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Cultura

Exposições desvendam multitalento de Maurício de Nassau

No quarto centenário do nascimento de João Maurício de Nassau, Siegen dedica duas exposições ao filho ilustre da região. A serviço da Holanda, brilhou nos campos de batalha e foi governador das possessões no Brasil.

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Sempre em pose e condecorado: Johann Moritz von Nassau-Siegen

A exposição "Partida a Mundos Novos – Johann Moritz von Nassau-Siegen, o Brasileiro" só poderia ser dupla, tão movimentada foi a vida do "nosso" príncipe João Maurício e tantos foram os talentos desse nobre altamente condecorado, militar e estrategista, administrador e diplomata, construtor, urbanista e amante das artes.

Holandês, alemão ou brasileiro?

Mas Nassau, um brasileiro? Ele não era holandês? Mitnichten (de jeito nenhum) dizem os alemães, bem sabendo que ele nasceu em Dillenburg, perto de Frankfurt e Siegen, como 13º filho de um nobre da dinastia que se bifurcou numa parte holandesa e uma alemã.

Como há o sobrenome Nassau também na Holanda (além de Luxemburgo e na França) isso explica a confusão no Brasil. Os livros de História do Brasil ressaltam o fato de ele ter sido enviado para governar o Nordeste brasileiro no século 17 pela Companhia das Índias Ocidentais, que era holandesa. O objetivo desta era levar a guerra contra a Espanha às suas colônias nas Américas. Na época, Portugal estava unificado à Espanha.

O cognome de "brasileiro" foi para chamar a atenção dos visitantes alemães para o que quase não se conhece aqui na Alemanha: as atividades de Johann Moritz no Brasil, para onde ele levou cientistas, pintores, arquitetos e cartógrafos que fizeram todo um "inventário" do Brasil de então.

Uma vida de viagens pelo mundo

Franz Post, Das Dorf Ipojuca, Siegerlandmuseum Siegen.jpg

Ipojuca, perto de Recife, em pintura de Frans Post, um dos pintores que acompanhou o príncipe ao Brasil

A segunda exposição, no Museu de Arte Contemporânea de Siegen, dedica-se a essas atividades, enquanto a primeira, sobre sua vida e seus feitos no velho continente está no regional Siegerlandmuseum, no próprio castelo superior de Siegen, no topo de uma colina com vista para as montanhas. Foi ali que João Maurício passou a infância.

No salão dedicado à sua biografia, que se estende de Siegen à Holanda, do Brasil ao Principado de Brandemburgo, fica-se sabendo, por exemplo, que as terras de seu pai foram divididas em 1623, por questões de herança. Foi quando surgiram três condados, entre estes o de Nassau-Siegen, nome pelo qual o príncipe é conhecido na Europa.

No entanto, João Maurício só se tornou príncipe posteriormente, em 1652, depois de retornar do Brasil. Somente a enumeração de suas posses, títulos e condecorações toma sete linhas do catálogo que acompanha a exposição e que é de grande valor, já que não há nenhuma biografia publicada na Alemanha sobre Nassau.

O brilho da carreira militar

Filho de um conde de poucas posses para os muitos filhos que teve, Johann Moritz recebeu boa educação e depois seguiu a carreira militar a serviço da Holanda, na época da guerra dos Trinta Anos, de cunho religioso, e da guerra de 80 anos contra a Espanha. Graças a seus êxitos militares, tornou-se marechal-de-campo da Holanda em 1667.

Livros raros sobre manejo de armas e táticas militares, como um manual ilustrado de esgrima, de 1628, cedido pela Biblioteca Real de Haia, documentam essa fase de sua vida, bem como uma armadura do começo do século 17 e um tipo de espingarda para lançar granadas, com seu emblema.

Frans Post in Caspar Barlaeus Grundriss von Vrijburg

Esboço de F. Post do castelo Vrijburg, em Recife

Tendo salvo as cidades sitiadas de Maastricht, Breda e Schenkenschanz (1636), Johann Moritz tornou-se o grande especialista em cercos militares. Mesmo com idade avançada e a saúde debilitada tornou a pegar em armas quando a Holanda novamente foi atacada pelo bispo de Münster e, posteriormente, pelos franceses. Aos 70 anos comandou sua última batalha a cavalo.

Na primeira fila do poder

Poucos nobres alemães atingiram tanta influência como Johann Moritz von Nassau-Siegen, o que fica patente no salão dedicado a seu prestígio e carreira. Lá está ele sempre em primeiro plano, entre os grandes soberanos, em inúmeros quadros. O auge de sua carreira nesse sentido foi ter representado o príncipe eleitor de Brandenburgo na escolha do imperador alemão, em Frankfurt, em 1658, o que lhe valeu um lugar de destaque também na coroação de Leopoldo I. Pouco antes de tornar-se príncipe, recebeu uma alta condecoração da Ordem dos Cavaleiros de São João.

No Brasil, onde esteve de 1636 a 1644, destacou-se por permitir a liberdade de religião. Como administrador, conseguiu apaziguar os ânimos contra os holandeses e fazer um pacto com os donos de engenho, demonstrando uma preocupação social além do que lhe impunha seu cargo de regente para a Companhia das Índias Ocidentais.

O construtor e urbanista

Sua paixão como construtor e urbanista ele demonstrou com o saneamento de Recife e a construção da Mauricéia (Mauritsstad), a cidade que planejou racionalmente, com ruas, praças, canais, parques e jardins. Lá ele mandou construir seu castelo Vrijburg (Friburgo) e uma residência de campo em Boa Vista.

Frans Post in Caspar Barlaeus Boa Vista

Casa de campo de Nassau em Boa Vista

Ao retornar à Europa, teve outra oportunidade de dar asas a seu gênio criador, ao tornar-se regente das regiões à beira do Rio Reno, pertencentes ao príncipe eleitor de Brandemburgo. Em Kleve, cidade próxima à fronteira com a Holanda, que ele encontrou destruída pela guerra, as marcas de sua passagem como administrador e urbanista puderam ser admiradas por vários séculos.

Organizadas com grande esmero por uma equipe interdisciplinar da Universidade de Siegen, as exposições reúnem 300 quadros, gravuras, desenhos, mapas, plantas de arquitetura, esculturas, maquetes, armas, livros e documentos. Eles foram cedidos por 80 museus, bibliotecas e arquivos de Copenhague ao Rio de Janeiro, o que exigiu mais de três anos de preparativos. A maior parte das obras, que podem ser vistas até 29 de fevereiro, pertence a acervos de cidades holandesas e alemãs.

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