FMI e Banco Mundial apontam para perigo de ″guerra cambial″ | Notícias e análises sobre a economia brasileira e mundial | DW | 10.10.2010
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Economia

FMI e Banco Mundial apontam para perigo de "guerra cambial"

Encontro das duas instituições em Washington alertou para consequências tardias da crise global e isola China como responsável por turbulências no mercado. Pequim é realmente o único responsável por essas turbulências?

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Congresso realizou-se na capital estadunidense

A reunião anual do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, encerrada neste domingo (10/10) em Washington, teve dois possíveis "vencedores por pontos".

O secretário norte-americano do Tesouro, Timothy Geithner, parece ter conseguido apresentar a política monetária da China como causa única para os desequilíbrios e turbulências cambiais globais.

Redaktionsfoto der Wirtschaftsredaktion, Rolf Wenkel

Jornalista econômico Rolf Wenkel acompanhou reunião em Washington

E o presidente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, conseguiu destacar a si e à organização que representa como salvadores do sistema monetário internacional. Jornais franceses já anunciam que, caso o deseje, Strauss-Kahn teria condições de suceder a Nicolas Sarkozy como próximo presidente da França.

Porém, como acontece nas vitórias por pontos, nem todos os observadores estão convencidos. Pois nem a China é a única causadora dos distúrbios monetários do mundo, nem o corpo de bombeiros internacional FMI tem automaticamente a competência para estabelecer uma nova ordem monetária mundial, analisa o jornalista econômico Rolf Wenkel, que acompanhou reunião em Washington.

O corpo de bombeiros combate os incêndios, mas quem tem que estabelecer regulamentos e leis para sua prevenção são outras instituições. Por exemplo, o G20, formado pelos 20 mais importantes países industriais e emergentes, cujos representantes se reúnem em novembro próximo, na Coreia do Sul.

Guerra cambial

Três anos após a irrupção da crise financeira e econômica mundial, seus efeitos tardios ainda se fazem sentir, dessa vez na linha de frente cambial. É certo que, através da cooperação exemplar do G20 e de suas resoluções de Londres, Pittsburgh e Toronto, foi possível atenuar as consequências da crise e abreviar bastante a fase da recessão global.

Porém só agora se constata que preço os governos têm que pagar por esses benefícios. Paira a ameaça de um retorno às ações isoladas e aos protecionismos nacionais, e já se ouvem alusões a uma "guerra cambial".

E isto não é por acaso, já que crises financeiras levam, quase inevitavelmente, a crises de endividamento estatal: altos índices de desemprego, pacotes de resgate e programas conjunturais fazem explodir os déficits públicos.

Em reação, os Estados decretam drásticas medidas de contenção de gastos, o que restringe a demanda, elevando o perigo de uma nova recessão. Os bancos centrais mantêm os seus juros em zero, ou quase zero, e o capital procura os mercados onde os rendimentos são mais favoráveis. No caso, são estes os dos países emergentes, que crescem duas ou três vezes mais rápido do que as nações industriais. Por isso, o FMI celebra agora os emergentes como novos motores do crescimento global.

Brasil puxa freio de mão

Entretanto as novas estrelas não estão cem por cento felizes com seu novo papel. Elas recebem, em parte, investimentos fortíssimos de capital, o que força a valorização de suas moedas. Há pouco o Brasil puxou o freio de mão, introduzindo controles de circulação de capital e elevando os impostos sobre capitais estrangeiros, e outros países estão prestes a seguir esse exemplo.

Mas o mal-estar não cresce apenas nas nações emergentes. Em setembro, pela primeira vez em anos, o Japão tentou sustar a ascensão do iene, comprando grandes volumes de dólares no mercado de divisas.

E o euro, cuja morte diversos observadores anunciavam no segundo semestre deste ano, valorizou-se tanto em relação ao dólar, que o chefe do Eurogrupo, Jean-Claude Juncker, falou no encontro em Washington de uma moeda única europeia "supervalorizada".

China dita o ritmo

Todos esses indícios apontam para uma mesma conclusão: o dólar perde valor em relação ao restante do mundo. Cada vez menos investidores parecem crer que os Estados Unidos algum dia irão conseguir pagar a conta de anos de consumo a crédito.

Somente a China tenta impedir a alta de seu yuan, recorrendo a meios intervencionistas. E não é, de forma alguma, que o governo chinês deseje se tornar o bode expiatório da situação: ele simplesmente não considera que tenha chegado a hora de uma valorização.

A totalidade dos programas estatais chineses serve a um único fim: a rápida formação de uma classe média ampla, com alto poder aquisitivo, e o fortalecimento da demanda interna, para que um dia o país deixe de ser exclusivamente dependente da exportação. Porém esse não é um processo que se realize de um dia para o outro.

Dois pesos e duas medidas

Calcula-se que, caso o yuan fosse liberado amanhã, a cotação do dólar cairia entre 10% e 40% em relação à moeda chinesa. E o fato de que as reservas de divisas chinesas perderiam, assim, 40% de seu valor, ainda seria o menor dos problemas: milhares de firmas exportadoras teriam que abrir falência de uma hora para a outra, milhões ficariam desempregados.

Pequim não pode permitir tais desdobramentos, se quiser evitar distúrbios sociais. A China quer valorizar sua moeda, e o fará, mas não permite que ninguém lhe dite em que ritmo ou medida. Muito menos em se tratando de um secretário das Finanças dos EUA.

Ao mesmo tempo, Geithner observa tranquilamente como os brasileiros sofrem pela força de seu real, os japoneses por causa do iene, e os europeus, do euro. Vistas por esse ponto de vista, os apelos contra uma corrida cambial mundial soam um tanto hipócritas – em especial quando são os estadunidenses a pronunciá-las.

Entrevista: Rolf Wenkel (av)
Revisão: Carlos Albuquerque

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