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Cultura

Festival de Berlim põe excluídos na tela

Mostras do Festival de Cinema de Berlim dão voz a rappers cariocas, catadores de papel argentinos e desabrigados nas ruas de Hollywood. Diretores brasileiros discutem as contradições da cinematografia do país.

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Cena do documentário "Falta tu", de Guilherme Coelho

Com Dieter Kosslick na coordenação do festival há três anos, Berlim vem se despedindo aos poucos da proximidade que havia adquirido com o mainstream cinematográfico e deixando, pelo menos em parte, de priorizar estratégias de marketing em prol da qualidade. Sem ignorar, obviamente, que o cinema só sobrevive porque co-existe ao lado (e para) o mercado.

Porta de entrada

Com uma participação brasileira considerada boa pelos distribuidores (quatro filmes), mas relativamente pequena se vista em um contexto geral, o festival alemão não deixa, no entanto, de ser uma das principais portas de entrada de uma produção no circuito mundial. "Berlim abre a temporada dos mercados de cinema. A maioria dos exibidores está presente e há sempre a expectativa de que alguma coisa aconteça", comenta em debate na embaixada brasileira em Berlim Roberto Moreira, diretor de Contra Todos, um dos dois longas de ficção presentes na mostra Panorama.

Para o próprio Moreira, Contra Todos "não é um filme fácil; é um cinema de roteiro, de atores e de baixo custo". Lembrando a violência verbal enclausurada no espaço claustrofóbico que o espectador brasileiro já havia visto em Um Céu de Estrelas (1996), de Tata Amaral (com Moreira de co-roteirista), a aspereza de Contra Todos se encaixa, contudo, nessa espécie de novo perfil adquirido por Berlim nos últimos anos.

Um perfil que vem certamente se abrindo cada vez mais para a cinematografia latino-americana. "Dessa vez, vendemos Narradores de Javé, de Eliane Caffé, e Amarelo Manga, de Cláudio Assis, e estamos conseguindo um espaço cada vez maior", expõe Tarcísio Vidigal, do Grupo Novo de Cinema e TV.

O êxito tem sido certamente favorecido pela diversidade que assume o cenário cinematográfico brasileiro, como salienta o ator José Wilker, atual presidente da Riofilme: "Da retomada (início da década de 90) para cá, o Brasil ganhou 55 novos diretores". Mesmo que boa parte destes esteja no Rio e em São Paulo – "este gargalo estreito, onde poucos entram", nas palavras do roteirista Doc Comparato, que dá atualmente aulas na Academia Alemã de Cinema e Televisão, em Berlim.

A lucidez do "Outro"

Bem cuidado esteticamente, mas longe de qualquer tentativa de maquiar a pobreza através de artifícios formais, o filme do paulista Moreira, ao lado do documentário Fala Tu, do carioca Guilherme Coelho (também incluído no ciclo Panorama), mostram-se como excelentes cartões de visita do país no festival. Sincero, Fala Tu toma três rappers da periferia do Rio de Janeiro e desfila suas biografias doloridas, sem ser patético.

Entre os personagens na tela e o espectador (seja ele europeu ou brasileiro), não surge um abismo provocado por uma miséria exacerbada, que distancia os personagens na tela da classe média branca e rica – geralmente aquela que freqüenta as salas de cinema. Fala Tu traz protagonistas que refletem com lucidez a situação em que vivem e discorrem de forma articulada sobre as saídas que têm ou deixam de ter.

Longe de qualquer otimismo raso, o documentário tampouco omite a dor nas biografias ou as enormes dificuldades no percurso dos retratados. A câmera, afinal, está ali para mostrar exatamente isso. O caráter sui generis do documentário está em não excluir, por princípio, aqueles que escolhe colocar na tela. Em não expor a miséria alheia para o olhar curioso do Outro, mas expor esse Outro como alguém que poderia ser o próprio espectador. Ou seja, o rapper do Estácio na tela, enquadrado na categoria do eu, tu e não na do eles.

Carrinhos e carrinhos

Também dando voz a camadas da população que se mantêm excluídas, dois documentários presentes em Berlim trouxeram catadores de papel argentinos – conhecido como cartoneros – em El Tren Blanco, de Nahuel García, Sheila Perez Giménez e Ramiro García. O documentário argentino, por sua vez, é "inversamente proporcional" ao que um jornal alemão chamou de misery chic em Trollywood, da inglesa Madeleine Farley.

Se os dois filmes têm "meios de locomoção" como fio temático (em El Tren Blanco, os carrinhos de mão dos cartoneros; em Trollywood, os carrinhos de supermercado usados pelos mendigos nas ruas de Beverly Hills), um verdadeiro abismo estético separa a produção coletiva argentina do quase videoclipe da inglesa Farley.

Produzido após um longo contato entre os catadores de papel e os diretores do filme, El Tren Blanco consegue dar voz àqueles que não dispõem de "microfones". Já Trollywood, por mais que tente e apele para uma walk on the wild side da trilha que inclui Velvet Underground e Lou Reed, consegue apenas falsificar um voyeurismo branco e rico travestido de human touch.

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