França volta às urnas com Macron como favorito | Notícias e análises internacionais mais importantes do dia | DW | 07.05.2017
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Mundo

França volta às urnas com Macron como favorito

Segundo turno das presidenciais opõe projetos antagônicos sobre o futuro da França e da Europa. Todas as pesquisas apontam vitória do candidato pró-UE, rejeitando o nacionalismo e euroceticismo de Le Pen.

A França volta às urnas neste domingo (7/5) para escolher o seu novo presidente. Em disputa estão dois projetos que propõem renovação, mas que também são totalmente antagônicos: o cosmopolitismo pró-europeu do centrista Emmanuel Macron e o nacionalismo eurocético de Marine Le Pen.

Os resultados inesperados dos últimos meses que levaram à vitória de Donald Trump nos EUA, e da aprovação do Brexit no Reino Unido, ainda levantam o temor de que também tudo é possível nas eleições francesas - no caso, a vitória de Marine e a formação de um governo veementemente anti-Bruxelas em uma das nações fundadoras da UE.

Mas, as últimas pesquisas cravam que Macron deve ganhar com mais de 20 pontos de vantagem. Um levantamento divulgado na sexta-feira (5/5) mostrou que o resultado deve ser 63% para Macron e 37% para Marine. No primeiro turno, a maior parte dos institutos de pesquisa conseguiu prever acertadamente o resultado.

Em 23 de abril, Macron foi o mais votado dos 11 candidatos na disputa, obtendo 23,7% dos votos, seguido de Marine, com 21,9% dos votos.

Nas duas semanas de campanha do segundo turno, Marine, do partido Frente Nacional (FN), nunca conseguiu diminuir significativamente a desvantagem em relação a Macron, do Em Marcha.

Ainda que os números mostrem que não deve se repetir o massacre eleitoral sofrido pelo seu pai, Jean-Marie Le Pen no segundo turno de 2002 - em que mais de 80% dos eleitores votaram contra ele -, Marine deve sair derrotada na sua segunda tentativa de conquistar o Eliseu. São poucos os analistas que apostam numa virada de Marine.

Sua única esperança é a de que um número enorme de eleitores resolva não comparecer às urnas para apoiar Macron ou vote em branco. Assim como ocorreu com o pai, o establishment político se uniu em peso para deter Marine e pedir votos para seu adversário. De certa forma, o segundo turno acabou se transformando mais uma vez em um referendo sobre a possibilidade de um membro da família Le Pen finalmente assumir o poder. O jornal satírico Charlie Hebdo deu o tom em sua última capa, que mostrava um fundo negro e a pergunta "é mesmo necessário desenhar algo?".

Na reta final da campanha, a exemplo do que ocorreu nos EUA, hackers tentaram manipular as eleições ao publicarem documentos internos do movimento Em Marcha, de Macron. Assessores do candidato confirmaram a autenticidade de parte dos documentos, mas até agora nada comprometedor foi revelado com o vazamento.

Resultado

O resultado de uma vitória de Macron deve provavelmente gerar manchetes como "Bruxelas respira aliviada" e destacar que o otimismo do centrista imperou sobre o pessimismo de Marine. Ainda assim, este segundo turno deve já marcar uma reviravolta histórica na vida política francesa. Foi a primeira vez que dois candidatos de fora do sistema partidário tradicional monopolizaram as escolhas do segundo turno presidencial, deixando de fora as velhas legendas socialista e conservadora.

Macron e Marine mostraram que campanhas personalistas podem contornar a falta de força política dos seus partidos. O Em Marcha, de Macron, foi fundado há apenas um ano. A FN conta com décadas de existência e uma legião fiel de seguidores, mas na maior parte da sua existência foi marginalizada pelo establishment político.

Assim como ocorreu nas eleições parlamentares na Holanda, em março, a vitória de Macron vai significar um respiro de alívio para a União Europeia. O programa do centrista é abertamente pró-europeu, o que o coloca como candidato favorito dos líderes do bloco. Em janeiro, declarou que "nós precisamos da Europa porque a Europa nos faz mais fortes". Há duas semanas, durante a celebração da sua passagem para o segundo turno, seus apoiadores agitaram bandeiras da UE, algo inimaginável entre a base de outros candidatos.

