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Cultura

Exposição em Berlim desmistifica a jovem arte contemporânea japonesa

"The Echo" mostra a nova geração de artistas japoneses, que trabalham no país e no exterior. Rompendo clichês e tradições, eles refletem sobre suas raízes e as possibilidades de viver em contato com diferentes culturas.

The Echo – Although I am still alive (O eco – embora eu ainda esteja vivo, na tradução livre do inglês) é o nome de uma exposição em cartaz em Berlim que mostra um pequeno panorama do trabalho de jovens artistas nascidos no Japão e busca atualizar a percepção que o público tem da arte contemporânea japonesa.

Uma das premissas da exposição é declarar que há uma nova geração de artistas japoneses que reúne uma grande multiplicidade de posições artísticas, tanto no conteúdo quanto no estilo. Essa nova geração é o reflexo do mundo contemporâneo, onde os jovens japoneses podem sair do país e se instalar em diversos locais do mundo. Dos dezessete artistas que participam da exposição, dez vivem e trabalham em Berlim.

The Echo

"Untitled (Hula-hoop)", de Kengo Kito

A mobilização dos artistas japoneses na cidade começou em 2011, quando um evento de caridade foi organizado após o trágico terremoto de Fukushima. O artista e organizador Nobuhiko Yamamura reuniu a obra de mais de 158 artistas de todo o mundo que vivem em Berlim para a exposição Hilfsaktion für Japan (Ação de ajuda pelo Japão). O evento serviu não só para arrecadar dinheiro para as vítimas como também para criar uma rede de artistas japoneses que trabalham e vivem na cidade.

Em 2008, uma rede semelhante havia dado origem à exposição The Echo em Yokohama, e a associação entre esses dois eventos resultou na exposição agora em cartaz em Berlim. "The Echo não coloca barreiras entre artistas e curador. Queremos que a arte reverbere em todos os lugares possíveis. Queremos espalhar a arte japonesa pelo mundo", disse o artista Kengo Kito, um dos organizadores da mostra, à DW Brasil. Ele contou com ajuda de outros artistas para montar um panorama atual dessa nova geração, tanto em Berlim quanto em Yokohama.

The Echo

"Track of At[o]m", de Takahiro Ueda

Segundo Kito, o mundo da arte contemporânea no Japão não está tão bem estabelecido como na Europa e os artistas encontram dificuldades e resistências dentro de seu próprio país. "No mundo das artes no Japão, tanto curadores como a imprensa tendem a valorizar apenas a arte contemporânea vinda dos Estados Unidos e da Europa. Por isso é importante trabalhar diretamente com os artistas para encontrar o que de mais atual é feito por japoneses dentro e fora do país", completou.

Mostrar uma arte verdadeira e genuína, que fuja de referências óbvias à cultura japonsesa, também é um dos objetivos da mostra. "As pessoas acham que o Japão só produz anime, videogames e arte grotesca e erótica", declarou Michko Ogura, outro organizador da exposição. Quebrar tradições, refletir o agora e olhar para o futuro são pontos que Ogura buscou ao selecionar os trabalhos para The Echo em Berlim. "Os artistas são jovens, originais, versáteis e da mesma geração. Queremos mostrar que temos orgulho de sermos japoneses, mas somos pessoas do mundo", disse o curador.

The Echo

"In a fever", de Takeshi Makishima

Multiculturalismo berlinense

O artista mais jovem da exposição, Takahiro Ueda, procurou a cidade pois queria encontrar interesse pelo seu trabalho, que utiliza transmissões de satélite. Ele altera a frequência delas para criar imagens e sons desconjuntos e impactantes. "Sempre me falavam para vir para Berlim. Fiz uma visita e acabei ficando. A cidade mudou minha perspectiva artística e a maneira como vejo o mundo", declarou.

"É incrível poder estar num ambiente onde tanta arte está sendo produzida e por pessoas de lugares tão diferentes", empolga-se Futo Akiyoshi, artista que vive há mais de um ano na capital alemã. "Acho fascinante como a arte e a vida cotidiana estão conectadas aqui em Berlim."

The Echo

"Fyodor Dostoevsky Theater", de Kounosuke Kawakami

O artista resolveu se mudar para a cidade porque seu trabalho tinha maior aceitação fora do Japão do que no próprio país. Ele aponta vários motivos para essa resistência. "No Japão não há uma tradição de arte contemporânea, isso não faz parte do nosso mundo artístico. As grandes galerias só se interessam pela arte tradicional japonesa e o sistema lá também é diferente. Só os artistas consagrados conseguem exibir, pois as galerias têm que ser alugadas e funcionam como um showroom", explicou.

Consequentemente só os grandes artistas conseguem ser independentes e exibir seu trabalho. "A internet não só trouxe informação sobre o que estava acontecendo no mundo das artes, como é uma ferramenta fundamental para nos organizarmos." Mesmo assim ele não é otimista em relação ao futuro. "Não acredito numa mudança profunda. Quem tem dinheiro no Japão só se interessa por arte tradicional ou estrangeira", lamentou.

Vivendo como um hamster

Visões típicas de clichês japoneses também são questionadas. Um dos trabalho mais interessantes da exposição é sem dúvida The reason why I become a hamster (a razão pela qual eu me torno um hamster, na tradução do inglês) da japonesa radicada em Berlim Sako Kojima. Ela se veste como um hamster e dentro de uma jaula gigante se comporta como o simpático roedor, durante seis horas por dia e por todo o período da exposição.

A ideia surgiu quando a artista passou um verão inteiro sozinha dentro de casa. Ela só saia para ir ao supermercado comprar comida. O vazio da vida se resumia a comer e dormir. Assim ela encontrou o ponto em comum entre a sua vida e a de um hamster. Se tornar o bichinho de estimação adorado por crianças de todo o mundo foi a maneira que ela encontrou para mostrar como a sociedade perdeu o prazer em viver e se conformou com o sobreviver.

The Echo

Sako Kojima na performance "The reason why I become a hamster"

O sofrimento das almas encarceradas numa vida infeliz em pequenos espaços urbanos, que são como jaulas, é expressado através de um esforço físico e mental que parece não afetar a artista, que diz se esvaziar completamente e se tornar um verdadeiro hamster em tamanho gigante quando está realizando sua performance. Sua dor física, resultado de ela se comportar como um animal, reflete a dor mental, a automutilação e a anorexia nervosa de uma sociedade superprotegida e ao mesmo tempo frágil.

A diversidade em diferentes formas de expressão que vão da escultura à performance, passando pela videoarte e a pintura, mostram a preocupação da geração que cresceu entre o peso da tradição cultural e o frenético desenvolvimento tecnológico. The Echo oferece a oportunidade de vermos o começo de uma revolução – ou ao menos uma polaroide da arte feita hoje por jovens e globalizados japoneses.

The Echo – Although I am still alive está em cartaz até o dia 27 de agosto no Kunstraum Kreuzberg/Bethanien em Berlim.

Autor: Marco Sanchez
Revisão: Alexandre Schossler

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