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Governo brasileiro aposta na indústria para alavancar crescimento do PIB

24 de agosto de 2012

Medidas como concessões para rodovias e ferrovias, desoneração de folhas de pagamento e desvalorização do real indicam que política econômica muda de rumo e deixa de priorizar o consumo, dizem economistas.

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Picture taken during the construction of the Abreu e Lima refinery, at the Suape industrial complex of the Brazilian state oil company Petrobras, in Ipojuca, 46 km from Recife, in the Brazilian northeastern state of Pernambuco, on May 30, 2011. Petrobras, which presented the refinery to the press, said it is awaiting confirmation from the government of Venezuela to know if its Venezuelan counterpart PDVSA will join as a partner in the project, as it was initially planned. AFP PHOTO/ARI VERSIANI (Photo credit should read ARI VERSIANI/AFP/Getty Images)
Industrie in BrasilienFoto: AFP/GettyImages

A baixa expectativa para o crescimento do PIB brasileiro este ano fez com que o governo tomasse o leme e mudasse o rumo da política econômica. Se nos últimos anos a prioridade era estimular o consumo interno por meio de uma maior transferência de renda e aumento de crédito, a tendência agora em Brasília é impulsionar o setor produtivo para aumentar a competitividade dos produtos brasileiros no mercado internacional.

Uma das principais sinalizações foi o anúncio, na semana passada, de um pacote de concessões de 17,5 mil quilômetros – quatro vezes a distância entre os extremos norte e sul do país – de rodovias e ferrovias em todo o Brasil. A expectativa é que a iniciativa privada invista 133 bilhões de reais em infraestrutura para melhorar o transporte de produtos e reduzir custos.

"Quando reduzimos custo, queremos que o Brasil cresça numa taxa elevada, entre 4,5% e 5%, constante, por um período longo. Isso é fundamental para garantir emprego", afirmou a presidente Dilma Rousseff no dia do lançamento do pacote. "Esperamos estar construindo um ambiente adequado para o crescimento. Agora e num médio e longo prazo", destacou a presidente.

Do total de investimentos, 79,5 bilhões de reais serão investidos já nos primeiros cinco anos. Ao todo devem ser direcionados para as rodovias 42 bilhões de reais, e para as ferrovias, 91 bilhões.

"Ponto de virada"

Dilma: "esperamos estar construindo ambiente adequado para o crescimento"
Dilma: "esperamos estar construindo um ambiente adequado para o crescimento"Foto: Wilson Dias/ABr

O anúncio do governo aconteceu poucos dias antes da divulgação do boletim Focus, pelo Banco Central, no qual especialistas rebaixaram sua previsão para o crescimento do PIB brasileiro este ano de 1,8% para ínfimos 1,75%. No ano passado, a economia brasileira já havia registrado um aumento considerado pequeno, de apenas 2,7%.

Economistas advertem que o pacote de concessões não deve ter implicações imediatas, assim como outras medidas previstas ou já anunciadas dentro do Programa Brasil Maior, lançado no ano passado – entre elas, a redução dos custos de energia e a desoneração das folhas de pagamentos de funcionários em 15 setores.

Mas os especialistas compartilham, pelo menos em parte, do otimismo do governo com relação ao futuro. A expectativa de melhora poder ser constatada no próprio boletim Focus, que prevê crescimento de 4% do PIB em 2013. Alguns falam em uma aceleração de 4% já no último trimestre deste ano.

"Isso mostra que o governo está na direção correta, mas não são medidas que terão resultados a curto prazo", afirma Jankiel Santos, economista-chefe do BES Investimento. "Se a gente queria ter taxas mais altas de PIB agora, deveríamos ter tomado essas decisões há mais tempo", critica.

Santos acredita que os recentes anúncios favorecendo o setor produtivo são reflexo da constatação de que deficiências em investimento, gerando "gargalos em infraestrutura e em produtividade", vinham puxando o PIB para baixo. "A falta de crescimento no Brasil não está na demanda interna", avalia o economista.

Há algumas semanas, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, falou em "ponto de virada" ao comentar a alta de 0,2% registrada pela produção industrial brasileira em junho frente a maio, após três meses seguidos de taxas negativas.

O gerente-executivo de Políticas Econômicas da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Flávio Castelo Branco, concorda que a economia brasileira está encerrando um ciclo de forte desaceleração neste segundo semestre de 2012. "Principalmente no setor industrial, esses últimos 12 meses foram de estagnação, com tendência de recuo. Mas agora há indicações claras de que o segundo semestre será melhor", afirma. "Não é reversão drástica, mas é uma certa inflexão."

Mas o economista lembra que os indicativos para este ano ainda não são nada animadores: o crescimento do PIB ainda ficará bem inferior ao registrado no ano passado e, para piorar, a indústria deve crescer menos que o PIB, com um índice inferior a 1% – cenário considerado "ruim".

Melhoria da infraestrutura deve baratear custo e ajudar indústria a se tornar mais competitiva
Melhoria da infraestrutura deve baratear custo e ajudar indústria a se tornar mais competitivaFoto: AFP/GettyImages

Maior competitividade

Investimentos em logística são fundamentais para aumentar a competitividade dos produtos brasileiros no mercado internacional, segundo um estudo realizado pelo Itaú-Unibanco Holding. O levantamento ressalta que em um ranking de infraestrutura elaborado pelo Banco Mundial o Brasil está na 62ª posição, atrás do Chile (40ª), da Rússia (47ª) e da China (50ª).

"Quando comparado a outros países, mesmo que emergentes, observa-se que o deficit de infraestrutura enfrentado pelo Brasil é significativo", traz o relatório assinado pelo economista-chefe do Itaú, Ilan Goldfajn, e sua equipe.

Especialistas acreditam ainda que as atuais condições macroeconômicas no país também devem contribuir para que o Brasil eleve a participação das exportações em seu PIB, que em 2011 foi de apenas 11% – na Alemanha e na China, por exemplo, a participação do comércio com outros países no PIB é de 40% e 25%, respectivamente.

A taxa de câmbio já vem atuando de maneira mais favorável hoje do que um ano atrás, quando o dólar chegou a valer menos de R$ 1,60. A desvalorização da moeda brasileira é ingrediente fundamental para tornar o produto nacional mais atraente no exterior. Além disso, o BC pode anunciar na semana uma nova redução na taxa básica de juros, que já se encontra em seu menor valor histórico, de 8%. Com a Selic menor, aumenta o volume de crédito para investimento privado.

De frente com a China

A crise que sacode a economia europeia e ainda traz consequências para os Estados Unidos também impacta de maneira negativa o setor industrial brasileiro. Isso porque os chineses, com seus produtos extremamente competitivos, acabaram se estabelecendo como os principais parceiros comerciais do Brasil.

Indústria precisa ser capaz de competir com produtos chineses
Indústria precisa ser capaz de competir com produtos chinesesFoto: AFP/GettyImages

"A China ser o principal parceiro comercial com o Brasil pode ser até bom macroeconomicamente, mas do ponto de vista da indústria é prejudicial para o Brasil", explica o economista da CNI. "O mercado mundial de manufaturados se tornou muito mais acirrado."

Ele ressalta que a balança comercial brasileira da manufatura era mais equilibrada nos tempos em que os norte-americanos eram os principais parceiros. Entre 2005 e 2006, o comércio industrial registrou um superávit entre 6 e 8 bilhões de dólares. "Em 2011, foi um déficit de 98 bilhões. Isso é menos demanda para as empresas brasileiras."

Autora: Mariana Santos
Revisäao: Francis França