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Cultura

Globalização muda hábito alimentar

Exposição "Questões de Gosto" mostra transformações da produção e cultura alimentar nos últimos 50 anos. Fotógrafa brasileira faz radiografia da agricultura artesanal em fase de extinção no interior do Brasil.

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Produção de tapioca no interior de Goiás, em fotografia de Gleice Mere

Há algumas décadas, até mesmo na Alemanha, beber leite com cacau ainda era privilégio dos ricos e comer carne era um símbolo de bem-estar social. Naquele tempo, as donas-de-casa passavam, em média, duas horas e meia por dia na frente do fogão e metade da renda familiar era destinada à alimentação. Hoje a comida é preparada em questão de minutos no microondas e a cesta básica não consome mais do que 12% do salário médio alemão.

Este é apenas um dos aspectos das mudanças ocorridas na cultura alimentar, não só dos alemães, que o Museu Industrial Renano (RIM) aborda numa séria de exposições realizadas em Oberhausen, Bergisch Gladbach, Engelskirchen, Solingen, Euskirchen e Ratingen, de setembro de 2004 a janeiro de 2005.

A idéia é "olhar além do próprio prato e oferecer um panorama da produção, comercialização e do consumo de alimentos no mundo", explica Thomas Schleper, coordenador da Geschmackssachen (Questões de Gosto).

Segundo Schleper, a globalização da economia transformou profundamente a agricultura e os hábitos alimentares nos últimos 50 anos. A mecanização desenfreada da atividade agrícola, o uso excessivo de agrotóxicos, a criação de animais em sufocantes estábulos e granjas, a manipulação genética de alimentos e a síndrome da vaca louca (BSE) mostram a face escandalosa dessa revolução industrial no campo.

Foi-se o tempo em que, nos países industrializados, o gado pastava livre, a vaca era ordenhada à mão e os arados ou engenhos eram movidos a boi ou cavalo. Entre outras coisas, a exposição procura dar uma idéia do que foi essa realidade, tanto através de brincadeiras, como ordenhar uma vaca mecânica, ou através de fotografias e filmes de países ainda em desenvolvimento.

Vida dura no campo

Gleice Mere

A fotógrafa brasileira diante do cartaz da 'Geschmackssachen'

Um exemplo é a mostra de fotografias da jornalista goiana Gleice Mere sobre Vida Dura – Trabalho Agrícola no Brasil, que acontece até o dia 14 de novembro, no âmbito da Geschmackssachen, em Oberhausen. As 56 fotos, selecionadas de um acervo de mais três mil negativos em preto-e-branco, retratam as transformações ocorridas no campo em Divinópolis, no interior de Goáis, nos últimos dez anos. São cenas, por exemplo, da produção artesanal de açúcar, farinha de mandioca, tapioca e rapadura.

Para alguns visitantes da mostra, as fotografias de Gleice Mere lembram um pouco o passado agrário da própria Alemanha. "Mais ou menos assim se trabalhava na agricultura alemã antes da Segunda Guerra. Vê-se aqui um Brasil bem diferente daquele que vemos na TV, com imagens do carnaval, futebol, Copacabana, ou das favelas e desmatamento da Amazônia", diz o médico Günther Bubeck, de Duisburg.

Segundo o diretor do departamento de fotografia e documentação do RIM, Daniel Stemmrich, a inclusão das fotografias em preto-e-branco de Gleice Mere na exposição Questões de Gostos, nas instalações de um museu industrial, tem dois objetivos: "Mostrar métodos arcaicos de produção, que existiam na Alemanha há 150 anos, e que ainda há gente que precisa investir muito trabalho braçal para produzir bem pouco. Vale ressaltar também que os alimentos produzidos com tanto suor e pouquíssimo capital são muito saborosos, como provam os petiscos e doces que a fotógrafa ofereceu na abertura do evento", diz.

Radiogradia do Brasil rural

Nascida no Distrito Federal e formada em Jornalismo pela Universidade de Brasília, Gleice Mere vive "entre o Brasil e a Alemanha" e faz uma especialização em fotografia na Academia de Artes de Leipzig. Já trabalhou para várias publicações da Alemanha, França, Holanda, Suíça, Coréia, África do Sul e América Latina, bem como para organizações de ajuda internacional, como o Unicef e a Adveniat. Em 1992, conquistou o prêmio Masterclass World Press, que lhe rendeu um estágio na Holanda.

Desde 1994, ela vem fotografando periodicamente os agricultores de Divinópolis, com a intenção de "fazer uma radiografia do Brasil rural e resgatar a história desse país sem memória", como diz. "É um trabalho até etnológico e antropológico. A idéia é traduzir para a fotografia a realidade do povo do interior, que ainda é discriminado, relegado no próprio país e desconhecido no exterior. Eu mostro uma vida dura, mas que é uma vida digna, e que está mudando rapidamente", explica.

Presos na rede da globalização

Na seqüência da Geschmackssachen, ainda serão mostrados trabalhos fotográficos de profissionais do Vietnã, um país fértil com enormes problemas de nutrição, e do Mali, com seus mercados coloridos, a pesca artesanal no Níger e a luta dos pequenos agricultores por sua parca produção.

Por mais criativa, abrangente e diversificada que seja a apresentação dos diferentes aspectos da revolução agrícola e alimentar das últimas décadas, abordando desde ideais de beleza, o triunfo do fast food e seus efeitos colaterais, o avanço dos transgênicos ou visões futuristas de alimentação (a comida de astronauta numa nave espacial), o cardápio da Questões de Gostos estaria incompleto sem as fotografias.

"A colher de cozinheiro do primeiro mundo também pode ditar o destino de um pequeno agricultor num outro canto do planeta. Assim como o bife que nós comemos na Alemanha pode estar provocando desmatamento e destruição ambiental no Brasil. A globalização não só mudou a vida no campo e nosso hábito alimentar. Ela nos envolveu numa rede, da qual não é possível escapar", conclui a diretora do RIM, Milena Karabaic.

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