Festival Wagner: 100ª edição de uma saga familiar | Cultura europeia, dos clássicos da arte a novas tendências | DW | 25.07.2011
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Cultura

Festival Wagner: 100ª edição de uma saga familiar

Primeiro o mestre, pessoalmente, depois a viúva. Seguiram-se o filho, a nora, os netos. Hoje, as bisnetas de Richard Wagner dirigem os tradicionais festivais de Bayreuth. Uma saga cultural com gosto de telenovela.

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A 'Colina Verde': quase tão mítica quanto as óperas wagnerianas

Richard Wagner (1813-1883) – libretista, compositor e diretor de cena numa só pessoa – queria criar uma casa de ópera inteiramente segundo sua própria concepção. Em abril de 1871, visitou, com sua segunda esposa, Cosima, a idílica localidade de Bayreuth, na Baviera, regida por seu mecenas, rei Ludovico 2º. Wagner ficou tão encantado com a retirada cidadezinha, que decidiu lá transformar seu sonho em realidade.

Em 1872, foi lançada a pedra fundamental da Festspielhaus – a Casa do Festival – e já em 13 de agosto de 1876 erguia-se a cortina para o primeiro Festival de Bayreuth. No programa, a primeira apresentação integral do ciclo de quatro óperas O anel do Nibelungo.

Os primeiros eventos constituíram um fiasco financeiro e uma amarga decepção artística. Ainda assim – quem sabe seguindo sua própria exortação a seus contemporâneos: "Crianças, criem coisas novas!" –-, Wagner compôs uma última ópera, Parsifal. O segundo Festival de Bayreuth, em 1882, constitui-se de várias récitas dessa única obra, com grande êxito. Richard Wagner faleceu em 13 de janeiro de 1883, em Veneza.

A viúva

Portrait Cosima Wagner

Cosima Wagner

Depois disso, sua viúva, Cosima, filha do compositor Franz Liszt, assumiu não só a direção do evento, o qual passou a realizar-se a intervalos irregulares, como a direção de cena de algumas montagens. Nessa fase, foram apresentados na "Colina Verde": Tristão e Isolda, Os mestres-cantores de Nurembergue, Tannhäuser, Lohengrin e O navio fantasma.

Encenação, cenários, marcações cênica e técnica vocal: tudo transcorria sob as ordens estritas de Cosima Wagner. Durante décadas, a decoração de cena não podia ser mudada sob nenhum pretexto, naquele "sítio de culto". Cada procedimento no teatro era ritualizado, como se a intenção fosse estabelecer uma religião.

Os artistas e intelectuais em torno da viúva do mestre promulgavam uma ideologia teuto-nacionalista e étnica, e de caráter antissemítico. Para tal se apoiavam, em parte, nas inequívocas tiradas de ódio do panfleto wagneriano O judaísmo na música. A publicação Bayreuther Blätter difundia essas ideias, tornando-as perfeitamente aceitáveis nos meios da burguesia.

O filho

Bayreuth: eine Familiengeschichte

Siegfried Wagner

Antes mesmo do matrimônio, o casal Wagner teve três crianças. O único filho, Siegfried – homossexual, muito viajado, sensível e cosmopolita – trilhou a carreira de compositor e regente. Quando Cosima renunciou à direção dos festivais, em 1908, não havia dúvida sobre quem seria o sucessor.

Siegfried Wagner introduziu algumas cautelosas inovações no estilo cênico do festival e o salvou de desaparecer definitivamente, em meio ao caos reinante durante e após a Primeira Guerra Mundial. Em 1915, aos 46 anos, casou-se com a inglesa Winifred Williams, na época contando apenas 17 anos de idade.

A nora

Winifred Wagner

Winifred Wagner com filhas Friedelind (e) e Verena

Em 1930 faleceu Cosima Wagner, e Sigfried a seguiu poucos meses mais tarde. Como sucessora na direção do Festival de Bayreuth, sua viúva, Winifred Wagner, revelou-se vigorosa e taticamente inteligente. Além de wagneriana devota, ela era uma adepta ferrenha de Adolf Hitler. Em 1923, portanto dez anos antes de subir ao poder, ele visitara Bayreuth, onde encontrou forte empatia ideológica. Winifred tornou-se então sua amiga próxima, para o resto da vida.

