Filme reabre debate sobre autoria das obras de Shakespeare | Cultura europeia, dos clássicos da arte a novas tendências | DW | 11.11.2011
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Cultura

Filme reabre debate sobre autoria das obras de Shakespeare

As primeiras dúvidas quanto à identidade do Bardo de Avon coincidem com o culto romântico ao gênio. Porém todas as teorias apresentam lacunas. Filme "Anonymous" explora a curiosidade em torno da polêmica secular.

William Shakespeare, English poet and playwright, (c1850). Portrait of Shakespeare (1564-1616), widely regarded as the greatest writer of the English language. Taken from the book Old England's Worthies, London, c1850.

William Shakespeare (1564-1616)

O aclamado diretor alemão Roland Emmerich, atuante em Hollywood, é um dos que duvidam da identidade do dramaturgo inglês William Shakespeare. Anonymous (Anônimo) é o título da película que ele rodou sobre o "verdadeiro" Shakespeare, e que acaba de chegar aos cinemas da Alemanha.

Emmerich abraça a tese segundo a qual as obras do divino "Bardo" seriam, na realidade, da autoria de Edward de Vere, o 17º conde de Oxford. E assim reabre o velho debate sobre a verdadeira identidade do autor elisabetano.

Gênio incômodo

Rafe Spall als William Shakespeare in einer Szene des Kinofilms «Anonymus» (undatierte Filmszene). Die Debatte ist nicht neu, aber der Zweifel bleibt: War William Shakespeare (1564-1616) wirklich der Verfasser von Weltliteratur wie «Romeo und Julia», «Wie es euch gefällt», «Julius Cäsar» und «Hamlet»? Der deutsche Hollywoodregisseur Roland Emmerich schlägt sich in seinem Historien-Drama «Anonymus» auf die Seite jener Forscher, die in dem Adeligen Edward de Vere, Graf von Oxford, den wahren Verfasser dieser Werke sehen. Der Film kommt am Donnerstag (10.11.2011) in die deutschen Kinos. Foto: Sony Pictures Releasing GmbH (zu dpa-Kinostarts vom 03.11.2011 - ACHTUNG: Verwendung nur für redaktionelle Zwecke im Zusammenhang mit der Berichterstattung über den Film und bei Urheber-Nennung)

Rafe Spall é William Shakespeare em 'Anonymous'

Trata-se de uma questão que demorou séculos para despontar: os contemporâneos de Shakespeare jamais puseram em dúvida a autoria de suas populares peças teatrais, e tampouco várias gerações posteriores. Somente uns 250 anos após sua morte, em meados do século 19, a norte-americana Delia Bacon apresentou a tese segundo a qual o filósofo Francis Bacon seria o verdadeiro criador por trás do nome Shakespeare.

Não é mero acaso tal incerteza ter surgido justamente no século 19, observa Tobias Döring, professor de Literatura Inglesa na Universidade de Munique e presidente da Sociedade Shakespeare da Alemanha. "O estopim dessas dúvidas é a existência burguesa e bem pouco espetacular desse homem de Stratford, o qual parecia incapaz de uma produção literária tão genial."

Trata-se de um momento histórico bem específico, aquele em que nasce a teoria romântica do gênio, segundo a qual grandes poetas seriam personalidades que pairavam acima de tudo. E Shakespeare, com sua origem modesta, não se encaixava nisso.

"Então, era preciso encontrar uma identidade para esse ser genial. E aí recorreu-se, justamente, ao filósofo Francis Bacon, que sem dúvida foi um autor importantíssimo do Renascimento. Mas essas peças teatrais ele, com toda certeza, não escreveu."

Para William Shakespeare, a poesia era o ganha-pão, ele era sócio de uma companhia de teatro, através da qual se mantinha financeiramente. Para os adeptos da teoria do gênio, isso era simplesmente prosaico demais.

Vanessa Redgrave als Elisabeth I. in einer Szene des Kinofilms Anonymus (undatierte Filmszene). Die Debatte ist nicht neu, aber der Zweifel bleibt: War William Shakespeare (1564-1616) wirklich der Verfasser von Weltliteratur wie «Romeo und Julia», «Wie es euch gefällt», «Julius Cäsar» und «Hamlet»? Der deutsche Hollywoodregisseur Roland Emmerich schlägt sich in seinem Historien-Drama «Anonymus» auf die Seite jener Forscher, die in dem Adeligen Edward de Vere, Graf von Oxford, den wahren Verfasser dieser Werke sehen. Der Film kommt am Donnerstag (10.11.2011) in die deutschen Kinos. Foto: Sony Pictures Releasing GmbH (zu dpa-Kinostarts vom 03.11.2011 - ACHTUNG: Verwendung nur für redaktionelle Zwecke im Zusammenhang mit der Berichterstattung über den Film und bei Urheber-Nennung)

Vanessa Redgrave como Elisabeth 1ª

A cada um, o seu Shakespeare

No fundo, prossegue Döring, cada época e cada geração montou seu próprio Shakespeare, exatamente como lhe pudesse servir e de acordo com a moda intelectual vigente: o poeta como superfície de projeção para cada sociedade e suas necessidades de identificação.

