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Cultura

Filme brasileiro dá dimensão universal a dilema de descendente de imigrantes

Situado no RS, "Os famosos e os duendes da morte" foi exibido na seção Generation 14plus da Berlinale. Porém não é apenas um filme infanto-juvenil. Muito menos um drama de imigrantes. Entrevista com o autor e o diretor.

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Embate e flerte entre o que é e o que poderia ser: Caneppele (e) e Larré

Um rebuliço de surpresa divertida atravessou a sala do cinema berlinense Babylon Mitte quando a senhora na tela começa a conversar em alemão – ainda por cima com traços do dialeto falado no século 19 na extinta região da Pomerânia. Afinal, os brasileiros não são todos morenos ou negros e o Brasil não é carnaval, futebol e criminalidade?

Os famosos e os duendes da morte se passa, de fato, numa hermética comunidade de imigrantes alemães no Sul do Brasil. Porém esse primeiro longa-metragem de Esmir Filho tem como mérito não apenas manter-se distante de qualquer folclorismo, quer germânico quer tupiniquim. Com segurança cinematográfica, mas quase en passant, ele consegue – ao falar desse "ur-povoado" de imigrantes – construir uma parábola universal sobre migração, despertar e morte de perspectivas, o anseio por outra vida, estranhamento e exílio.

Para os jovens do local, a única interface possível com o mundo e o século 21 é a tela do computador. Mas há também uma ponte física que leva para fora desse ninho-gaiola. A questão é: atravessá-la ou saltar dela para dentro do rio? Nos últimos tempos, alguns têm optado pela segunda alternativa. E um desertor-sobrevivente acaba de retornar.

A Deutsche Welle entrevistou em Berlim o diretor paulista Esmir Filho (27) e o gaúcho Ismael Caneppele (30), autor do livro autobiográfico seminal e ator na produção da Dezenove Som e Imagens, apresentada com sucesso no festival internacional de cinema Berlinale.

Deutsche Welle: Como foi o caminho de Os famosos e os duendes da morte , do livro para o roteiro do filme e de volta para o livro?

Berlinale 2010 Brasilien - Os famosos e os duendes da mort

Diretor Esmir Filho sobre a perigosa ponte

Esmir Filho: Eu encontrei o Ismael pelo primeiro livro dele, Música para quando as luzes se apagam, que falava sobre a adolescência. E de alguma forma me identifiquei com o trabalho dele, porque achei que, de alguma forma, ele estava fazendo na literatura aquilo que eu fazia com os meus curta-metragens, que é falar sobre o adolescente hoje, sobre esse turbilhão de dúvidas que existe na cabeça do adolescente, e que sempre existiu.

Conversamos e ele me mandou um manuscrito, que era como um primeiro draft, nem editado, e eu me encantei pela história, que se chamava Os famosos e os duendes da morte. Eu senti que ele estava falando sobre a adolescência, no sentido mais dolorido da palavra, que é crescer, perder, deixar as coisas para trás, e ao mesmo tempo se conhecer. É a sensação de "eu estou aqui, mas eu não pertenço a este mundo", uma sensação muito louca de não pertencer e pertencer ao mesmo tempo. É muito forte isso, na cabeça do adolescente.

E era muito forte essa história da Alemanha no Rio Grande do Sul, fiquei muito interessado. Pois, ao mesmo tempo que falava desse território tão diferente num país tropical – para mim era diferente, para o Ismael era a vida, o que ele passou – o livro também falava sobre internet, que é um território sem fronteiras. Então esse paralelo para mim era muito interessante.

Então a internet já estava presente no livro, apesar de não ter feito parte da adolescência do Ismael?

E.F.: Sim, é o lance de ter uma leitura do que está acontecendo hoje. Quando eu recebi esse livro, falei para o Ismael: "Estou a fim de fazer um filme sobre isso, você me ajuda? Você conhece as coisas da sua cidade [Lajeado, RS], eu vou escrever o roteiro e queria muito estar junto com você para entender mais, eu quero mergulhar nesse seu universo". Só que a nossa parceria foi tão intensa que eu disse: vamos escrever o roteiro juntos.

A região alemã inclui várias cidadezinhas do Vale do Taquari. E o que eu mais gostei foi do que tem muito no livro e no filme, que é esse gap das gerações; como os mais velhos sempre estiveram ali – tem gente, como os avós dele, que nem fala português –, e como os adolescentes estão super antenados com a internet, fazendo coisas, tentando ter uma voz. É o caso do músico [Nelo Johann] e da menina [Tuane Eggers] do filme. Foi assim que nós dois começamos uma célula, para tentar desenvolver esse universo. Aos poucos, fui conhecendo as pessoas e as fomos integrando, formando uma equipe.

Nessa passagem de um meio para outro, Ismael, houve algo que você sentiu imediatamente necessidade de modificar em seu livro?

Ismael Caneppele: O livro foi muito modificado depois que comecei a transformar em roteiro. Senti que algumas coisas precisavam ser menos explicadas, porque o filme já estava mostrando. Eu queria que o livro fizesse parte do filme, que as pessoas que lessem descobrissem no filme algo que não estava no livro, e vice-versa.

E.F.: Foi um acordo a que a gente chegou, justamente. Eu também não queria adaptar o livro dele com voz off, tudo o que é muito subjetivo lá. Ele é como um blog do menino ["Mr. Tambourine Man", personagem de Henrique Larré], e nós estávamos tentando transpor todas essas palavras subjetivas, esses sentimentos, para imagens, sensações, tentando fazer um diálogo mesmo.

