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Mundo

Fundamento histórico para uma futura democracia na Rússia

A tentativa de golpe de Estado contra Gorbatchov fracassou há 15 anos. A resistência dos moscovitas criou as precondições para que a democracia se estabeleça futuramente na Rússia. Opinião de Ingo Mannteufel.

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Ao perpetrar um golpe de Estado contra o presidente Mikhail Gorbatchov, em agosto de 1991, a velha guarda soviética, composta por elementos do Partido Comunista, da KGB e das Forças Armadas, queria sustar a decomposição da União Soviética. Ocorreu o contrário: a resistência dos moscovitas encerrou de fato 70 anos de ditadura totalitária e acelerou a derrocada da URSS. A esperança que se manifestou no Leste e no Ocidente era de que o regime comunista seria sucedido por democracia e economia de mercado.

Estado soviético – símbolo da opressão

O fracasso do golpe do Estado foi recebido no Ocidente com grande alívio; saudava-se o fim da União Soviética – e não por um sentimento hostil em relação à Rússia, como infelizmente acreditam muitos russos hoje. No pensamento ocidental, a União Soviética representava a opressão da liberdade, o assassinato de milhões de pessoas por motivação ideológica, a subjugação de dezenas de países e uma cosmovisão comunista monstruosa que ameaçava as sociedades ocidentais em seus fundamentos.

É essa percepção externa da União Soviética que os russos deveriam conhecer, quando lamentam numa idealização nostálgica a derrocada da União Soviética – mesmo quando o fazem apenas pela compreensível frustração resultante da perda do Estado de bem-estar soviético-socialista.

Mas a percepção histórica de russos e ocidentais é discrepante não apenas no que se refere à avaliação da União Soviética como Estado. Muitos europeus e norte-americanos olham decepcionados para a Rússia hoje, 15 anos após o golpe de Estado. À frente do Estado, encontra-se um ex-agente da KGB no exterior, Vladimir Putin; muitos outros cargos políticos são ocupados por antigos colaboradores do serviço secreto soviético. A divisão dos poderes – uma característica essencial da democracia liberal – praticamente inexiste, diante de um Judiciário dependente e da proximidade do Parlamento com o Kremlin. Muitos direitos cidadãos e a liberdade de imprensa são restritos. O aumento do preço do petróleo nos mercados internacionais e os muitos petrodólares proporcionaram o crescimento da economia e conferiram à liderança do Estado uma nova autoconfiança.

A Rússia de Putin não é uma União Soviética

Por isso, muitos políticos e analistas equiparam a Rússia de Putin com a União Soviética. Mas, por mais que se justifique a crítica à política interna autoritária de Putin, a equiparação com a ex-União Soviética é um erro. Primeiro porque a ideologia comunista não é mais motor político nem modelo para a reestruturação social na Rússia de hoje. Segundo porque falta a essa avaliação da Rússia de nossos dias a compreensão da história daquele país: 1000 anos de autocracia czarista e ditadura soviética não podem ser superados em 15 anos. Esperar que isso ocorresse foi o erro do Ocidente na década de 90 e conduziu a uma grande decepção e à avaliação desequilibrada da Rússia de 2006.

Uma comparação do desenvolvimento da Rússia com o das demais ex-repúblicas soviéticas põe isso em evidência. No Índice de Transformação 2005 da Fundação Bertelsmann, que mede as transformações políticas e econômicas rumo à democracia e à economia de mercado, a Rússia se coloca entre os primeiros lugares, em comparação com as ex-repúblicas soviéticas. Principalmente se as três Repúblicas bálticas deixarem de ser consideradas, em função das condições históricas totalmente diversas e do fato de terem ingressado na União Européia.

Não se trata de justificar a política de Putin, mas não se pode deixar de reconhecer que os cidadãos e as empresas do país gozam de mais liberdade, mesmo sob o governo de Putin, do que nos 1000 anos de sua história até 1991.

Precondição para a democracia

Aos russos que enfrentaram corajosamente os golpistas, há 15 anos, cabe o mérito de um ato histórico: o de ter se libertado por forças próprias da ditadura soviética. No entanto, lhes faltava, na década de 90 do século passado, a força – e também a experiência histórica – para construir uma democracia moderna e uma economia de mercado. Eles criaram, porém, as precondições para que crescesse na Rússia uma primeira geração pós-soviética e não ideologizada que terá de enfrentar essa tarefa nos próximos anos.

Ingo Mannteufel é o editor-chefe da DW-WORLD.DE.

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