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Mundo

Europeus confrontados com passado totalitário

Um manifesto de historiadores franceses relançou a discussão sobre como lidar com uma trajetória totalitária. Será que o Estado tem o direito de prescrever verdades históricas?

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Memorial do Holocausto em Berlim, com Reichstag ao fundo

Até que ponto a historiografia pode ser ditada pelo Estado? Em fevereiro do ano passado, uma polêmica lei aprovada pelo Parlamento francês determinou que os currículos escolares reconheçam prioritariamente "o papel positivo da presença francesa no ultramar, sobretudo no Norte da África".

Aufmarsch gegen aufständische Herero

Artilharia alemã se prepara para reprimir rebelião dos hereros nas colônias africanas (atual Namíbia), em 1904

Após protestos veementes por parte de historiadores e líderes políticos das ex-colônias, os distúrbios entre jovens descendentes de imigrantes nas periferias urbanas francesas, em outubro e novembro, vieram a acirrar ainda mais a discussão sobre o passado colonialista. Até que, em meados de dezembro, 19 historiadores – entre os quais Jean Pierre Vernant e Pierre Vidal-Naquet – lançaram o manifesto "Liberté pour l'histoire" (Liberdade para a história), onde condenam diversas leis que, no seu parecer, "prescrevem métodos e impõem limites aos historiadores".

Negar o passado é crime?

Na visão dos assinantes do manifesto, história não é religião, nem moral, nem objeto jurídico, além de não se submeter à atualidade e não se reduzir à memória. Em defesa da autonomia histórica, eles exigem não apenas a revogação da lei sobre a propagação dos efeitos positivos do colonialismo, mas também as leis que enquadram como crime a negação da Shoah e do extermínio contra os armênios, bem como a que reconhece a escravatura como crime contra a humanidade.

Aussenansicht des Konzentrationslagers Auschwitz, 60 Jahre Gedenktag

Campo de extermínio de Auschwitz, 1945

Por um infeliz acaso, o apelo dos historiadores franceses coincidentemente foi lançado na mesma semana em que o presidente iraniano, Mahmud Ahmadinedjad, fez declarações estarrecedoras, qualificando o Holocausto como "mito" e negando a legitimidade do Estado de Israel. Será que criminalizar a propagação de inverdades históricas é, de fato, um desserviço à historiografia?

Da impossibilidade de uma historiografia atemporal

A opinião pública da Alemanha, um país escolado no confronto com um passado totalitário, criticou como ingênua a tentativa dos franceses em dissociar a história de "modelos ideológicos contemporâneos" e negar que ela "introduza a sensibilidade de hoje nos acontecimentos de outrora".

Unruhen im Raum Paris

Carro incendiado na periferia norte de Paris, durante os distúrbios de novembro de 2005

Afinal, sem a constante reciclagem da opinião pública e sem uma cultura de debates sobre a atualidade, como a sociedade poderia reajustar suas lentes e passar a enxergar o passado com outros olhos?

Mais do que colocar em questão a autonomia da história como disciplina "científica", a polêmica em torno do manifesto francês revela uma inquieta busca de como lidar com o passado totalitário na Europa.

O novo revisionismo

Napoleon

Napoleão Bonaparte

Na França, isso se reflete, por exemplo, na quebra de tabus, como a imagem ainda relativamente intocada de Napoleão Bonaparte. O lançamento do polêmico livro Le crime de Napoleon, de Claude Ribbe, no início de dezembro passado, por exemplo, conferiu maior discrição às comemorações do bicentenário da Batalha de Austerlitz.

Depois que a escravatura foi enquadrada como crime contra a humanidade na legislação francesa, em 2001, não deixa de ser uma quebra de tabu por parte dos conservadores tentar restaurar nas escolas a glória do passado colonialista.

Em sociedades que tiveram que questionar a duras penas a auto-imagem das gerações anteriores e finalmente conseguiram estabelecer a "contra-história" como norma historiográfica, o revisionismo acaba partindo de conservadores interessados em restaurar a imagem da identidade nacional às custas da veracidade histórica. Na Alemanha, este é o caso do revisionismo de extrema direita, enquadrado como crime por negar o Holocausto, entre outros fatos históricos.

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