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Alemanha

Friedwälder: a paz final em meio à natureza

Os bosques são um oásis de flexibilidade na rigorosa – e cara – paisagem funerária alemã. Já existem nove cemitérios silvestres, e as sepulturas anônimas estão crescendo em popularidade.

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À primeira vista, Elm, ao leste da cidade de Hannover, parece uma floresta como qualquer outra.

Quando seu marido ainda vivia, Ingrid Ehrlichmann costumava fazer ali longas caminhadas com ele. Hoje, ela vem visitar sua sepultura, localizada ao pé de uma árvore. Há dois meses ela mandou enterrar ali a urna do esposo, e está convencida de ser este o local ideal.

"A vantagem é que não há custos subseqüentes e não sou obrigada a cuidar da sepultura. Posso sair de férias sem ter que pedir a alguém para regar as flores." Com objetividade, Ingrid acrescenta: "Pretendo me mudar deste povoado. Assim, quando for embora, deixarei meu marido num lugar 'neutro', que convém a ele".

Alternativa econômica

Na Alemanha, os cemitérios silvestres são realmente menos custosos do que os convencionais. E cada vez mais pessoas estão preferindo esse enterro anônimo, já que seus parentes não podem ou não querem manter as tumbas.

Na Alemanha, os jazigos são arrendados por um período de 20 a 30 anos, ao fim do qual a família do falecido tem duas opções: renovar o contrato – e continuar pagando – ou liberar o espaço para um novo "inquilino". Nesse caso, as despesas de remoção dos restos mortais e da lápide também correm por conta dos familiares.

Entre as alternativas que ganham mais popularidade no país, está o friedwald ("floresta da paz", em oposição ao cemitério comum, friedhof), menos caro e envolvendo menos responsabilidade do que a inumação tradicional. Atualmente há nove cemitérios silvestres na Alemanha (no final de 2003 eram apenas três). Em nenhum deles há flores ou lápides para relembrar os sepultados.

Apesar disso, para Ingrid Ehrlichmann, o "seu" é um lugar altamente pessoal: "Nós o escolhemos com grande cuidado. Reconhecemos a árvore pelo seu número, mas a acharíamos mesmo sem ele. Eu me identifico com essa árvore. Sei onde a urna está e isso é importante para mim".

Importação suíça

Friedwald

Cemitério silvestre de Reinhardswald, no Estado alemão de Hessen

A idéia dos friedwälder nasceu na Suíça: a pessoa escolhe um lugar num bosque, sob uma árvore, onde, após o falecimento, serão depositadas suas cinzas, dentro de uma urna. Os funcionários dos cemitérios tradicionais contam entre os opositores mais acirrados desse procedimento.

Um outro ponto de discórdia é o emprego de urnas biodegradáveis. Em novembro de 2002, a Secretaria do Interior de Hessen proibiu a inauguração de novos cemitérios silvestres naquele Estado alemão, alegando que as urnas biodegradáveis – como as utilizadas em Reinhardswald (Kassel) e Odenwald (Michelstadt) – transgrediriam as leis de 1937 relativas à cremação de cadáveres.

O arrendamento de uma árvore por 99 anos em Reinhardswald custa cerca de três mil euros.

Erosão dos valores cristãos?

Em Usedom, uma ilha no Mar Báltico, está se planejando um novo friedwald. A perspectiva parece atraente para Dieter Schön, um dos habitantes da ilha: "A idéia de ficar coberto por algo pesado não me agrada muito. Sinto que nas florestas tudo é um pouco mais livre, menos confinante, menos complicado. Por isso é a melhor solução para mim".

Já outros moradores de Usedom, como Annelie Schallock, encaram a inovação com resistência: "Eu não poderia depositar flores nesse cemitério no bosque, nem mesmo uma planta ou pedra. Então, como irei lembrar com amor e alegria dos que estão sepultados aqui?".

A Igreja Católica alemã também argumenta que os friedwälder levam à erosão do significado por trás de um enterro cristão. Afinal, cuidar de uma sepultura é mais do que arrancar o mato à sua volta, afirma o padre Andreas Scholler. Ele considera importante para um ser humano saber que não desaparecerá simplesmente após a morte, mas sim que "alguém ainda está cuidando de mim, se importando comigo. Não me desfiz no nada, não fui apagado".

Choque de interesses

Outra frente de resistência contra os cemitérios na natureza são seus eventuais vizinhos. Estes não aceitam que um bosque seja ao mesmo tempo um lugar de lazer e campo santo.

"É incômodo para todos os envolvidos", afirma outro habitante de Usedom, Siegfried Nast. "Por exemplo, se eu estivesse passeando na floresta com um grupo de crianças e esbarrasse em gente pranteando seus mortos, seria embaraçoso para ambas as partes."

Outros apresentam argumentos de ordem emocional, dizendo não desejar que a floresta onde brincaram quando crianças se torne um sítio funerário, um lugar de contemplação e luto.

A maioria dos moradores da ilha parece sentir da mesma forma. Assim, se a Câmara Municipal votar contra o cemitério silvestre, Dieter Schön será forçado a procurar o repouso eterno em outro local.

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