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Alemanha+Brasil

Exposição de fotos em Berlim reflete sobre história dos negros no Brasil

"Afro-Brasil - O retrato fotográfico no Brasil 1869/2013" traça paralelo entre imagens feitas pelo alemão Alberto Henschel no século 19 e cultura negra no país hoje.

Alberto Henschel deixou a Alemanha em meados do século 19. No Brasil, entre 1866 e 1870, abriu quatro estúdios fotográficos: em Recife, Salvador e no Rio de Janeiro. Na então capital do império, seu trabalho era popular entre os membros da corte, o que lhe rendeu o título de fotógrafo da Casa Imperial.

"Dom Pedro II era fã e um grande incentivador da fotografia, com isso o Brasil é um dos países com a melhor documentação fotográfica do século 19", disse à DW Brasil o curador da exposição Afro-Brasil - O retrato fotográfico no Brasil 1869/2013, Marcelo Cardoso Gama.

Diferente contexto

Marcelo Gama, que vive há 18 anos em Viena, estava em um processo de redescoberta do Brasil e procurava projetos para desenvolver no país. Ao lado da fotógrafa Luciana Gama, que havia retornado de uma temporada em Israel, eles abriram uma produtora e decidiram trabalhar com o tema da comunidade afro-brasileira no país. No processo de pesquisa, eles encontraram os retratos de Henschel.

Afro-Brasil - Porträtfotografie in Brasilien 1869-2013

Os retratos de Alberto Henschel nunca foram exibidos no Brasil

A descoberta da série de fotos foi o ponto de partida para a exposição, que depois de uma temporada em Stuttgart está agora em cartaz em Berlim. "Essas fotos nunca foram mostradas no Brasil e fazem parte do arquivo de um instituto científico em Leipzig. Queríamos inseri-las em um contexto artístico", explicou.

Além dos retratos do século 19, essa reflexão artística sobre o papel e a história do negro na sociedade brasileira conta com dois trabalhos de Luciana Gama – uma série de fotos feitas em São Paulo e uma instalação desenvolvida em parceria com Marcelo – e a série Objetivação do corpo, do fotógrafo mineiro Estáquio Neves.

Imagens antigas e atuais

O centro da exposição é a relação entre as fotos de Henschel e uma série de imagens atuais, sobrepostas por depoimentos dos retratados. "Não queríamos que toda a discussão ficasse atrelada ao aspecto da escravidão, mas uma contribuição para uma história de liberdade", disse o curador.

Marcelo e Luciana Gama partiram para as ruas de São Paulo com cópias das fotos de Henschel. "Queríamos que as pessoas refletissem a maneira que queriam ser fotografadas e não que nós determinássemos como essas imagens tinham que ser feitas", explicou.

Afro-Brasil - Porträtfotografie in Brasilien 1869-2013

A procissão da Irmandade Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos foi fotografada

Para o curador, essa experiência foi moldando o percurso que resultou no formato da exposição: os retratos de Henschel nas paredes laterais e as fotos feitas por Luciana em parceria com os retratados projetadas na parede do fundo, acompanhadas de um trechos de depoimentos dessas pessoas, coletados e narrados por Marcelo.

"Queria ver se conseguiam reconhecer algum tipo de expressão de dignidade naquelas fotos nunca mostradas no Brasil e, a partir dessa inspiração, fazer uma reflexão sobre sua identidade como cidadão e a maneira que queria ser fotografados", disse Marcelo.

Olhar mais de perto

Nesse processo, a dupla acabou entrando em contato com a Irmandade Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, que resultou em outra série de fotos feita por Luciana.

"É uma irmandade que existe há 300 anos e vem da época em que os negros foram proibidos de praticar suas religiões africanas. Eles foram convertidos ao catolicismo, mas não podiam frequentar a igreja. Assim, para praticar a religião, eles tinham que construir suas próprias igrejas. Até hoje, eles não contam com ajuda financeira da igreja e mantêm a irmandade com os dinheiro do próprio trabalho. Quando aparecemos querendo discutir problemas de identidade, eles abraçaram o projeto", contou Marcelo.

Afro-Brasil - Porträtfotografie in Brasilien 1869-2013

Estáquio Neves discute a comercialização do corpo da mulher negra

A série feita pela fotógrafa mostra, através de retratos de indivíduos, diferentes aspectos da comunidade em sua procissão anual pelas ruas de São Paulo, dando atenção a pequenos, porém simbólicos, detalhes. Essas imagens também possibilitaram trazer materialidade para a exposição, já que são envoltas em véus.

"Criamos um contraponto com os retratos projetados, que é mostrado em um tempo pré-determinado. Cobrir as fotos com o véu cria a possibilidade das pessoas escolherem ver através dele ou abrir para ver mais de perto, aproximando o público dessas histórias", explicou o curador.

Afro-Brasil ainda conta com Objetivação do corpo, série feita pelo fotógrafo Estáquio Neves. "Tratamos de uma história que não é nossa. Convidamos Neves porque ele tem um extenso trabalho em retratar a comunidade negra. Ele trabalha com sobreposições de fotos e com intervenções no negativo estabelecendo uma imagem bastante surreal. Os trabalhos escolhidos têm uma forte corporeidade e discute a comercialização do corpo de mulher negra", disse Marcelo.

A exposição ainda não tem previsão de chegar ao Brasil. "Os patrocinadores não se interessam pelo tema. Quem sabe agora com um histórico legal e com um belo catálogo podemos apresentar o projeto no Brasil de outra maneira e finalmente mostrar esses retratos Henschel nunca exibidos no país", concluiu.

Afro-Brasil. O retrato fotográfico no Brasil 1869/2013 está em cartaz na galeria do IFA em Berlim até 30 de março.

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