Falta de resgate histórico explica virada à direita na Hungria, diz especialista | Notícias e análises internacionais mais importantes do dia | DW | 30.03.2012
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Mundo

Falta de resgate histórico explica virada à direita na Hungria, diz especialista

O que está acontecendo na Hungria? Um país entre a violação à Constituição e o controle da mídia. A Deutsche Welle conversou sobre o tema com Manfred Sapper, editor-chefe da revista "Europa Oriental".

Quo vadis, Hungaria? Essa questão foi abordada pela renomada revista científica Europa Oriental. Desde que o partido conservador Fidesz, sob o comando do primeiro-ministro Viktor Orbán, assumiu o governo do país, a Hungria passa por um processo de grande transformação política e social.

Após alterações constitucionais e uma nova lei de imprensa repressiva, declarações antissemitas de conhecidos políticos e cortes no financiamento da arte e da cultura, cada vez mais observadores se perguntam: a Hungria ainda é uma democracia?

A revista Europa Oriental dedicou-se ao tema Hungria. Nela, sobretudo cientistas e jornalistas húngaros avaliam as mudanças sociopolíticas em sua terra natal e explicam onde veem os motivos para a guinada do país à direita sob o governo Orbán. A Deutsche Welle falou com o editor-chefe da revista, Manfred Sapper.

Manfred Sapper, editor-chefe da revista 'Europa Oriental'

Manfred Sapper, editor-chefe da revista 'Europa Oriental'

Deutsche Welle: No editorial da edição sobre a Hungria, você escreveu que ali prevalece, atualmente, uma "cultura do incondicional". O que você quis dizer?

Manfred Sapper:Isso significa que não existem meios-termos. O Fidesz, partido de Viktor Orbán, baniu de sua própria visão política tudo aquilo que constitui um partido democrático normal, ou seja, reconhecimento da competitividade partidária, do pluralismo, da autorrestrição, do Estado de Direito.

Fidesz vivenciou o fato de ter perdido o poder durante o primeiro mandato. Para evitar que isso se repita, o país precisa ser – segundo Fidesz – absolutamente transformado. Cada oportunidade deve ser usada para fortalecer a própria posição. Para nós, isso é a "cultura do incondicional", que caracteriza a cultura Orbán presente atualmente na Hungria.

Quando se leem os ensaios na nova edição de Europa Oriental, tem-se a impressão de que ali se trata de uma situação semelhante à da Rússia sob Putin!

A princípio, tudo pode ser comparado. Mas não igualado. Existe uma diferença qualitativa entre a democracia simulada na Rússia e aquela na Hungria. Existe – pensando no caso Khodorkovsky – um Judiciário influenciado politicamente na Rússia. Apesar de o Tribunal Constitucional ter sofrido cortes em suas competências, a Hungria continua sendo um Estado de Direito. Mas o ponto decisivo é que a Hungria é membro da União Europeia.

E tendências rumo ao desmantelamento do Estado de Direito e do sistema de freios e contrapesos que está no cerne de uma democracia civil liberal espalham, naturalmente, muito mais preocupação num país-membro da UE do que aquilo que acontece fora dela.

Que possibilidades têm agentes culturais, escritores e intelectuais de oposição nos protestos contra a situação na Hungria?

Capa da edição de 'Europa Oriental': 'Para onde vais, Hungria?'

Capa da edição de 'Europa Oriental': 'Para onde vais, Hungria?'

Eles protestam alto, mas são bastante marginalizados na sociedade, que é bastante caracterizada pela dicotomia de pensamento amigo-inimigo. E tal sociedade é dominada pelo pensamento do período entre guerras. A ideologia política do Fidesz opera com ambos. Assim, quebra-se novamente o velho conflito entre a cidade e o campo. Na Hungria, é muito difundida a ideia de que Budapeste seria mundana e ocidentalizada. E muitos intelectuais vivem em Budapeste.

E à direita de Fidesz existe ainda o partido Jobbik. Ele é abertamente nacional-socialista, antissemita, frequentemente racista e xenófobo. Ele promove fortes ataques contra todos os intelectuais. Até mesmo contra pessoas com o calibre intelectual de Imre Kertész, que, no atual cenário cultural, na cultura política da Hungria, foi largamente desprezado pelo partido governista Fidesz.

Enquanto, por outro lado, autores de "sangue e solo" como Albert Wass, um escritor da Transilvânia do período entre guerras, gozam de alta estima. Trata-se de tradições muito peculiares que hoje são socialmente aceitáveis na Hungria. Ali os intelectuais são marginalizados – ainda mais quando eles são judeus.

Olhando para trás na história da Hungria, o que os seus autores em Europa Orientalfazem de forma extensa, leem-se palavras como identidade nacional e consciência história. Como se pode explicar o que aconteceu de errado na Hungria?

Nós lidamos com a seguinte situação: por um lado, a Hungria não elaborou realmente o passado durante o período socialista. E a esse passado pertence o fato de a Hungria ter sido aliada da Alemanha nazista e de ter participado do Holocausto, que em poucas semanas, em 1944, assassinou quase todos os judeus húngaros.

Na Hungria ainda falta o resgate histórico, que nós na Alemanha começamos no início dos anos 1960. Os primeiros 20 anos após a Segunda Guerra Mundial foram marcados pela sublimação. Na Hungria, começa-se a olhar apenas agora lentamente para o período entre-guerras.

E depois há um segundo momento que perpassa muito textos da nossa edição: a abordagem ainda não elaborada da questão de como aconteceu a divisão da Hungria pelos tratados de paz depois da Primeira Guerra Mundial (Tratado de Trianon), quando a nação húngara foi dividida e grande parte do território húngaro foi perdido. Assim, existem até hoje – apesar de todos os Estados serem membros da UE – conflitos nacionais em torno da questão da língua e da realidade cultural. Isso é uma ferida aberta que ainda não sarou.

Soma-se a isso o fato de a situação econômica da Hungria estar muito precária. Dez anos de má administração e política populista, pelo qual os socialistas também são responsáveis, deixaram seus vestígios. Isso tudo criou um ambiente político muito desagradável, do qual se aproveita o populista Viktor Orbán.

Entrevista: Jochen Kürten (ca)
Revisão: Roselaine Wandscheer

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