de Morelos, o ativista nascido em 1956, na Cidade do México, falou sobre impunidade, violência e a relação do governo com o crime.

DW: O senhor se recusou a ir à Feira Internacional do Livro em Acapulco, em protesto pelos 43 estudantes de Ayotzinapa que ainda estão desaparecidos, alegando que o governo municipal da cidade vizinha Iguala e o crime organizado foram cúmplices no assassinato de vários alunos. Como é essa situação?

Javier Sicilia: Estamos diante de um crime estatal, temos que dizer assim, porque é evidente que o Estado está penetrado pelo crime organizado, e não sabemos onde a coisa começa nem termina. Acabaram de encontrar umas valas comuns. Mas não se sabe ainda se são os rapazes, esperamos que não sejam. Mas essas valas evidenciam algo terrível. é a ponta do iceberg de uma realidade que vem se arrastando há mais de seis anos, que tentaram esconder e que volta a se tornar visível com essa tragédia.

A situação é muito grave: não são apenas os 43 desaparecidos, os seis mortos e os 11 feridos na Escola normal de Ayotzinapa. Por debaixo disso, estão os 30 mil desaparecidos, os 160 mil mortos, e muitas valas comuns clandestinas e muitos assassinatos, dos quais o Estado tampouco quis saber. A situação é terrível e colocou em evidência que estamos diante de uma emergência nacional e uma tragédia humanitária.

Por que o governador de Guerrero, Ángel Aguirre, se mantém no poder nesse estado? Onde estão os responsáveis?

Os partidos, os governos locais e o governo federal fazem parte da mesma corrupção. O caso do governador de Guerrero é muito claro: não o tocam, não exige que dê conta, e isso acontece com muitos governadores e funcionários, como o caso de Ulises Ruiz, ex-governador de Oaxaca, onde se cometeram crimes terríveis, vinculados ao crime organizado.

Temos também os casos em Morelos, durante o mandato de Felipe Calderón, em que morreu meu filho, assassinado junto com outros jovens. O governo [do estado de Morelos] de Marco Antonio Adame e o anterior, de Sergio Estrada Cajigal [ambos do Partido Ação Nacional, PAN], são coniventes com o crime organizado. Nem acusados há. A matança na cidade de Tlataya, na qual estão envolvidos agentes do Exército que assassinaram brutalmente supostos pistoleiros, confirma a existência de vínculos profundos, onde a única coisa a ser negociada é o poder e o controle do dinheiro que flui para um lado e para o outro, sob uma lógica de guerra.

A indústria do crime passou a uma nova fase, a da tomada do poder, como se vê nosestados de Guerrero, Michoacán e Tamaulipas?

Essa é uma realidade que existe há muito. Crimes como o que matou meu filho resultaram em 40 mil mortos e 10 mil desaparecidos. Sem contar os desalojados: estamos falando de quase meio milhão de desalojados por causa dessa guerra. A ausência do Estado e o fato de que os representantes são coniventes com o crime organizado causou uma emergência nacional, com a qual se vive há muito tempo no país.

Qual é a influência da impunidade da guerra suja dos anos 70 no México, quando o governo do Partido Revolucionário Institucional (PRI) repreendeu grupos estudantis de esquerda e que alguns comparam com as guerras sujas do Chile e da Argentina?

Não podemos ver com os mesmos olhos o que acontece agora e a guerra suja em 1970. Havia uma ideologia. Como ocorre nos totalitarismos, houve uma terrível repressão contra as posições de esquerda, que eram percebidas como uma ameaça política e ideológica. Hoje é mais terrível. A era das ideologias acabou e estamos na era do dinheiro. Existe um vínculo profundo entre a repressão aos jovens e o crime organizado. É algo que não dá para entender porque é inédito. É uma nova forma de totalitarismo, de ditadura. O que impera agora é o negócio. A suposta luta contra as drogas retroalimenta os capitais legais. E aumenta a verdadeira criminalidade, o sequestro e o desaparecimento de pessoas.

Mexiko Mutmaßliches Massaker an Studenten Massengrab in Cerro Gordo

Vala comum, próximo a Iguala, Guerrero, onde pelo menos seis estudantes foram mortos

O que podem fazer os europeus e a comunidade internacional para ajudar a sociedade civil mexicana no combate à impunidade?

Como sugerido por alguns deputados do Parlamento Europeu, o que os outros governos podem fazer é bloquear os acordos comerciais, que é a única coisa que dói aos governos do México. Para o que digamos nós, os cidadãos, a sociedade civil mexicana, o governo não dá atenção. Desde a chegada ao poder de Enrique Peña Neto, se investiu muito dinheiro na imagem, para mostrar que o país mudou. Mas não é assim. Estamos diante de um regime de impunidade e de criminalidade contra a cidadania. Necessitamos da ajuda da comunidade internacional para restabelecer a paz, a justiça e o Estado de direito. Sozinhos não vamos conseguir.

Já foram mortas mais de 100 mil pessoas desde 2007. O presidente Enrique Piñera Neto conseguirá pacificar o país, como prometeu no início da gestão?

Eles não entenderam a palavra "emergência". O país está em chamas, e isso obriga a chegar a um consenso com todos os partidos, órgãos governamentais e organizações do país, incluindo a Igreja. Se não se alcançarem esses consensos e não se estabelecer um caminho claro para acabar com a impunidade, começar a fazer justiça e castigar quem temos de castigar, será muito difícil corrigir a situação, e que o presidente controle algo.

A atual situação poderia levar a uma revolta social?

Eu ouvi os pais dos estudantes dizerem que não acreditam nas autoridades, e que se seus filhos não aparecerem com vida, eles vão começar a fazer justiça com as próprias mãos. O surgimento das autodefesas [milícias comunitárias criadas por cidadãos], que as autoridades vêm tentando apagar da mídia, e o fortalecimento das policias comunitárias já são sintomas de que estamos à beira de uma explosão social. A mensagem que enviam aos cidadãos é: "Defendam-se como puderem." Esse pode ser o divisor de águas que nos levará a um horror maior, pois há muito ressentimento.

Leia mais