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Alemanha

Há 200 anos nascia Otto von Bismarck, o "chanceler de ferro"

Em 1º de abril de 1815 nasceu o futuro primeiro-ministro da Prússia e chanceler do Império Alemão. Uma figura ambivalente: para uns, promotor da paz e da justiça social. Para outros, pioneiro do militarismo germânico.

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"Proclamação do Império Alemão", óleo de Anton von Werner, 1885

Há um quadro que define a imagem que muitos alemães têm do político Otto von Bismarck (1815-1898): de uniformes escuros, generais e príncipes alemães se reúnem no salão de espelhos do Palácio de Versalhes, na França, e saúdam de braço estendido o imperador alemão Guilherme 1º. Contudo, quem está no centro geométrico da cena não é o monarca, mas Bismarck, ainda mais destacado por trajar uniforme branco.

Essa tela de Anton von Werner representa de forma estilizada o 18 de janeiro de 1871, data oficial da fundação do Império Alemão, quando 25 estados foram unificados sob a liderança da Prússia. E atribui-se à política bismarckiana a façanha de, na época, superar a fragmentação da Alemanha em minúsculos estados.

Por todo o país há homenagens ao "chanceler de ferro": monumentos, torres, ruas e até carvalhos foram batizados com o seu nome. Na escola, aprende-se que ele não só unificou a Alemanha, como, em sua gestão como reichskanzler, de 1871 a 1890, introduziu o direito ao voto e sistemas de seguridade social, incluindo os seguros de saúde, aposentadoria e contra acidentes.

Mas há também quem veja em Otto von Bismarck e seu capacete de ponta o chanceler da guerra, um pioneiro do militarismo alemão. Afinal, somente com as guerras contra a Dinamarca em 1864, a Áustria em 1866 e a França em 1870-71 aplainou-se o caminho para a fundação do império.

Na qualidade de primeiro-ministro da Prússia, Bismarck preparara politicamente todas essas três guerras. Além disso, com seus valores conservadores, ele é responsabilizado pela perseguição do Reich aos socialistas; por uma cultura parlamentar subdesenvolvida na Alemanha do fim de século 19 e início do 20; assim como pela criação de colônias alemãs na África e na Ásia.

Super-herói ou arquivilão?

"Bismarck precisa ser visto menos como superfície de projeção para uma avaliação positiva ou negativa da história nacional alemã", aconselha o historiador Christoph Nonn. Por ocasião do bicentenário do político, nesta quarta-feira (1º/04), o professor de Düsseldorf se ocupou intensamente com ele e sua época, publicando o resultado de suas pesquisas no livro Bismarck – ein Preusse und sein Jahrhundert (Um prussiano e seu século).

Porträt -

Capacete de ponta: Otto von Bismarck se encenou a posteriori como "chanceler da guerra"

A fundação do Reich, por exemplo, não foi uma iniciativa puramente alemã e muito menos obra pessoal de Bismarck, aponta Nonn. "Desse prolongado e complexo processo participaram muitas instâncias, tanto na Alemanha como também no exterior, com o que elas fizeram ou deixaram de fazer. Por exemplo, ao não tentar impedir a unificação."

O chanceler tampouco foi responsável pelas três guerras que antecederam a fundação do império. Nonn assegura que ele não era nem militar nem agressor, apostando, antes, em negociações. Seu colega Arnd Bauerkämper, da Universidade Livre de Berlim, concorda: foi somente em suas memórias, escritas em 1890, que Bismarck "se autoencenou um pouco como chanceler da guerra".

Entretanto a legitimidade dessas guerras estava acima de qualquer dúvida para Bismarck, ressalva Bauerkämper. Por outro lado, ambos os historiadores enfatizam que o Império Alemão sob Bismarck não reivindicou novos territórios, mas perseguiu uma política moderada, a fim de se concentrar no desenvolvimento econômico interno.