A ligação com o "Führer" assegurou a sobrevivência dos festivais wagnerianos. Nos primeiros anos do regime, Hitler foi hóspede constante de "Wahnfried", a residência do gênio musical e seus descendentes. Durante os "Festivais de Guerra", por fim, só se apresentava uma única obra: a comédia Os mestres-cantores de Nurembergue. O público era formado quase exclusivamente por convidados e soldados feridos, a quem se prometia "cura" através da música de Wagner.

Os netos

Bayreuth Tannhäuser 1961

Wieland Wagner (d) e cantor Dietrich Fischer-Dieskau

A Festspielhaus foi poupada pelos estragos da Segunda Guerra Mundial. E logo os adoradores da música de Wagner se puseram em atividade para reavivar os eventos ideologicamente avariados. Em 1951 teve início a era da "Nova Bayreuth", sob a direção conjunta de dois netos de Wagner, Wieland e Wolfgang.

Sob o lema "desatravancar", Wieland, que estudara artes plásticas, estabeleceu um estilo de encenação despojado, situando as obras numa dimensão mítica. Wolfgang, formado em Teoria Teatral e Musicologia, se encarregou sobretudo do aspecto empresarial e organizatório.

O Festival de Bayreuth voltou, assim, a atrair os mais aclamados cantores e regentes. Numa entrevista à Deutsche Welle, o regente alemão Peter Schneider comentou: "Esse sentimento de que os maiores do nosso metier – Toscanini, Richard Strauss, Fürtwängler, Knappertsbusch, Karl Böhm – atuaram neste local, isso irradia uma enorme força – e, naturalmente, também uma enorme responsabilidade. E também um grande nervosismo de fazer jus a essa expectativa".

Bayreuth Götterdämmerung 1954

'Crepúsculo dos deuses' em Bayreuth,1954

Em 1966 Wieland Wagner faleceu de forma totalmente inesperada. Wolfgang assumiu sozinho a direção, ficando como único responsável pelos festivais durante 42 anos. Ele atentava para cada detalhe, desde a iluminação até a escolha do elenco. Além de apresentar montagens próprias, convidou os mais interessantes homens de teatro de sua época para Bayreuth, a fim de que realizassem suas próprias concepções.

Em 1976, 100 anos após a fundação do Festival Wagner, subiu à cena a encenação do Anel pelo francês Patrice Chéreau. O que, na época, foi um escândalo teatral tremendo, e considerado sacrilégio pelos tradicionalistas, acabaria mais tarde sendo reconhecido como ponto alto bayreuthiano. Nesse mesmo ano, Wolfgang Wagner separou-se da esposa Ellen, desposando a colega Gudrun Mack.

As bisnetas

Das neue Fuehrungsduo der Bayreuter Wagner-Festspiele,

Eva Wagner-Pasquier (e) e Katharina Wagner

Em 1973, todos os bens da família, inclusive o teatro de ópera, foram transferidos a uma fundação, também encarregada de decidir sob a sucessão. A partir de 1995, essa questão tornou-se assunto de discórdia e especulação constante, tanto dentro da dinastia como na mídia.

Ao mesmo tempo, certos observadores acusavam sinais de estagnação na Colina Verde. Com estas palavras Wolfgang respondeu à exigência de grandes espetáculos: "Não somos uma fábrica de filmes, que todo ano tem que lançar algo sensacional. Tenho que convocar continuamente gente que crie montagens refletidas e equilibradas".

Em março de 2010, o velho senhor de Bayreuth faleceu. Ele se aposentara apenas dois anos antes, entregando a direção às duas filhas, Eva Wagner-Pasquier e Katharina Wagner.

Wolfgang Wagner kündigt Rücktritt an

Wolfgang Wagner

Desde então, o Festival de Bayreuth, sob a direção da quarta geração dos Wagner, vivenciou uma abertura midiática, com podcasts, livestreams e exibição em telão das récitas, grátis e ao vivo. Fala-se de "um vento fresco na Colina".

Com todos seus altos e baixos, o festival entra em 2011 em sua centésima edição. Contudo, todas as produções exibidas até o momento foram contratadas durante a era Wolfgang Wagner. A assinatura artística das bisnetas só se fará perceber em 2013, com uma nova montagem do Anel do Nibelungo e a estreia de três obras da juventude de Richard Wagner. Estas últimas, não só na Casa do Festival, como num outro palco da cidadezinha bávara.

Autor: Rick Fulker / Augusto Valente
Revisão: Alexandre Schossler

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