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Cultura

Fábrica de corpos

Enquanto a "geração silicone" copia os ideais disseminados pela publicidade e alimentados pela indústria do corpo perfeito, a arte aponta para o avesso da perfeição.

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Na corrida pela perfeição, originalidade torna-se out

O semanário alemão Der Spiegel publica, alarmado, em um ensaio: celebra-se hoje, sem o menor constrangimento, a existência de um corpo cada vez mais perfeito. E artificial. Um sem-número de exposições serve para reafirmar a tese. Em Playboy Fotografie, por exemplo, que pode ser vista em Roterdã, "as mulheres retratadas são tão perfeitas, como se alguém as tivesse modelado com o bisturi e o silicone". A sentença da revista não é nada mais nada menos que esta: "Hoje, o corpo só consegue impressionar quando se vê que ele foi manipulado".

Como reflexão imediata dos fenômenos contemporâneos, a arte já estaria dando sua resposta: o suíço Daniele Buetti, por exemplo, tornou-se uma das estrelas do mercado de artes ao tatuar grotescamente as principais modelos do mundo da moda. Não diretamente, é claro. Buetti utiliza reproduções fotográficas dos corpos perfeitos de top models para introduzir neles uma série de cicatrizes. O resultado: propositalmente"asqueroso".

Século do masoquismo? - Na Galeria da Escola Superior de Artes Gráficas e Editoriais de Leipzig, na Alemanha, um grupo de artistas simula a "construção da beleza" na mostra Bellissima. O aviso sarcástico vem logo a seguir: "Há riscos de recaídas e volta ao corpo real". Também na Nova Galeria de Graz, na Áustria, festeja-se, oportunamente, o escritor Leopold von Sacher-Masoch, a partir do qual foi cunhado o termo "masoquismo". "Este será o século dele", anunciam os organizadores de uma exposição e um festival em homenagem ao célebre francês. Século masoquista? Vide as vítimas da bulimia correndo por parques e ruas, academias de ginástica superlotadas e adolescentes tendo seus seios ainda nem completamente formados já cortados nas mesas de cirurgiões.

Ainda segundo o Der Spiegel, até mesmo a nova geração de sociólogos e estudiosos dos fenômenos culturais estariam envolvidos hoje com o "delírio do corpo". Durante o congresso Corpos Utópicos, realizado no Teatro Volksbühne, em Berlim, a conclusão teria sido alarmante: "Sonhos antigos da humanidade parecem se realizar no culto às academias de ginástica e nos esportes radicais, nos corpos de turistas bronzeados e cyberpunks, nas fantasias pornográficas e biotecnológicas".

"Plásticas em fetos" - A pergunta do cidadão hedonista do século 21 é simples: o que me interessam os meandros da política internacional, se tenho que lutar contra os quilos a mais na balança? Seguindo uma nova versão da máxima de Descartes – tenho Botox, logo existo – o martírio de operações plásticas vem sendo praticado ad absurdum. E o desejo de alcançar a perfeição alheia à natureza vai além: deposita-se na engenharia genética a esperança grotesca de que, num futuro próximo, se possa eliminar qualquer ponta defeituosa do corpo humano. Antes mesmo de ele vir ao mundo.

A globalização exige, segundo a revista alemã, "um rosto uniforme". Num mundo onde qualquer traço individual passa a ser percebido como defeito, os quase clones que saem das mesas dos cirurgiões plásticos lutam pelo título de "melhor cópia". Originalidade passa a ser out. Na busca desesperada do artífice, a francesa Orlan - que se autointitula artista performática - entrega seu próprio rosto todos os anos ao bisturi. Sua "metamorfose" já foi inclusive exposta em museu. Seu estado atual? Quase monstruoso.

Pedro Almodovar

Cineasta espanhol Pedro Almodóvar

Corpos inertes - No cinema, Pedro Almodóvar soube há pouco comentar este "espírito do tempo": em Fale com Ela, os dois protagonistas vivem um amor por corpos inertes, inconscientes, em coma. Corpos de mulheres incomunicáveis, enfim. Longas tomadas registram as trocas de roupa nesses corpos imóveis. Como analisa Sergio Benvenuto, na revista Lettre International, "o ritual do colocar e tirar a roupa sublinha a distância entre o ter e o ser. As roupas são o paradigma do que se tem, enquanto a nudez, ao contrário, representa o que o corpo é. A roupa é o aspecto do alheamento do corpo. O deter-se da câmera nessas trocas de roupa sinaliza, de forma irônica, que atrás do outro como objeto surge o outro como real". Descobrir o outro não como objeto e sim como "real": sem dúvida uma tarefa árdua para a "geração silicone".

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