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Cultura

Exposições relembram "o fundamento da história européia"

Mostras em Berlim e Magdeburg recapitulam o fim do Sacro Império Romano de Nação Germânica, que durou mais de 800 anos e é considerado a pedra fundamental para a união dos países europeus.

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Imperador Franciso 2º em óleo sobre tela de 1792

Quando Francisco 2º abdicou, em agosto de 1806, do trono do Sacro Império Romano de Nação Germânica, chegou ao fim o sistema político mais duradouro nas regiões européias de língua alemã.

O Império é considerado, por muitos historiadores, o precursor do que hoje é a União Européia, por já ter unido, naquele tempo, nações do Mar do Norte ao Mediterrâneo e do Báltico ao Adriático. Fundado por Otto 1º, o Império era formado por centenas de pequenos Estados ou entidades semelhantes a Estados.

Relembrar o Sacro Império Romano de Nação Germânica carregou na Alemanha do pós-guerra, por um longo período, uma conotação pejorativa, devido ao abuso da iconografia do período cometido pelos nazistas. Uma outra abordagem da época começou a ser feita no país apenas nas últimas décadas.

Para marcar o aniversário de 200 anos do fim do Império, estão sendo organizados na Alemanha vários eventos, entre eles duas grandes exposições: uma no Museu Histórico de Berlim e outra no Museu de História da Cultura de Magdeburg.

Em entrevista à DW-WORLD, a diretora do Instituto de História da Universidade de Innsbruck, Brigitte Mazohl-Wallnig, fala sobre o papel do Império na Europa. Autora do volume Uma Era de Transição – 1806: O Sacro Império Romano e o Nascimento da Europa Moderna, a historiadora acredita que a União Européia poderá aprender muito ao recapitular o período encerrado em 1806: "Hoje questionam-se muitos aspectos que já eram debatidos naquela época". Leia abaixo a íntegra da entrevista:

DW-WORLD: Por que o interesse atual pelo Sacro Império Romano de Nação Germânica?

Mazohl-Wallnig: Porque o Império foi a pedra fundamental da história comum européia e deveria estar muito mais ancorado na memória coletiva de todos os europeus do que na verdade está. Voltar os olhos para o período pode contribuir para tirarmos os óculos dos "Estados nacionais", que estamos habituados a usar ao olhar para a história do continente.

Por que o Império acabou desmoronando?

No decorrer do século 18, cada Estado, e em especial os grandes Estados, tomavam para si cada vez mais o modelo absolutista e levavam a cabo uma política interna e externa de poder. O golpe decisivo, porém, aconteceu somente com as Guerras Napoleônicas, quando ficou claro que tanto a Prússia quanto a Áustria não defendiam mais interesses comuns em nome do Império. Em conseqüência, os Estados alemães do sul passaram a fazer o mesmo e entraram em acordo com Napoleão. Assim eles se tornaram Estados autônomos e ganharam soberania.

Até que ponto a ausência de um Estado nacional na Alemanha influenciou a história posteriormente?

Não se trata aqui apenas da Alemanha, mas de toda a Europa Central, incluindo a Itália e a Áustria, com todos os Estados do Leste Europeu. A derrocada do Império fez com que surgisse um vácuo no centro da Europa. Daí surgiram, entre outros, o nacionalismo alemão e o italiano e os Estados nacionais alemão e italiano. Com todas as conseqüências que isso acarretou, chegando até às guerras mundiais do século 20. O dramaturgo austríaco Franz Grillparzer já previu no passado: "Do humanismo, passando pelo nacionalismo, até chegar à bestialidade".

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