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Mundo

Francisco se encontra com povos indígenas no México

Representantes de etnias latino-americanas se encontram com o papa durante sua visita ao México. Visão comum de defesa do meio ambiente pode pôr fim a diferenças históricas de mais de 500 anos entre Igreja e nativos.

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Igreja de Acteal é também memorial aos mortos do massacre de 1997

O prédio da igreja é a construção mais bem cuidada de Acteal, comunidade indígena tzotzil que vive no alto das montanhas ao redor de San Cristóbal de las Casas, no sul do México. Ele é também um memorial erguido para homenagear os 45 mortos do massacre de 1997, quando paramilitares dispararam contra indígenas que faziam jejum e rezavam pela paz.

"Tentaram nos calar porque defendemos o direito pela vida e o direito pela terra. Mas a terra não se vende e não se trai", fala o líder local Sebastian Perez Vasquez sobre o histórico de disputas territoriais que culminou no assassinado.

Em Acteal, os tzotzil vivem do cultivo artesanal de café, feijão e milho, usam a lenha colhida nas montanhas para cozinhar e aquecer as casas, preservam o que resta da mata. Em defesa do modo de vida de seu povo, Vasquez participa de um evento entre lideranças indígenas e o papa Francisco nesta segunda-feira (15/02) durante visita oficial do pontífice a San Cristóbal de las Casas.

Indigene und Franziskus in Mexico

Perez Vasquez: "Tentaram nos calar porque defendemos o direito pela vida e o direito pela terra"

O encontro marca uma tentativa de aproximação histórica depois de mais de 500 anos de atritos. Para os indígenas, o sinal de que o Vaticano quer se conciliar foi dado com a publicação da encíclica Laudato si, também chamada de Encíclica Verde, publicada em maio de 2015. O documento redigido por Francisco defende o desenvolvimento sustentável, reconhece a crise ambiental e pede a união dos povos para a proteção da "casa comum" da humanidade.

"É justamente tudo o que nós, indígenas, temos feito desde existimos", afirma Candido Mezua, líder da Aliança Mesoamericana dos Povos e Florestas. "Queremos falar com Francisco porque, pela primeira vez desde a colonização dos latino-americanos, a visão de um papa coincide com a visão dos povos indígenas, que é de proteger a Mãe Terra”.

Etnias de toda a América Latina se reuniram em San Cristóbal de las Casas antes da chegada de Francisco para discutir o documento oficial da Igreja Católica. Eles buscam encontrar os pontos exatos em que Laudato si coincide com as demandas dos indígenas para, então, apresentá-los ao papa.

Mexico Stadt Massaker Acteal

Massacre em 1997 deixou 45 mortos

"Encontramos [na encíclica] um respaldo às nossas demandas. Ela também é contra a exclusão, o capitalismo empobrecedor, a contaminação das florestas. É uma esperança que temos", diz Jorge Perez, representante da Coordenação das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (Coica) que reúne os nove países da Floresta Amazônica, entre eles o Brasil.

Aliado papal

Como no caso de Acteal, a defesa do território ou a oposição a megaprojetos de infraestrutura que provocam a destruição florestal resultam em mortes em muitas comunidades. No Brasil, por exemplo, a violência contra indígenas aumentou 130% em 2014, segundo o último relatório do Conselho Indigenista Missionário.

Em toda a área da Floresta Amazônica, as maiores ameaças são exploração de petróleo, mineração, monocultura como a soja e palma, construção de hidrelétricas, enumera Perez. "Muitos projetos compram até a consciência de lideres indígenas."

Indigene und Franziskus in Mexico

Esta família tzotzil foi expulsa de sua terra

"Queremos articular com o papa de que maneira a Igreja e nossos povos podem formar uma frente única para lutar contra esses problemas", acrescenta Perez. Para ele, só um aliado com o peso de Francisco faria com que, de fato, indígenas fossem ouvidos e considerados nos planos dos governos.

O teólogo Juan Jose Tamayo-Acosta, da Universidade Carlos 3º, em Madri, reconhece o poder de conciliação entre o papa e os indígenas. "O mérito do papa consiste em que ele começou a escutar as mensagens dos povos indígenas. O papa não ensinou nada aos indígenas com essa encíclica, mas devolveu o que aprendeu com eles", diz sobre o líder católico latino-americano.

Indígenas e Igreja: "casamento mal resolvido"

Desde que chegou à região, por volta de 1500, a Igreja Católica é tida como inimiga por muitas etnias indígenas, com exceção de alguns líderes religiosos que vivem junto às comunidades.

Indigene und Franziskus in Mexico

Mulheres tzotzil cozinham juntas em Acteal

Os colonizadores espanhóis e portugueses impuseram a religião, que condenava ritos e conhecimentos tradicionais dos nativos. Os que resistiam eram dizimados.

"Esta é a história de um matrimônio muito mal resolvido. A relação entre as comunidades indígenas e a Igreja Católica tem sido de uma ruptura total por parte da Igreja, que teve atitude de desprezo, condenação, exclusão das comunidades indígenas", avalia o teólogo.

Os povos nativos da América Latina parecem estar dispostos a superar o maltrato histórico. O próximo passo seria ir ao Vaticano. "Vamos discutir aqui a possibilidade de formarmos um documento conjunto, com a encíclica e as demandas indígenas. Mas para isso teremos que ir à casa do papa conversar com ele", comenta Perez.

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