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Cultura

Günter Grass: "Fome também é guerra"

O 72º Congresso Internacional PEN, de autores, teve Berlim como palco. Seu slogan: "Escrever num mundo sem paz". O Prêmio Nobel da Literatura Günter Grass traça um balanço em exclusiva à DW-WORLD.

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Mohamed Massad (DW-WORLD) entrevista Günter Grass

DW-WORLD: O Congresso Internacional do PEN Club tomou lugar pela terceira vez na Alemanha. O que isso significa para o país?

Günter Grass: Estive presente aos últimos dois encontros, também em Hamburgo, há 20 anos, e nessas ocasiões fiz o discurso de abertura – cada vez numa constelação política totalmente diferente. Há 20 anos o país ainda estava dividido, assim como toda a Europa. Parte das discussões era ditada pela dicotomia leste-oeste. Apenas pouco a pouco se esboçou aquilo que Willy Brandt dizia, que o problema do século 21 não mais seria o conflito leste-oeste, mas sim norte-sul. Na atual situação, o caráter internacional, mesmo global do PEN vem à tona com bem mais clareza do que há 20 anos.

Como vê o tema do congresso, "Escrever num mundo sem paz"?

Em meu discurso parti do princípio de que sempre tivemos épocas sem paz, por vezes menos, por vezes mais perceptivelmente. E que nós aqui na Europa acreditávamos que a paz imperava depois da Segunda Guerra Mundial – até irromper o conflito na Sérvia. Vivíamos à sombra da intimidação mútua das grandes potências, do Leste e do Ocidente, eram tempos de intimidação atômica. Era uma paz aparente, enquanto em todo o mundo eram conduzidos conflitos localizados. Tentei deixar claro em meu discurso de que modo esse estado sem paz se manteve através dos tempos, e que há ainda outras possibilidades. Por exemplo, através do domínio da indústria alimentar. Há conglomerados norte-americanos monopolizando as sementes de cereais. No momento já conseguem manter dependentes povos inteiros, com sementes que só se prestam a uma colheita. É um estado de coisas para o qual um político como Willy Brandt, que eu admirava muito, também me chamou a atenção, ao dizer: "Fome também é guerra". Não é só a violência bélica – que é palpável, e freqüentemente se expressa na literatura –, são esses processos terríveis e silenciosos se concretizando na fome, que aumentou em escala mundial, num mundo que na verdade se tornou mais rico de possibilidades.

A literatura pode fomentar a paz?

Não sejamos pretensiosos. Temos a possibilidade de provocar mudanças duradouras nas consciências das pessoas. Gosto de tomar como exemplo o processo do Iluminismo na Europa: não foram apenas os autores iluministas, quer Voltaire, quer Diderot, a se tornar imediatamente alvos da censura. Seus livros só se impuseram após uma longa pausa: em países e regiões diversas e de formas também bem distintas. Em certas regiões da Europa, o Iluminismo não chegou até hoje. É um processo muito lento, que provoca mudanças, porém tendo como meta melhorar as coisas. Sou muito desconfiado: no mais das vezes são ideólogos, que aparecem dizendo "no fim há uma meta final", o homem apaziguado, o homem socialista, o american way of life, portanto uma felicidade através do consumo. Considero tudo isso uma dissimulação ideológica, em que não quero me apoiar.

Em sua opinião, os escritores preenchem sua missão no mundo?

PEN-Kongress 2006 Horst Köhler und Günter Grass

Grass e o presidente alemão, Horst Köhler (esq.), durante o Congresso do PEN Club

Não posso afirmar algo assim de maneira global. Acho fantástico existir algo como o PEN, que haja também um cuidado mútuo, como o programa Writers in Prison. Só isso já prova a necessidade do PEN Club. Está aumentando o número dos autores perseguidos, dos autores detidos, dos autores assassinados. E sabemos que as tentativas do PEN – muitas vezes em conjunção com a Anistia Internacional – de libertar, aliviar a prisão, possibilitar a viagem, têm êxito. Também a criação de programas, como o do PEN Club alemão, para oferecer abrigo a escritores perseguidos em seus países natais, dando-lhes uma espécie de bolsa, de forma a que firmem pé por aqui. Isso são atos de solidariedade – uma palavra antiquada, eu sei, mas que continua preenchendo sua finalidade. Creio que essa solidariedade entre escritores continua tendo efeito.

E quanto aos autores árabes ou islâmicos?

Sim, isso também se aplica a eles, naturalmente. Ano passado estive duas vezes no Iêmen, encontrei-me lá com autores árabes, e então constatei que os problemas enfrentados hoje nos países árabes são problemas que os autores da Europa tiveram no século 19 ou 18. Por exemplo, a reivindicação de uma separação entre Igreja e Estado, inexistente até hoje nos países árabes. Na Europa isso quase já está estabelecido, embora também aqui haja países onde ou está ocorrendo um retrocesso ou a separação ainda não se concluiu. Percebi quanto tempo esses processos exigem. E, no entanto, a exigência de que se separe Igreja e Estado será necessária, naturalmente também nos países árabes – e essa é uma tarefa para os escritores, entre outros.

A Alemanha é a anfitriã, autores do mundo inteiro a visitam. Em breve será "O mundo entre amigos". Mas aqui há numerosos imigrantes, dentre eles escritores, extremamente preocupados com o recrudescimento do radicalismo de direita na Alemanha.

Do ponto de vista político, a direita radical da Alemanha está isolada. Há outros países – tome-se a França, com Le Pen –, onde a extrema direita está no poder, especialmente no Sul da França. Na Itália, o partido neofascista de Fini governou quase uma década juntamente com Berlusconi. Na Polônia, vergonhosamentre, o atual governo é apoiado por dois partidos radicais de direita. O NPD da Alemanha nunca esteve no Parlamento – excetuado um curto período nos parlamentos estaduais –, nunca participou do governo. Entretanto temos naturalmente um radicalismo de direita, que também se mostra violento. Não é apenas tarefa da polícia coibi-lo, mas também uma questão da mentalidade da população. Acima de tudo, esse brutal radicalismo é incentivado por palavras levianas ou demagógicas dos políticos. Quando, por exemplo, o senhor Stoiber fala de uma "miscigenação" do povo alemão, está empregando um vocabulário que, no final das contas, dá razão aos violentos entre os radicais de direita.

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