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Mundo

"Ex-mandarim" revela intrigas nos bastidores da Comissão Européia

Livro recém-lançado por ex-membro da Comissão Européia vem causando polêmica em Bruxelas por detalhar bastidores e maquinações na disputa por poder político no órgão.

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Sede da Comissão Européia, em Bruxelas

Durante mais de sete anos, Derk-Jan Eppink trabalhou nos bastidores da Comissão Européia. Como membro do gabinete dos delegados Frits Bolkestein e Slim Kallas, o holandês observou como os chamados "mandarins europeus" exerciam seu poder (a alcunha é uma alusão aos antigos burocratas da China Imperial, Vietnã e Coréia, e se tornou sinônimo de burocratas num governo).

Eppink publicou um livro intitulado A vida de um mandarim europeu: Nos bastidores da Comissão (tradução livre), que revela as "intrigas, truques e enganos" utilizados pelos membros do órgão executivo da União Européia em Bruxelas. Em entrevista exclusiva à DW-WORLD.DE, ele relata o que viu em Bruxelas.

DW-WORLD.DE: O que é um "mandarim europeu"?

Derk-Jan Eppink: Um mandarim europeu é um oficial do alto escalão de uma das instituições européias, a Comissão ou o Parlamento. Eles são a memória coletiva da Comissão. Sabem tudo: como as coisas funcionam, como conseguir seus objetivos. E são o poder decisivo. Um comissário tem um mandato de cinco anos, porém os mandarins estão ali a longo prazo. E é preciso um comissário forte para exercer qualquer tipo de influência sobre eles.

Aparentemente, os mandarins são os verdadeiros poderosos da Comissão Européia. Para que servem os comissários, então?

Schweiz Weltwirtschaftsforum in Davos Pascal Lamy

Pascal Lamy, atual diretor-geral da OMC: comissário firme

Bem, tivemos alguns comissários inúteis que vieram, foram engolidos pela burocracia e depois cuspidos, sem que ninguém soubesse quem eles eram e a que vieram. Para ter sucesso ali dentro, é preciso conhecer a engrenagem da Comissão e conhecer a sua pasta. Normalmente, um comissário precisa de dois anos para entender o que acontece. Nesse meio-tempo, os mandarins ganham controle – e o mantêm. O comissário, então, tem apenas três anos para recuperar a iniciativa. E três anos raramente bastam.

Mas aqueles que entram na Comissão e desde o início sabem como lidar com a situação – como Pascal Lamy, um comissário famoso por sua força – têm êxito, e acabam por conquistar seus próprios mandarins. Um comissário forte dá orgulho aos mandarins.

No seu livro, o senhor escreve que o comissário é o principal inimigo dos mandarins. Eles chegam a sobrecarregar os respectivos comissários com trabalho, para deixá-los ocupdos e tirá-los do caminho. Enquanto isso, os mandarins tomam as decisões importantes. Esse tipo de atitude mina o trabalho do comissário?

Sim, com efeito, isso mina o comissário. Um comissário fraco, ou alguém que demore muito a compreender o que acontece, perde credibilidade e tem que enfrentar uma fila de outros comissários que querem se ocupar com seu departamento. Isso porque ele fica comprometido e raramente será um desafio em discussões decisivas sobre a política da UE.

Os mandarins têm muitos meios de rechaçar um comissário, mantê-lo por baixo: carga pesada de trabalho, legislação complexa, longos discursos monótonos que ninguém vai ouvir. Mas para evitar esse tipo de situação, evitar ser minado, o comissário precisa demonstrar liderança.

O ideal seria que as melhores pessoas fossem enviadas a Bruxelas pelos seus respectivos governos. Mas, normalmente, os líderes querem manter os melhores perto de si. Por isso, um cargo em Bruxelas pode ser tanto um presente para um amigo de longa data ou uma maneira de se livrar de alguém. Estas instâncias raramente criam comissários sólidos.

O senhor diz que os comissários sonham com mudanças e um futuro brilhante, enquanto os mandarins se concentram em controlar seus comissários e evitando que desenvolvam idéias próprias. Essa dinâmica não é em parte responsável pela rigidez e excesso de burocracia da União Européia?

