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Especial

EUA romperam "aliança especial" com Brasil

Natal foi a maior base militar americana fora dos EUA na Segunda Guerra. Terminado o conflito, Washington virou as costas para o Brasil e a América Latina. FEB não trouxe resultados esperados pela elite brasileira.

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Vágner Camilo Alves: 'Elites forçaram envio da FEB ao front'

"O Brasil era o mais ansiado aliado latino-americano para os Estados Unidos", afirma em entrevista à DW-WORLD o professor de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro Vágner Camilo Alves. O autor do livro O Brasil e a Segunda Guerra Mundial – história de um envolvimento forçado diz que, diante da tremenda pressão norte-americana, era praticamente impossível o país manter sua neutralidade. O apoio aos Aliados, no entanto, não resultou numa relação mais equilibrada com os EUA. Alves acredita que o envio da FEB ao front foi um equívoco e calcula que, do lado brasileiro, o número de vítimas esquecidas, como os "soldados da borracha", superou o de mortos militares.

DW-WORLD: O que significou e/ou ainda significa o dia 8 de maio de 1945 para o Brasil?

Brasilianischer Professor Vágner Camilo Alves (Kath. Universität Rio de Janeiro) zeigt sein Buch Brasilien und der Zweiter Weltkrieg

Capa do livro 'O Brasil e a Segunda Guerra', de Vágner Camilo Alves

Vágner Camilo Alves: O fim da Segunda Guerra Mundial não teve um significado muito grande para o Brasil, em termos de conseqüências mais duradouras. Foi importante, imediatamente, para aqueles que atuavam diretamente na guerra: membros da Força Expedicionária Brasileira (FEB) e do 1º Grupo de Caça da FAB na Itália; aviadores e marinheiros que caçavam os submarinos do Eixo nas costas brasileiras; e marujos mercantes que se arriscavam nos oceanos transportando equipamentos.

Excetuando essa minoria de brasileiros, que eram expostos aos perigos da guerra diretamente, o restante da população não teve sua vida posta em risco pelo conflito, ainda que afetada pela guerra indiretamente, convivendo, especialmente no Nordeste do país, com forte presença de militares estrangeiros, treinando, também nessas áreas, exercícios contra fictícios bombardeios aéreos, e sofrendo, no país como um todo, a carestia de certos víveres, como a gasolina.

É importante lembrar também, como exceção à regra, os "soldados da borracha", em sua maior parte nordestinos que foram mobilizados aos milhares e mandados para a Amazônia para colher látex para o esforço de guerra aliado, e que lá morreram também aos milhares – difícil dizer um número, mas certamente foram mais do que todos os mortos militares.

Em termos de relações exteriores, o fim da Segunda Guerra Mundial pode ser entendido também como o fim de uma relação mais equilibrada e positiva com os Estados Unidos. A aliança com os norte-americanos durante a guerra foi construída na base da negociação, e ganhos substantivos foram conseguidos pelos decisores brasileiros no processo – moratória da dívida externa, empréstimos para construção da primeira usina siderúrgica nacional, concessão de créditos para as Forças Armadas nacionais no programa Lend-Lease para aquisição de equipamentos bélicos nos Estados Unidos etc.

Os anos após a guerra deixaram muita amargura nos decisores brasileiros que haviam vivido aqueles tempos. Isso porque os Estados Unidos abandonaram a América Latina e voltaram-se quase que só para a Europa e o Extremo Oriente. Devido à Guerra Fria, a ajuda econômica e militar passou a fluir predominantemente para estas áreas, beneficiando até antigos inimigos do Eixo. Mais grave ainda para os brasileiros foi que a este abandono somou-se uma falta de distinção do Brasil perante as demais nações latino-americanas, inclusive a Argentina. Isso era o mínimo demandado pelas elites nacionais em face do compromisso que eles haviam tido com o esforço de guerra aliado, fato que contrastava com a neutralidade argentina mantida durante a maior parte do conflito.

Em 1945, o governo brasileiro viu suas expectativas de fazer parte do Conselho de Segurança da recém-criada ONU serem frustadas. O fim da Segunda Guerra Mundial significou o fim real da idéia da "aliança especial" Brasil-Estados Unidos que tantos diplomatas acalentaram ao longo da história brasileira, ainda que algum tempo seria necessário para que houvesse o reconhecimento disso.

Do ponto de vista da política interna, a participação na guerra foi um elemento importante para o início do processo de redemocratização nacional. Era difícil para Getúlio Vargas e seus colaboradores legitimar o regime ditatorial ao mesmo tempo em que lutavam ao lado dos Aliados contra as ditaduras fascistas européias. Eles buscaram então, a partir de meados de 1942, dar início, lentamente, à redemocratização nacional. Quando a guerra acabou, as liberdades civis e políticas já haviam retornado no país.