Colônias como instrumento interno

Mas então onde se encaixa a política colonial nesse quadro? Bismarck não repetia sempre que o Império Alemão não precisava de colônias? E, mesmo assim, menos de 15 anos após a fundação do Reich, ele permitiu a criação dos assim chamados protetorados na África e na Ásia.

"A questão não eram propriamente as colônias. Elas foram apenas um meio na luta pelo poder travada em Berlim", afirma Nonn. O conservador Bismarck queria enfraquecer os liberais, seus oponentes políticos, e o príncipe herdeiro Frederico, simpatizante deles.

Os liberais tinham ligações com o Reino Unido, que ativamente mantinha colônias. Para criar uma fissura nessa aliança, em 1884 e 1885 o reichskanzler cedeu temporariamente ao clamor por colônias alemãs, que já se fazia ouvir há décadas.

Contudo, em 1885 os liberais perderam as eleições, ficando politicamente debilitados. E o príncipe Frederico assegurou que seguiria associado ao chanceler conservador, mesmo depois da morte de seu pai, o imperador Guilherme 1º.

"A partir daí, Bismarck encerrou imediatamente o episódio da política colonial", conta Nonn. Bauerkämper igualmente lhe atribui uma política colonial hesitante: "Com as colônias, ele queria evitar, e se possível equacionar, os atritos com as outras grandes potências europeias."

Otto von Bismarck Porträt Reichskanzler Hut

"Chanceler de Ferro" como motivo de cartão postal

Parlamento decorativo

Na política interna, pelo contrário, mediação ou diálogo nem sempre estiveram no foco da política bismarckiana. Apesar de o Império Alemão fundado em 1871 ser uma monarquia parlamentarista, o Parlamento não tinha qualquer influência sobre a política do governo.

O primeiro chanceler alemão até mesmo designava o movimento trabalhista em ascensão como "inimigo do Reich". Com a assim chamada "lei dos socialistas", ele baniu, na prática, os partidos social-democratas. Também a introdução dos seguros de saúde, aposentadoria e contra acidentes se deveu à rejeição de Bismarck ao movimento dos trabalhadores.

"As reformas sociais visavam minar o apoio aos social-democratas, assegurando para o novo Estado alemão a lealdade da maioria da população e da classe trabalhadora em crescimento", analisa Bauerkämper.

A fim de preservar o próprio poder e o da nobreza, a Constituição do Império Alemão não concedia direito de codeterminação ao Reichstag, o Parlamento. "Não se formou uma espécie de cultura do consenso parlamentar, de tomada de decisões entre os partidos", observa o historiador berlinense.

Como Bismarck foi um dos autores da Constituição, seu biógrafo Nonn lhe atribui o fato de o Parlamento não ter arcado com qualquer responsabilidade política desde 1871 até a proclamação da República, em 1918.

"Foi difícil se libertar dessa mentalidade de irresponsabilidade depois de 1918, quando o Reichstag passou a realmente ter poder na Alemanha. Essa foi uma hipoteca pesada para a democracia alemã, para a República de Weimar", diz Nonn.

Bildergalerie Bismarck Denkmäler

Bismarck em Hamburgo: monumentos por toda a Alemanha

Paralelos com a Reunificação

E, no entanto, políticos democraticamente eleitos da Alemanha recordam agora o nascimento, 200 anos atrás, do primeiro chanceler do Reich. Bauerkämper constata que, nos últimos 30 a 40 anos, a tendência tem sido rever positivamente a imagem de Otto von Bismarck. E Nonn traça paralelos entre a fundação do Reich e a Reunificação Alemã, em 1990.

Em ambas as ocasiões circulava na Europa o medo de que a Alemanha voltasse a se expandir. Pois, assim como em 1871, o país assegurou também em 1990 que não faria exigências territoriais.

"Praticou-se a mesma política de tranquilização dos vizinhos europeus", compara o autor de Um prussiano e o seu século. Para ele, o maior feito do "chanceler de ferro" na política externa foi, como responsável por ela, a partir de 1871, ter contribuído de forma decisiva para que o recém-fundado Império Alemão não travasse guerras por mais de 40 anos.

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