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Mundo

Extremistas muçulmanos aproveitam protestos para promover objetivos próprios

Manifestações contra o filme anti-Islã "Innocence of Muslims" expressam sentimentos religiosos feridos. Ao mesmo tempo, são usadas por radicais em favor de seus interesses, avaliam especialistas.

Um mar de bandeiras verdes, rostos enfurecidos, jovens arremessando pedras e dispostos a tudo para proteger a honra do profeta Maomé. Da Tunísia ao Iêmen, muçulmanos foram às ruas nos últimos dias em protesto contra o filme anti-islâmico Innocence of Muslims e em defesa de sua religião.

"O mundo inteiro precisa reconhecer a raiva em seus rostos, em seus punhos e em seus gritos", disse o líder do Hisbolá, Hassan Nasrallah, no início desta semana em um bairro de maioria xiita em Beirute. "Enquanto sangue correr por nossas veias, não toleraremos insultos contra o nosso profeta em silêncio", declarou na capital libanesa.

Fazia tempo que o líder da organização islâmica não se pronunciava. Nasrallah não se posicionou em público nem mesmo sobre o conflito na vizinha Síria. O Hisbolá preferiu ficar do lado do regime do presidente Bashar Al-Assad, o qual apoiou a organização durante anos. Há meses, circulam rumores sobre a presença de combatentes do Hisbolá na Síria. Agora o grupo se vê ameaçado pela possível queda do ditador.

Nasrallah escolheu o filme anti-Islã divulgado na internet como pretexto para falar a seus seguidores, pois o viu como oportunidade para se apresentar ao mundo como protagonista na luta contra os EUA e, ao mesmo tempo, como defensor do Islã – considera Lurdes Vidal, do Instituto Europeu do Mediterrâneo, em Barcelona. "Com sua aparição, a intenção de Nasrallah é conquistar novos seguidores", afirma a cientista política.

Reivindicações dos extremistas

Proteste gegen Islamfeindliches Video in Beirut

Nasrallah: "Enquanto sangue correr por nossas veias, não toleraremos insultos contra o nosso profeta"

Assim como no Líbano, outros grupos do mundo muçulmano também manifestaram sua indignação com o filme anti-Islã. Da região do Magreb, no noroeste da África, à Península Arábica, o filme foi tomado como oportunidade para demonstrar o próprio poder.

"Ao ocupar o espaço público nos países da Primavera Árabe, os salafistas querem provar que são a força motriz das ruas", escreveu o jornal pan-árabe Al Hayat. "Eles desafiam todas as forças que se apresentam como alternativas islâmicas maduras e organizadas, mas que ainda não desenvolveram suficientemente seu poder."

As motivações dos extremistas são semelhantes, porém, os contextos em que eles atuam são diferentes. Na Líbia, grupos ligados à Al Qaeda tentam se firmar. Com o governo recém-eleito, o poder do Estado ainda não foi consolidado em todo o país.

Os extremistas já se aproveitaram dessa fraqueza em agosto último, quando destruíram túmulos sagrados do Sufismo – corrente mística do Islã –, considerados por eles "impuros". Agora, tentam usar a indignação sobre o filme difamatório em seu favor, diz Reinhard Schulze, estudioso do Islã.

"Tem-se a impressão de que os ultrarradicais responsáveis pelo ataque encontraram no descontentamento com o filme algo como um auxílio de interpretação. Assim, poderiam classificar seu atentado terrorista como um acesso de raiva do povo", considera Schulze.

Mestres da manipulação

Mas a grande maioria dos líbios manteve distância dos destruidores de túmulos e terroristas, assim como a maior parte dos egípcios não se identifica com os objetivos dos salafistas. Ao mesmo tempo, é claro que parcelas da população simpatizam com os radicais, afirma Gamal Soltan, cientista político da Universidade Americana do Cairo.

"Há as duas coisas: um público altamente sensível em termos religiosos, proveniente predominantemente de classes humildes e disposto a se deixar manipular; e há os aproveitadores, que usam a oportunidade para seus próprios interesses", aponta Soltan.

O cientista político interpreta as manifestações como parte de um conflito mais amplo. "Os salafistas concorrem com a Irmandade Muçulmana, pois têm a mesma ideologia. Por isso, ninguém tem interesse em um diálogo nacional. Sejam problemas sociais seja um vídeo anti-islâmico, tudo é motivo para negar legitimidade ao governo e promover os próprios interesses", avalia.

Gaza e Sudão

Sudan Präsident Umar Hasan Ahmad al-Baschir

Governo do presidente sudanês, Omar al-Bashir, pode ter aproveitado filme para desviar atenção da população

Na Faixa de Gaza, o Hamas também aproveita para defender o Islã em um período de contínuos retrocessos políticos, aponta Vidal. A política israelense de assentamentos avança na Cisjordânia, e o rival Fatah alarmou com o pedido de reconhecimento da Palestina como Estado Observador na Organização das Nações Unidas (ONU). Além disso, o Hamas perdeu simpatizantes por conta da demora para cortar relações com o regime Assad.

"Por todas essas razões, o Hamas se mostra como defensor do Islã e, ao mesmo tempo, demoniza os EUA. Assim, o grupo aguça seu perfil, que recentemente perdeu os contornos", considera Vidal.

Enquanto isso, a situação é diferente no Sudão, onde o governo contribui em parte com a violência através da mídia aliada. "A população sudanesa não teria protestado dessa maneira se não fosse conduzida pelo governo", afirma Schulze.

As manifestações vieram em boa hora para a liderança sudanesa. Há cerca de um ano, o Sudão do Sul tornou-se independente, o que significou para o Sudão a perda de grande parte de suas receitas com o petróleo. O governo tenta recuperar os prejuízos com rigorosas medidas de austeridade, que geraram protestos nos últimos meses.

A indignação com o filme pode ter sido aproveitada pelo governo para desviar a atenção dos cidadãos. "Mas se, por um lado, o governo se preocupa com a implementação das medidas de austeridade, por outro, quer evitar algo como uma Primavera Árabe no país", pondera Schulze.

Autor: Kersten Knipp (lpf)
Revisão: Roselaine Wandscheer

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