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Cultura

Existe Música Nova no Brasil?

Compositora e música paulistana Silvia Ocougne fala à DW-WORLD sobre a música contemporânea brasileira, um dos focos do festival MaerzMusik, em Berlim.

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Silvia Ocougne toca instrumentos preparados

DW-WORLD O diretor artístico do festival MaerzMusik, Matthias Osterwold, declarou que, após ter assistido a um festival de Música Nova no Brasil, chegou à conclusão de que não havia Música Nova no Brasil. Agora, você e Chico Mello, que vivem em Berlim há cerca de 20 anos, montaram o programa brasileiro do festival de música contemporânea MaerzMusik, que até inclui um debate entre compositores brasileiros sobre esta questão. Mas afinal, na sua opinião, existe ou não existe Música Nova no Brasil?

Silvia Ocougne ― É uma questão complicada. Quando eu estudei composição no Brasil, acreditava que o que existia lá era uma cópia mal feita. Existe uma série de compositores brasileiros que optaram por uma estética de silêncio, que acham que não vale a pena compor uma cópia de uma música européia que não pode existir no Brasil, porque os ouvidos são outros. Música acadêmica contemporânea no Brasil é como sambão na Alemanha.

De um ponto de vista histórico, a música erudita que existia no Brasil antes de 1922 era feita por compositores que imitavam Chopin ou Debussy, por exemplo, e excluíam todo elemento brasileiro e evitavam a mistura de popular e erudito. A semana de 22 passou a propagar uma música brasileira. Então vieram todos os nacionalistas, como Camargo Guarnieri e outros, que faziam uma música nos moldes eruditos, usando harmonias mais diferenciadas, mas com elementos populares brasileiros. Digamos, eles faziam um samba mais chique do que o samba, e com isso emburreciam tanto uma coisa quanto a outra.

O que isso tinha de contemporâneo? Foi Koellreutter que levou para o Brasil a música serial, dodecafônica da segunda Escola de Viena, provocando altos escândalos e brigas com os nacionalistas. Os que seguiam a escola do Koellreutter e o grupo Música Viva só faziam uma música estritamente pós-schönberguiana. Quanto eu entrei na USP, violão era um instrumento absolutamente impensável, por ser popular.

Silvia Ocougne MaerzMusik 05 Berliner Festspiele

Silvia Ocougne

Só que a primeira coisa a se fazer é reconhecer o que você é e, a partir disso, procurar uma conexão com a realidade contemporânea e internacional. Então entraram em cena pessoas que tinham experiências nos dois campos e assimilaram tanto o erudito como o popular. Este é o caminho que o festival procura ressaltar.

A programação brasileira do MaerzMusik se chama "Música Brasileira Descomposta". Que tipo de música você e o Chico Mello procuraram incluir no festival?

Existe uma parte do programa ligada à pesquisa de instrumentos. O Koellreutter, que levou a música dodecafônica para o Brasil, é uma pessoa bastante aberta, tendo aceitado a música brasileira. Depois de fundar escolas de música contemporânea em São Paulo, no Rio, na Bahia e em Brasília, ele chamou para trabalhar com ele o compositor suíço Walter Smetak, que pesquisava sistemas tonais novos e começou a criar instrumentos com materiais locais da Bahia, como calabaças e coisas bem simples, de madeira. Ele foi professor de música experimental de Gil, Tom Zé, Caetano, entre outros, e teve uma influência muito grande sobre a escola de composição da Bahia.

O festival trouxe pessoas que seguem esta linha e conseguiram bolar até outros instrumentos e sons, para dar uma característica brasileira: Tuzé de Abreu e Thomas Gruetzmacher, Tato Taborda, o grupo Chelpa Ferro e eu, que trabalho com instrumentos preparados.

Depois vem a parte de teatro musical, com a ópera de Chico Mello Destino das Oito, uma adaptação livre da peça Heart’s Desire, de Caryl Churchill, onde ele trabalha o contraste entre Bossa Nova e telenovela. Além disso, o programa inclui Aperto, meu ex-passo, da Madalena Bernardes, com ela cantando o tempo todo com a cabeça numa gaiola, e uma versão concertante de uma peça da Jocy de Oliveira chamada Kseni, que são praticamente três interpretações sobre o mito de Medéia.

Depois temos o Rodolfo Caesar, que vem da música erudita, mas toca um som eletrônico digital de lounge com Alexandre Fenerich; o filme São Paulo – Sinfonia e Cacofonia, de Jean Claude Bernadet, uma homenagem ao clássico Berlim, Sinfonia de uma Metrópole e ao cinema experimental brasileiro, com música nova, ao vivo, de Livio Tragtenberg e Wilson Sukorski. A DJ Grace Kelly vai colocar música brasileira para a gente dançar. O concerto de música de câmara brasileira inclui peças de Koellreutter, Paulo César Chagas, Silvio Ferraz e Luis Carlos Csekö.

Silvia Ocougne prossegue falando de sua peça com 12 violões preparados e sobre o que vale a pena conferir no ambiente de Música Nova alemão.

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