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Golpe de 64

Filho de Jango diz que exumação é só início e quer que americanos deponham

Família suspeita que ex-presidente, deposto no golpe de 1964, tenha sido envenenado. Em entrevista à DW, João Vicente Goulart afirma que sempre suspeitou de assassinato e que Brasil precisa se reencontrar com a história.

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Exumação de Jango vai apontar se ele morreu de ataque cardíaco ou foi envenenado

A exumação dos restos mortais do ex-presidente João Goulart (1919-76) tem como objetivo verificar as causas da morte do político, deposto por um golpe militar em 1964. A suspeita da família e do governo é de que Jango teria sido envenenado durante o exílio na Argentina – após sua morte, não houve autópsia.

Em entrevista à DW Brasil, João Vicente Goulart, um dos filhos de Jango, fala sobre a exumação do corpo do pai e as expectativas das investigações. Ele quer que agentes americanos também sejam ouvidos. "Nós da família estamos fazendo tudo que está ao nosso alcance para elucidar esse caso", afirma.

DW Brasil: Qual é o significado político da exumação do corpo de Jango?

João Vicente Goulart: Eu acho de fundamental importância o país se reencontrar com sua história. Uma das grandes preocupações que nós sempre tivemos, inclusive meu pai quando estava no exílio, é que a história não se conta pela vitória eventual dos regimes militares. Agora, nós estamos presenciando esse ressurgimento da história nacional, não somente através da exumação do ex-presidente João Goulart para averiguar o que houve realmente.

O ano de 2014 não é somente o da Copa, estaremos passando também 50 anos do golpe de Estado. E o mais importante de tudo isso não é somente a exumação do presidente João Goulart. Rompeu-se a legalidade em nome das elites brasileiras financiadas pelo governo americano para impedir a reforma do Estado brasileiro. É de suma importância essa revisão política e essa revisão da nossa história.

Desde quando vocês suspeitavam que seu pai pudesse ter sido assassinado?

Desde o enterro, mas nós vivíamos numa ditadura militar. No começo queriam impedir que ele fosse enterrado no Brasil. Depois de muita luta, foi autorizado que seu corpo viesse para o Brasil, mas sem fazer autópsia e sem abrir o caixão. Em 2002, surgiram as primeiras declarações de um agente. Mas, antes disso, o próprio Leonel Brizola já tinha essa desconfiança, porque, nós ficamos sabendo depois, ele mesmo tinha sofrido um atentado no Uruguai, na sua fazenda, com veneno também. Ele foi salvo porque foi até um hospital e conseguiram reverter o quadro.

Já em 2000, houve uma investigação externa da Câmara de Deputados com depoimentos de vários políticos brasileiros, inclusive do ex-governador Miguel Arraes, que tinham conhecimento, por meio do serviço de contraespionagem da Argélia, que João Goulart era o número quatro da lista de extermínio da Operação Condor.

Além disso, nós temos documentos de monitoração do próprio Exército brasileiro, do serviço secreto do Exército, de vários brasileiros que estavam na Argentina naquele momento, inclusive com o endereço do escritório comercial que o meu pai mantinha em Buenos Aires.

E por que só agora o corpo está sendo exumado?

Os indícios são enormes. Houve uma desconfiança desde a sua morte, mas nós não tínhamos condições políticas de pedir essa investigação antes e nem condições técnicas favoráveis para uma elucidação depois de tantos anos.

Você acha que a exumação vai contribuir para revelar a verdade?

Nós da família estamos fazendo tudo que está ao nosso alcance para elucidar esse caso. Eu sempre digo o seguinte: a exumação é apenas um dos meios para se chegar à verdade depois de tanto tempo. A Justiça brasileira tem que cumprir o seu papel legal, constitucional e, principalmente, soberano. Pedimos ao Ministério Público Federal do Rio Grande do Sul que abrisse uma ação cautelar para nós solicitarmos a oitiva dos agentes americanos – que tinham conhecimento da operação – que estão sob proteção do Estado americano e moram dentro dos Estados Unidos.

Mas até agora isso não tem sido feito. A elucidação de um crime não ocorre somente através da exumação, que pode não ser conclusiva depois de tantos anos, mas existem documentos que têm que ser liberados pelo Departamento de Estado americano. Nós esperamos que as autoridades brasileiras assumam com soberania a capacidade de pedir a oitiva ao governo americano dos agentes que lá moram sob proteção do estado americano.

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