"De início, vigorava a imagem de Shakespeare, o talentoso filho da natureza. Ela marcou muito a recepção shakespeariana na Alemanha do século 18." Depois veio a noção do poeta erudito, que foi delegada ao filósofo Bacon. Mas o jogo não parou aí.

"Bem na época da Primeira Guerra Mundial, é lançado o livro que põe em cena esse conde de Oxford chamado Edward de Vere. Essa tese partiu de um pregador laico, que vivenciara a Primeira Guerra como destruição, onde toda a ordem e certezas são abaladas."

Cerca de 5 mil publicações questionam se Shakespeare foi o verdadeiro autor das obras sob seu nome: ao longo dos séculos mais de cem candidatos concorreram à "verdadeira identidade". Porém todas essas teorias apresentam lacunas, aponta Christopher Schmidt, articulista do jornal Süddeutsche Zeitung e especialista shakespeariano.

Hollywood elisabetana

Aussenansicht des 1997 eröffneten Globe Theatre in London. (Aufnahme vom 31.8.2000). Der originalgetreue Nachbau des Tageslicht-Theaters von William Shakespeare (1564-1616) ist ein in der Mitte offener, strohbedeckter Rundbau aus Fachwerk und bietet in der Mitte Stehplätze für 1300 Zuschauer unter freiem Himmel, sowie knapp 1000 überdachte Sitzplätze.

Globe Theatre de Londres: peças eram propriedade das companhias

William Shakespeare, de Stratford-upon-Avon, continua sendo o candidato mais certo à autoria das célebres tragédias e comédias, ainda que não ostentasse formação acadêmica. "Ele não era imensuravelmente erudito, mas sim dotado de uma imaginação incomensurável. Um problema da tese de Oxford é que em 1604 Edward de Vere já havia morrido, mais de dez anos antes que Shakespeare cessasse de escrever peças. Esse conde teria que tê-las produzido antecipadamente." E isso é pouco provável, conclui Schmidt.

Não é possível determinar com certeza absoluta a identidade do "Grande Bardo de Avon" por falta de material histórico confiável. Que outras pessoas contribuíram na redação de suas obras, e que ele adotou ideias de atores e colegas dramaturgos é dado como certo, já que era perfeitamente normal na época em que ele viveu.

A melhor forma de entender esse fenômeno, segundo o professor de Literatura Döring, é pensar numa indústria de entretenimento, semelhante a Hollywood. "Não havia direito autoral nem a noção de propriedade intelectual. Os textos pertenciam aos grupos teatrais que, ao encená-los, tomavam posse deles."

"Alguém com o mesmo nome..."

Permanece a questão: o que mudaria, se ficasse constatado que as obras shakespearianas não são do próprio Shakespeare? No máximo, o fato seria de interesse dos estudiosos da literatura, os quais seriam forçados a reavaliar certas conexões e interpretações. Mas isso é tudo.

epa02982209 German Director Roland Emmerich (L) and Welsh actor Rhys Ifans (R) pose during a photoshooting in Zurich, Switzerland, 27 October 2011. German Director Roland Emmerich and Ifang are in Zurich to discuss their latest movie 'Anonymous'. EPA/STEFFEN SCHMIDT +++(c) dpa - Bildfunk+++

Diretor Emmerich e ator Rhys Ifans

Uma deposição do trono dos poetas ingleses teria, certamente, um breve efeito espetacular e, portanto, de diversão. E esta é, talvez, a razão real de toda a busca pelo único e verdadeiro William Shakespeare. Pelo menos o cineasta Roland Emmerich admite: "Antes de tudo, eu queria contar uma história emocionante". E aí, tanto faz se o que está contido em excitantes imagens é fato ou ficção.

Talvez ninguém tenha resumido tão bem a relevância de toda a polêmica sobre a verdadeira identidade do Bardo quanto o pensador e especialista em inteligência artificial nova-iorquino Douglas R. Hofstadter, já no título de seu livro Shakespeare's plays weren't written by him, but by someone else of the same name – an essay on intentionality and frame-based knowledge representation systems: "As peças de Shakespeare não foram escritas por ele, mas sim por uma outra pessoa, do mesmo nome."

Autor: Günther Birkenstock / Augusto Valente
Revisão: Alexandre Schossler

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