Durante a campanha eleitoral, o jovem e ambicioso Macron se definiu como nem de esquerda, nem de direita. Ele prefere a expressão "progressista" a "centrista". Também foi chamado pejorativamente de "internacionalista" e "globalista" pelos adversários. Ele propõe reformas liberais para abrir e melhorar a eficiência do país. Na sua passagem pelo ministério da Economia, quis acabar com as travas que impedem o comércio de abrir aos domingos e defendeu extinguir monopólios.

Com o centrista Macron, os franceses também devem finalmente abraçar uma espécie de terceira via, uma mistura de itens de políticas do socialismo e do liberalismo econômico, com duas décadas de atraso em relação a outros países do continente europeu, como o Reino Unido.

Se eleito, Macron, que tem apenas 39 anos, será o mais jovem presidente eleito da história de França - hoje o recorde é mantido por Luís Luís Napoleão Bonaparte, que foi eleito aos 40 anos em 1848.

Infografik Wahlprogramm Kandidaten Stichwahl BRA

Apoio

No papel de antagonista de Marine, Macron também atraiu simpatia internacional. Logo após o primeiro turno, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, desejou boa sorte para Macron. Até mesmo o ex-presidente americano Barack Obama gravou um vídeo para expressar apoio.

Quase todos principais candidatos derrotados no primeiro turno pediram apoio para o centrista. Houve uma notável exceção: Jean-Luc Mélenchon, um independente da extrema-esquerda que terminou em um surpreendente quarto lugar no primeiro turno.

Nas últimas semanas, Mélenchon pediu, sem sucesso, que Macron retirasse de seu programa a reforma trabalhista, como condição para que pudesse ganhar o apoio de seus eleitores. Para muitos eleitores do esquerdista, o ex-banqueiro e liberal Macron é simplesmente muito identificado com o sistema. A maioria deles pronunciou-se recentemente em uma pesquisa interna a favor do voto branco ou nulo no segundo turno.

Marine tentou nos últimos dias cortejar os eleitores do esquerdista. Ao longo da campanha, seu programa de extrema-direita recebeu várias pinceladas socialistas para expandir a sua base. O discurso tem apelo nas regiões desindustrializadas do país, como o nordeste, que antigamente preferiam os socialistas e comunistas, e nas áreas que experimentam choques sociais com imigrantes, como o sul. No mapa eleitoral do primeiro turno, Marine dominou essas regiões, enquanto Macron fez mais sucesso nos grandes centros e entre as classes mais educadas.

Ainda que saia derrotada, Marine ainda terá algumas razões para celebrar. A FN deve ter o melhor resultado eleitoral da sua história neste domingo e mostrar que as mudanças adotadas pela legenda apresentaram resultados. Com um discurso mais amplo, distante da pregação abertamente racista de seu pai, Marine já conseguiu expandir sua base. O conteúdo xenófobo ainda esteve presente ao longo da campanha, mas foi reempacotado e foi mais pontuado por uma defesa do Estado laico francês e frases contra o terrorismo.

O calendário eleitoral, no entanto, não se encerra neste domingo. Em junho, os eleitores voltam às urnas para escolher os mais de 500 membros da Assembleia Nacional. É também considerada um pleito importante, já que pelo sistema presidencial híbrido do país, parte do poder é dividido com um primeiro-ministro que responde ao Parlamento.

Estimativas apontam que o FN de Le Pen, que sempre encontra dificuldades de transferir sua força para o legislativo, deve conquistar entre 15 e 25 cadeiras apenas, bem distante de uma maioria. Ainda assim, o número vai representar um enorme crescimento para o FN, que hoje conta com apenas dois deputados. Já o Em Marcha deve levar entre 249 e 286 deputados, próximo da maioria.

 

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