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Cultura

Freud, a religião e a memória cultural

Em entrevista à DW-WORLD, o teórico da cultura Jan Assmann fala das relações ambíguas de Freud com a religião e aponta a "cegueira" do pai da psicanálise frente à "memória cultural".

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Jan Assmann: 'Freud não enxergava a memória cultural’

As teses de Jan Assmann, professor de Egiptologia da Universidade de Heidelberg e de Ciência da Cultura da Universidade de Constança, já levantaram polêmicas consideráveis no meio acadêmico alemão. Em Die Mosaische Unterscheidung oder der Preis des Monotheismus (A distinção de Moisés ou o preço do monoteísmo), Assmann dialoga com Moisés e o monoteísmo – o último livro concluído por Freud e escrito entre 1934 e 1938.

Para Assmann, os conceitos de "verdadeiro " e "falso " introduzidos pelo monoteísmo trouxeram a violência para o discurso religioso, pois a partir deste momento estabeleceu-se o antagonismo entre uma ideologia "certa" em oposição a outras "erradas".

O teórico alemão lembra que imagens violentas estão presentes, a partir daí, nos livros sagrados de cristãos, judeus, muçulmanos e de outras religiões monoteístas. Afastar essas "verdades absolutas" é, para ele, a única possibilidade de se aproximar verdadeiramente do Outro.

Memória involuntária e memória voluntária

Um dos pilares das teorias desenvolvidas pelo teórico e por sua mulher, a professora de Literatura Inglesa e Ciência da Cultura Aleida Assmann, está no conceito de "memória cultural". Trata-se aqui não apenas de uma memória "voluntária", mas de uma memória coletiva "involuntária", nos subterrâneos da qual há tecidos que, após longo período de latência, podem voltar à superfície.

A memória cultural descrita por Assmann alimenta-se da tradição e da comunicação, englobando "rupturas, conflitos, inovações, restaurações e revoluções". Os rituais pertencem ao campo da memória cultural, da mesma forma que símbolos, ícones, representações como memoriais ou templos. Formas que "ultrapassam o horizonte da memória das coisas", ao costurarem os elos entre tempo, lembrança e identidade.

Oposição a Derrida

Justamente esta "memória cultural", afirma Assmann, foi ignorada por Freud, que "localiza as transferências inconscientes não na cultura”, mas num programa herdado geneticamente. Existe uma dimensão inconsciente de transferências coletivas, mas elas pertencem ao campo da cultura e não ao campo biológico, sustenta Assmann.

Em entrevista à DW-WORLD, o teórico alemão fala sobre a postura antagônica de Freud em relação à religião, discute a relação da Alemanha frente à "impossibilidade de esquecer" seu passado traumático, explica por que se opõe a Derrida, quando este afirma que a psicanálise se tornou uma teoria "do arquivo" e não somente uma teoria da memória, e alerta: "A consciência pós-moderna é radicalmente relativista. A globalização assume o lugar dos princípios universalistas".

DW-WORLD: Moisés e o monoteísmo , de Sigmund Freud, permaneceu por décadas esquecido. Há menos de 20 anos, houve o que o senhor mesmo definiu como um "retorno singular" deste que foi o último livro concluído por Freud. A que se deveu este resgate?

Assmann: A mudança ocorreu em torno de 1990, sendo que a ruptura decisiva aconteceu com o livro Freud’s Moses (1991), de Yosef Haym Yerushalmi [historiador israelense]. O interesse redespertado pelo livro de Freud está ligado à atualidade de sua temática, que gira em torno dos conceitos "monoteísmo" e "memória".

O monoteísmo é o princípio normativo da cultura ocidental e a memória a dinâmica do inconsciente no processo da evolução cultural, levada de forma macroscópica por Freud para o coletivo, para a psicologia de massas. Somente em 1990 é que se começou a entender que estes são, na realidade, os temas do livro.

Walter Benjamin, em suas "teses histórico-filosóficas", fala que o passado só começa a se tornar "legível" com o passar do tempo, de repente, a partir de algum contexto determinado. Assim, o livro de Freud só adentrou a fase de legibilidade 50 anos após sua publicação. O tema "memória", além do mais, esteve inserido em uma conjuntura singular na Alemanha desde meados dos anos 80 e no Leste Europeu desde a derrocada do socialismo em 1989, ou seja, desde o "despertar" das várias memórias nacionais reprimidas até aquele momento.

Freud via no monoteísmo um "progresso do espírito humano" e descrevia a religião, ao mesmo tempo, como uma neurose. O senhor pode comentar este ponto de vista consideravelmente paradoxo?


Aqui há realmente uma contradição, em relação à qual o próprio Freud, como parece, não tinha muita clareza. A questão colocada por ele ao examinar a história da origem do monoteísmo era: como esta religião pôde se afirmar com tal força de persuasão avassaladora? Esta história bem-sucedida ele explica com o retorno do reprimido.

Não porque a religião seja "verdadeira" ou porque haja um Deus que tenha se revelado aos judeus, e muito menos porque o monoteísmo reclame um "progresso do espírito humano", mas pura e simplesmente em função de sua verdade "histórica". O monoteísmo vai ao encontro dos princípios básicos edipianos da alma humana e, por isso, encontra tamanha ressonância. Assim se explica porque ele se impôs. O reprimido retorna, porém, nos sintomas neuróticos, aqui em forma de uma religião que anula a força das leis do pensamento lógico, como Freud não cansava de acentuar.

Continue lendo: Freud e as ilusões da religião; os conceitos de "verdadeiro" e "falso" introduzidos pelo monoteísmo; os elementos patriarcais nas grandes religiões monoteístas; o conceito de "arquivo" em Derrida.



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