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Alemanha

Exilados iraquianos divididos quanto à guerra

Mesmo entre os que fugiram de Saddam Hussein há quem critique a guerra como recurso de libertação. Mas quase todos os refugiados na Alemanha sonham em voltar logo para casa.

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Crianças curdas num festival em Colônia

Na Alemanha, vivem cerca de 80 mil refugiados iraquianos, dos quais 30 a 50% são da minoria curda, oriunda do norte do país, segundo o Departamento Federal de Reconhecimento de Refugiados Estrangeiros, em Nurembergue. Desde que Estados Unidos e Grã-Bretanha deram início à guerra no Iraque, eles acompanham febrilmente o desenrolar dos fatos em sua pátria.

Apesar de todos terem fugido do regime de Saddam Hussein, seja devido a perseguição política ou étnica, nem todos aprovam a intervenção militar da coalizão anglo-americana. "A guerra não é por causa de Saddam. Os americanos querem nosso petróleo e o poder na região", diz Salah, 37 anos. Para ele, os ataques são uma humilhação e uma afronta a seu povo.

Salah não conta, porém, por que fugiu do Iraque há quase três anos e três meses. Suas razões devem ter sido fortes. Caso contrário, não teria recebido o chamado "pequeno asilo" do governo alemão. Salah foi reconhecido como refugiado, de acordo com a Convenção de Genebra.

Pedidos de asilo em queda

Antes de a guerra começar, cada vez menos compatriotas vinham tendo a mesma sorte. Se em 2001 a Alemanha ainda havia aprovado 62% dos 16.353 pedidos de asilo de iraquianos, no ano passado o índice minguou para apenas 24% de 12.439 requerimentos. Talvez por isso o fluxo de iraquianos candidatos a asilo vinha caindo este ano até o início da guerra. Em fevereiro, o movimento caíra à metade em relação ao mês anterior. Após os primeiros bombardeios, o governo federal recomendou aos estados a suspensão da avaliação dos pedidos e dos processos de repatriação.

Hassan, de 29 anos, não esconde por que fugiu da cidade de Najaf em 1999. Seu irmão havia sido condenado à morte por participar de um atentado contra um partidário local do regime de Saddam e estava foragido. Um ano e meio depois, seu irmão voltou e escondeu-se na casa dos pais, onde Hassan também vivia. A partir de então, o hoje exilado passou a ser espionado até ser dedurado. Quando a polícia invadiu sua casa à procura do irmão, Hassan fugiu.

Hospedado juntamente com Salah no abrigo de asilados de Lörrach, no sul da Alemanha junto à fronteira suíça, Hassan sonha em ver seu país libertado do torturante regime de Saddam Hussein. Mas não através "desta guerra dos americanos". Hassan guarda más recordações da Guerra do Golfo de 1991: "Eles jogaram bombas em crianças que simplesmente jogavam futebol". Para o iraquiano, a tática americana não zela pela vida humana.

Esperança sobretudo para os curdos

Os mesmos questionamentos não surgem quando se conversa com iraquianos de etnia curda, como a engenheira civil Bamerni Kurdistan, de 38 anos, igualmente asilada em Lörrach. Ela não entende como alguém pode se opor à guerra. "Sempre estivemos sob opressão", diz ela, que teria tido uma irmã morta "por homens de Saddam". Para a engenheira, algo tinha de ser feito para pôr fim à ditadura.

Kurden aus Irak in Deutschland

Exilada na Alemanha, à espera da possibilidade de retornar a sua pátria, em paz

Vindos de Al Sulaymaniyah, no norte do Iraque, Aras Talib e sua esposa Ferray Nashmil, ambos de 40 anos, também não vêem a hora de o regime iraquiano sucumbir. Ambos sentiram na pele o terror. Ferray é sobrevivente de um ataque de gás em 1988 à cidade de Halabja. A maior parte de seus parentes morreu. Ex-diretor de uma emissora de rádio, Aras esteve preso por três anos. Há cinco, ele, a esposa e os dois filhos conseguiram deixar o país. "A realidade é pior do que o mostrado em qualquer reportagem", afirma Aras.

Preocupação com envolvimento turco

Em Berlim, a família de Badhirkan Taha também comemora. "A guerra é bem-vinda. Toda a população iraquiana – não só os curdos e xiitas – aguarda sua libertação. Todos esperam por alguém que os liberte", diz o filho Aran, de 19 anos. Uma sombra, porém, paira sobre o sonho curdo de liberdade. "Todos veremos com bons olhos os americanos derrubarem o regime, mas ninguém quer o envolvimento da Turquia", observa Aran.

O sul do território turco possui população de maioria curda e, assim como Bagdá, o governo de Ancara reprime os movimentos de independência. Os curdos temem que se tropas turcas ocuparem o norte do Iraque, sua situação pode piorar. Afinal, desde a Guerra do Golfo de 1991, eles implantaram na região um governo autônomo, embora não reconhecido internacionalmente. "Não chega a ser uma democracia perfeita. Os clãs ainda são as autoridades, mas lá há liberdade de opinião e de imprensa", conta Aran. "É melhor do que a Turquia, o Irã, o Kuwait e o Egito", acrescenta o pai Badhirkan.

Drama da falta de notícias de parentes e do futuro

A guerra não traz apenas esperança para os exilados. Também preocupação. Mãe de Aran, Nasdar Taha vive com dores de cabeça e problemas na vista desde as primeiras bombas. A causa: tensão. Os contatos com familiares no norte do Iraque e em Bagdá são escassos. O drama é sentido também no abrigo de asilados em Lörrach. Salah e Hassan não têm mais notícias dos parentes e sofrem com isto. A engenheira curda Bamerni preocupa-se com o pai, já sem idade para fugir em busca de abrigo nas montanhas, e suas duas irmãs, que ficaram em Dohuk.

Enquanto quase todos sonham em retornar em breve a sua pátria, sem Saddam, o jovem Aran resiste. "Não podemos recomeçar de novo do zero. Como vou voltar a estudar a língua curda desde o início?", questiona. "Esta é sua vida!", responde a mãe. "Eu adoraria retornar se lá tivesse uma escola alemã, um ginásio alemão. Mas não posso recomeçar do zero. Não tenho mais saco para isto", rebela-se Aran, dando sinais de que seus elos de vida com a Alemanha talvez já sejam mais fortes do que com a terra natal.

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