Um pessoa me contou que passou entre 60% e 70% de seu tempo na Comissão ocupado com disputas burocráticas. É departamento contra departamento, diretoria-geral contra diretoria-geral, comissário contra comissário. Muita energia é desperdiçada no sistema e, na maior parte das vezes, após dias, semanas ou mesmo após o fim da carreira, as pessoas se perguntam: "De que valeu tudo isso, afinal?" Geralmente a substância é pouca. A Comissão precisa dar um jeito nas disputas internas e se concentrar nos objetivos principais, em conseguir resultados nessas áreas.

Também parece que, quando os mandarins não estão mantendo seus comissários ocupados e fora do caminho, eles tentam conquistar vitórias uns sobre os outros. O que ganham com isso?

A Comissão é um mundo pequeno, e quando você está lá dentro, ela se torna o seu próprio mundo. Tudo diz respeito à ordem hierárquica, a subir na carreira e a alcançar promoções. Quanto mais você se der bem, melhor será para o seu diretor-geral, e maior será a sua chance de conseguir uma posição melhor no futuro.

Os mandarins são prejudiciais ao projeto europeu? O vice-presidente da Comissão, Günther Verheugen, parece pensar assim.

Günter Verheugen

Alemão Günther Verheugen: inimigo dos mandarins

Verheugen está preocupado com o excesso de poder dos mandarins porque, na realidade, não domina a situação. Se você está há oito anos num cargo e ainda não tem o controle, aí há um problema. Verheugen é um homem de política externa. Era unido ao FDP [Partido Liberal alemão[ e depois aos social-democratas (SPD). É este o seu elemento. Em Bruxelas, ele se atém aos detalhes, se perde na legislação, não se interessa de fato pela pasta das Empresas e Indústria.

Ele foi um entusiasta da expansão européia porque se trata de política externa. Mas os mandarins o enfraqueceram, e, reclamando da burocracia, ele apenas piorou as coisas. Empregar a namorada como chefe de gabinete também não ajudou. Ele se tornou ridículo, mas ninguém quer que ele se vá. Com um comissário tão lá embaixo, você tem grandes chances de passar por cima dele e conseguir o que quer.

O senhor disse que os mandarins ainda precisam entender que a União Européia está desligada do povo. Também disse que os mandarins têm medo do povo, e que são contra referendos. Se o poder está nas mãos dos mandarins, e um futuro mais democrático está nas mãos do povo, o que pode ser feito para mudar as atitudes dos mandarins e envolver o povo mais na União Européia?

Um órgão como a União Européia não pode se desligar do povo. Para que o bloco continue e tenha sucesso, precisa dar uma série de passos para reconquistar a confiança do povo. Em primeiro lugar, a integração e a expansão assustaram muita gente. É preciso desacelerar a expansão após a Croácia, por uns 15 anos, deixar as pessoas se acostumarem ao tamanho da União Européia. Tudo aconteceu muito rápido. Depois, é necessário adiar a integração da Turquia e submeter a questão a referendo em alguns países. Em terceiro lugar – e o que é mais importante – é preciso dar uma cara ao bloco. Envolver as pessoas na eleição dos comissários, ou mesmo do presidente da União Européia. Um líder eleito por voto popular tem um mandato forte, pode dizer "Fui eleito pelo povo". Isso nunca foi feito na União. Tudo é feito em nome do cidadão, para o cidadão, mas não com o cidadão.

Hauptsitz der europäischen Kommission in Brüssel

União Européia: 'para o povo, sem o povo'

Depois do que viu, ouviu e presenciou durante sete anos na Comissão Européia, o senhor ainda acredita na União Européia e no seu êxito?

A União Européia tem que dar certo. Precisa se tornar uma força econômica, mudar sua visão sobre a inovação econômica, sua independência energética e como a imigração pode ser direcionada para o mercado de trabalho. O bloco precisa lutar por legitimidade política e mostrar que pode ser firme nos grandes assuntos. Sem a União Européia, o continente seria apenas uma outra parte do mundo. Na atual campanha presidencial norte-americana, ninguém fala da Europa. Para mudar esse quadro, a UE precisa se fortalecer e abrir seus horizontes. Precisa se pautar por aquilo que é preciso ser feito, e não pelo que dá para fazer.

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