Berlinale 2010 Os famosos e os duendes da morte Flash-Galerie

Henrique Larré: atuação admirável

Mas de certa maneira você abriu mão de seu projeto original. Não sente isso como uma perda?

I.C.: Não, para mim é um ganho absurdo, porque acho que diálogo e parcerias fazem tudo ser melhor. O olhar do Esmir sobre uma história que eu havia apresentado para ele a transformou e deixou muito mais interessante, muito mais viva, acho que foi ótimo.

Acaba se economizando muito tempo. Porque, quando você escreve um livro, o deixa um ano de molho, revê e fala: "Nossa, eu estava falando sobre isso, isso e isso; vou retrabalhar isso, isso e isso". E, tendo um parceiro, você mostra, ele faz todo esse ano que você passaria para esquecer o livro e reler. Essa pessoa que não tem noção do que você criou, lê e fala "Isso, isso e isso!", você começa a retrabalhar e economiza muito tempo.

Vocês conseguem imaginar repetir esse processo?

E.F., I.C.: Sim!

E.F.: O próximo projeto a gente está fazendo juntos, também. Ainda estamos em estudo de nomes, dizemos que estamos offline, porque ainda estamos criando. O novo projeto tem a ver também com os ritos de passagem das pessoas; tem adolescentes, mas acho que vai envolver agora outras idades. Acho que a gente vai dar um passo a mais para falar das dificuldades do ser humano.

Voltando a Os famosos : ao selecionar o elenco mais jovem, vocês adotaram um método pouco ortodoxo, conhecendo e travando contato com os futuros atores primeiro através da internet. Vocês foram procurar a "verdade profunda" dessas pessoas nas personas , nas máscaras que elas adotam no mundo virtual?

E.F.: É esse mesmo o conceito. O que é que o jovem quer dizer, hoje, para o mundo? Como quer ser visto? Então procuramos adolescentes que jogavam coisas interessantes na internet, as fotos, os vídeos deles, o que eles escreviam em blog, tudo gente da região. A gente procurou em flickers, em fotologs, em blogs. A partir dessa primeira seleção, marcamos entrevistas pessoalmente. É muito louco, pois acabou que os principais atores saíram daí.

Enfim, foi muito interessante conhecer essas pessoas primeiro através da internet, para depois fazer a entrevista pessoal e dizer: "Olha a complexidade toda que existe nesse adolescente. Ele fala de um jeito, ele escreve de outro, que às vezes se complementam". É aquela coisa da projeção que ele tem no mundo virtual, e foi muito importante termos feito isso para a seleção, pois é do que o filme fala.

A cidade do filme é um "não-lugar" que nem nome tem, é a essência de um certo tipo de comunidade, como diz o Esmir, é o retrato do Vale do Taquari. Ismael, você sente que conseguiu sair desse lugar? Ou um dia poderia estar de volta à ponte?

Berlinale 2010 Brasilien - Os famosos e os duendes da mort - Ismael Caneppele, Tuane Eggers

Autor/ator Ismael Caneppele em cena do filme, ao lado de Tuane Eggers

I.C.: É louco, porque é como no filme, no livro. Eu tenho tatuada no braço a palavra Geheimnis, que em alemão é segredo, e ao mesmo tempo " gehen Heim", voltar para casa. Acho que a gente sempre vai estar voltando para casa – sempre. Não existe sair, partir, estar no mundo: a casa é o lugar para onde sempre se vai voltar. Então a ponte é um lugar que eu vou visitar muitas vezes, e onde muitas vezes eu vou morrer, ainda.

Toda vez que volto [para Lajeado], sinto que preciso sair de lá, que a cidade está se transformando, as pessoas antigas estão morrendo, o alemão está indo embora do diálogo. É um vazio absurdo, é uma cidade de concreto e asfalto, horrível. É um assassinato, o que estão fazendo. Foi bom termos filmado lá, é um documento para que daqui a dez anos as pessoas vejam o que essa cidade foi, como ela foi bonita, como tinha pessoas interessantes. E como se pode aniquilar, matar toda uma geração, por incompetência e por ganância.

Esmir, a locação do seu filme é ultraespecífica, a temática é supostamente adolescente. E, no entanto, acho que qualquer pessoa que alguma vez se sentiu um "estranho no ninho", que já quis estar "em qualquer outro lugar, menos aqui", consegue se identificar com ele. Você se preocupou ativamente em fazer de Os famosos e os duendes da morte um filme de alcance universal?

E.F.: Como falei: a internet é um lugar sem território, para mim é o acesso, não tem presente, passado, nem futuro. Você falou em partir: acho que todo o mundo aqui partiu para conseguir dar um passo à frente. Em todas as acepções possíveis do termo: se desapegou, viveu pequenas mortes. A gente está sempre deixando para trás as coisas para poder se renovar, se reinventar. Então, o filme todo é uma ponte, e como o menino vai atravessá-la.

Os primeiros 15 minutos do filme são uma loucura, um blur, no sentido cinematográfico, mas que vão levar a certo tipo de clareza depois que você assistiu, depois que passou pela ponte e olhou para trás. Você fala: "Entendi por que eu sofri tanto. Ainda bem que não me perdi na minha dor; ainda bem que eu usei dela para poder dar um passo à frente". Esse sentimento, eu acho que é universal.

Entrevista: Augusto Valente
Revisão: Roselaine Wandscheer

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