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Cultura

Günter Kunert e a certeza da catástrofe

Um dos mais versáteis autores alemães, Kunert integra uma geração que presenciou várias descidas ao inferno de sua nação. Seus últimos livros expõem a perda de todas as ilusões.

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Günter Kunert

O berlinense Günter Kunert é um dos últimos membros de uma geração de autores que foi testenhuma da sequência de destruições que engoliu a Alemanha a partir do fim da República de Weimar.

Nascido na capital a 6 de março de 1929, era ainda muito pequeno quando o país mergulhou na ditadura nazista, mas tinha já 10 anos quando a Alemanha invadiu a Polônia e deflagrou o conflito mais sangrento do século passado.

Kunert sobreviveu como adolescente à destruição de Berlim no final da Segunda Guerra, às mortes estúpidas de jovens forçados a defender a cidade contra o avanço do Exército Vermelho, aos meses de terror durante a ocupação logo após o suicídio de Hitler e àqueles invernos de fome e incerteza dos primeiros anos do pós-Guerra, quando a população de Berlim teve que fazer o que era possível para manter-se viva em meio às ruínas.

Trata-se de uma geração muito marcada por esses horrores, como seus colegas Heiner Müller, Günter Grass e tantos outros. Mesmo assim, os primeiros livros de Kunert são marcados pelo otimismo de quem via, no sonho socialista, a possibilidade de um futuro melhor.

Buchcover Das letzte Wort hat keiner

Capa de "Das letzte Wort hat keiner" (Ninguém tem a última palavra)

Membro do SED (o partido do regime comunista da Alemanha Oriental) já aos 19 anos, Kunert quis participar da construção de uma sociedade em que esses horrores fascistas jamais pudessem se repetir. Mas viu apenas a população entregue a uma nova ditadura, com suas prisões e execuções ditadas, uma vez mais, por uma ideologia que não aceitava o pensamento discordante.

Em 1976, Kunert esteve entre os que assinaram a carta de protesto contra o expatriamento de Wolf Biermann. Em resposta, o SED o expulsou. Graças a um visto que lhe havia sido concedido antes daquele ano de dissidência e perseguição geral entre os autores na República Democrática Alemã, o poeta, prosador e dramaturgo deixou o país com a mulher e fixou residência na República Federal Alemã, numa pequena cidade do norte do país, Itzehoe, onde ainda vive.

Seus últimos livros expõem a perda de todas as ilusões. Seus poemas não parecem mais sequer ser avisos de uma catástrofe ainda maior e iminente, mas relatórios dos estágios no caminho irreversível a essa catástrofe última. Como foi formulado por Dieter E. Zimmer, o trabalho de Kunert assemelha-se à "História de uma escuridão gradual". Como ele escreveu num poema:

Em papel produzido anacrônico
eu escrevo
uma pequena verdade fóssil
em uma escrita
que antes dos apocalipses diários
era compreensível

Não se trata, é claro, de exclusividade alemã. No Brasil, a geração correspondente à de Kunert passou pelas convulsões da segunda presidência e suicídio de Getúlio Vargas, pela presidência-relâmpago de Jânio Quadros e viu o país mergulhar na ditadura militar, com a perseguição de autores como Ferreira Gullar, Carlos Heitor Cony e tantos outros.

Os que tinham ilusões de cunho socialista, as perderiam mais tarde. Com a propagação da ideia de uma pós-utopia, também no Brasil alguns autores abandonariam a crença na possibilidade redentora da literatura, despedindo-se do que Ernst Bloch chamou de "Princípio Esperança".

Hoje um decano das letras alemãs, Kunert recebeu distinções importantes, como o Prêmio Georg Trakl, em 1997, e o Prix Aristeion, concedido a ele pela União Europeia em 1999. Em 2004 recebeu a Bundesverdienstkreuz, a única ordem de mérito federal da Alemanha, estabelecida em 1951 pelo então presidente Theodor Heuss.

A lista de publicações do autor é uma das mais impressionantes da literatura contemporânea, com dezenas de livros espalhados pelos mais diversos gêneros. Portanto, sua desilusão, para nossa sorte, não o levou àquela da famosa personagem de Herman Melville, Bartleby, que "preferiria não fazer".

Günter Kunert, ao menos, parece seguir acreditando na necessidade do aviso, do alerta, o que talvez mostre que alguma esperança ainda pode haver para nós sobre a Terra.

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