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Cultura

Feira do Livro de Frankfurt polemiza por privilegiar língua catalã

"Unidade na diversidade" é um lema da União Européia. Destaque da Catalunha na Feira do Livro de Frankfurt gera debate sobre legitimidade de privilegiar o catalão em detrimento do espanhol. Exceção ou exclusão cultural?

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'Singular e universal', lema da participação catalã na Feira de Frankfurt

A Feira do Livro de Frankfurt dificilmente pode mostrar a complexidade da produção cultural e literária internacional. Nem é essa a meta de uma feira de negócios. Mas ao eleger a Catalunha como região de destaque, em sua atual edição, de 10 a 14 de outubro, o evento desencadeou um debate inflamado sobre identidade cultural e pluralidade.

O estopim foi a decisão do Instituto Ramon Llull, encarregado pelo governo catalão de organizar a participação na Feira, de levar a Frankfurt apenas autores que escrevem em catalão, embora grande parte dos escritores catalães escrevam em espanhol.

Katalonien ist nicht Spanien Plakat bei Fußballspiel in Spanien Autonomie Unabhängigkeit

Torcedores do FC Barcelona propagam slogan separatista em um jogo contra ao Real Madrid, em abril de 2006

O mais interessante na discussão é o fato de os defensores e oponentes da decisão de abrir à língua catalã espaço exclusivo na Feira apoiarem a mesma causa. Os primeiros consideram esta uma chance imperdível de mostrar ao mercado editorial internacional a singularidade de uma literatura de longa tradição que teve que ser defendida ativamente contra a hegemonia do espanhol. Os últimos consideram provinciano e segregacionista escamotear que a Catalunha é uma região autônoma bilíngüe e multicultural, onde o espanhol continua sendo a língua mais falada.

Ambos estão defendendo, à sua moda, a diversidade. Quem endossa um incentivo especial ao catalão procura proteger uma cultura local contra as tendências globais de uniformização. E quem reivindica a presença espanhola ao lado da catalã quer que a pluralidade realmente existente na Catalunha seja fielmente espelhada no evento de Frankfurt.

Os dois lados do protecionismo

Uma questão central é até que ponto uma língua e uma cultura necessitam de proteção institucional. O catalão, idioma de uma alta cultura na Idade Média, língua literária do filósofo poliglota Raimundus Lullus, do poeta Ausiàs March e do épico Joanot Martorell, teve que se defender da proibição de seu uso durante longos períodos. No início do século 18, por terem ficado do lado dos perdedores nas guerras de sucessão espanholas, os catalães foram proibidos de se expressar em seu idioma, assim como dois séculos depois, sob a ditadura franquista.

A tentativa de os catalães manterem sua identidade cultural e se resguardarem da hegemonia espanhola não levou apenas a um protecionismo de fundo nacionalista, como o dos literatos da "renascença" catalã, em meados do século 19, que restabeleceram o catalão como língua literária quatro séculos após o apogeu medieval. Na época, a renaixença não apenas resgatou o passado cultural catalão, como construiu um folclore próprio, até então inexistente em parte.

Por outro lado, a tentativa de se distinguir da produção cultural espanhola também sempre levou os catalães a se orientarem por outros países europeus, sobretudo França e a Itália, algo que certamente tornou essa cultura mais cosmopolita e menos incestuosa. O melhor exemplo disso é a vanguarda moderna catalã.

Sobretudo após longas fases de repressão, a proteção institucional sempre contribuiu para o reflorescimento da língua catalã. No entanto, uma literatura subvencionada, mesmo expressa no idioma materno do autor, passa a ter outras restrições, sobretudo a obrigação mais ou menos implícita de ser militante. Para muitos, a grande campanha de resgate do catalão após o franquismo apostou mais em quantidade do que em qualidade, algo que contribuiu para a desconfiança tácita com que muitos ainda encaram esta literatura na Espanha.

Catalunha por escrito, em números

Sejam quais forem os argumentos, fato é que ninguém na Alemanha lamenta a chance de conhecer melhor uma literatura relativamente negligenciada pelo meio editorial. Entre 2002 e 2006, o número de livros catalães traduzidos para o alemão não chegou a 30. Apesar das novas traduções inspiradas pela Feira neste ano, a quantidade ainda continua sendo irrisória em comparação com o volume de produção catalão, que chega a 2 mil títulos por ano.

Números dizem pouco. É por isso que as diferentes interpretações das estatísticas procuram transformar cifras em mensagens. De acordo com os últimos dados do Gremi d'Editors de Catalunya, relativos a 2004, somente 4,4% da população não costuma ler espanhol, mas somente catalão, sendo que a grande parcela de 45,8% lê em ambos os idiomas.

Segundo dados da Federación de Gremios de Editores de España divulgados pelo diário El País, 68,2% dos catalães lêem em catalão. Para uns isso é suficiente; outros vêem a necessidade de defender o idioma de um eventual risco de extinção.

Barcelona, uma das maiores capitais editoriais do mundo, mostra que – independentemente da língua em que se leia – o meio cultural catalão não é nada impermeável. Um quinto dos livros vendidos na América Latina provêm de editoras catalãs, que representam 28% de todo o mercado editorial espanhol. Também foram editoras catalãs que contribuíram decisivamente para um boom da literatura latino-americana na Europa.

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