Eleições diretas para presidente foram realizadas no final do ano e uma nova Constituição foi promulgada em 1946. Nota triste desse processo é que a democracia instituída ali teve curta duração, terminando com um golpe militar em 1964. Entre os principais articuladores da ditadura que se instaurou e que durou mais de 20 anos, estavam muitos oficiais veteranos da FEB, inclusive o general Humberto Castello Branco, primeiro presidente do ciclo militar. Paradoxalmente, então, a FEB, parte do processo de abertura da ditadura estadonovista, foi também esteio, por intermédio de muitos de seus veteranos, para a implantação de um novo e ainda mais longo ciclo autoritário no país.

No livro O Brasil e a Segunda Guerra Mundial , o Sr. fala de um "envolvimento forçado". Até que ponto o Brasil teve poder de barganha ao tomar posição no conflito? Teria sido possível (e melhor) o país manter sua neutralidade?

Franklin Roosevelt Kalenderblatt

'Roosevelt não se mostrou refratário a negociar os termos da aliança brasileira', diz Vágner Camilo Alves

Poder de barganha, o governo brasileiro teve durante todo o processo de alinhamento com os Estados Unidos. Roosevelt não se mostrou refratário a negociar os termos da aliança brasileira. Muito pelo contrário. A questão muda de figura se a pergunta é sobre a possibilidade de Vargas manter o Brasil neutro na guerra. Com relação a isso, diria que muito dificilmente seria possível. As pressões norte-americanas para ter o Brasil ao seu lado, antes mesmo do envolvimento formal dos Estados Unidos na guerra, foram tremendas. O Brasil era o mais ansiado aliado latino-americano para os Estados Unidos. Os norte-americanos pressionaram Vargas para:

  • cercear as atividades de cidadãos e empresas do Eixo no país;
  • comprometer-se a exportar substancial número e volume de matérias-primas estratégicas exclusivamente para os Estados Unidos e
  • ceder bases para a Marinha e Força Aérea norte-americanas.

    Esse último ponto era a preocupação estratégica maior e o aspecto que, com certeza, fazia o alinhamento brasileiro inexorável. Durante a guerra, o Saliente Nordestino (RN, PB, PE, AL), distando "apenas" 3000 quilômetros do ponto mais ocidental da África francesa, era considerado a chave para a comunicação aérea programática no Atlântico Sul entre o Novo e o Velho Mundo. Os norte-americanos temiam uma arremetida do Eixo em direção às Américas através desse caminho. Na verdade, uma vez assegurado o controle da área, foram os Estados Unidos que usaram a região para patrulhar o Atlântico e atravessar aeronaves militares para seus aliados que lutavam na África do Norte, Rússia e até Extremo Oriente. Natal foi a maior base militar americana fora dos Estados Unidos e passou para a história como o "trampolim para a vitória".

    O diferencial de poder entre Brasil e Estados Unidos e a necessidade norte-americana em contar com matérias-primas e território brasileiro para lutar a guerra contra o Eixo da forma mais eficiente possível tornava o envolvimento nacional na guerra, repito, praticamente inexorável. O que não foi de modo algum forçado foi a participação militar direta que o Brasil teve na guerra por intermédio da FEB e do 1º Grupo de Caça da FAB (mais de 25 mil homens foram enviados à Itália).

    Essa participação foi um projeto das elites dirigentes nacionais, que esperavam pragmaticamente ganhar algo mais com essa iniciativa. Vargas queria, de certa forma, apagar sua imagem de ditador com a iniciativa expedicionária, aumentando suas chances de continuar no poder. Para isso, contava com o apoio dos diplomatas e dos militares, que tinham, por sua vez, seus próprios interesses para apoiar a empreitada militar. Os primeiros queriam fortalecer a aliança com os norte-americanos, esperando que a iniciativa tivesse esse resultado, possibilitando ao Brasil, assim, maior acesso às decisões internacionais do pós-guerra. Os últimos esperavam incrementar o auxílio militar que estava sendo dado pelos norte-americanos através do Lend-Lease, visto que as tropas diretamente envolvidas em combate eram privilegiadas nas remessas de equipamentos feitas pelas autoridades norte-americanas. O governo norte-americano, em especial o alto comando militar do país, encararam a oferta brasileira de participação mais como um problema do que como uma ajuda. Devemos lembrar que as tropas brasileiras foram armadas, treinadas e transportadas pelos Estados Unidos.

    O resultado final da FEB, para os decisores brasileiros, foi decepcionante. O auxílio militar a mais recebido não foi o esperado. A "aliança especial" entre os dois países foi rompida logo após a guerra, com o desvio da atenção dos Estados Unidos para o Velho Mundo e o abandono do aliado brasileiro. Mesmo Vargas não pôde contar com o beneplácito norte-americano e, em fins de 1945, o governo dos Estados Unidos já passou a ver com maus olhos o continuísmo do presidente, representado no momento pelo movimento queremista, e ficou satisfeito com o golpe militar que o derrubou em outubro. Pragmaticamente e levando em conta os interesses dos decisores, acredito, aí sim, que a iniciativa da FEB foi um equívoco, pois nada do esperado com ela foi conseguido (além de termos 465 brasileiros mortos e mais de 1500 feridos em combate). A inação, neste caso, talvez fosse opção melhor.


    Vágner Camilo Alves é professor do Departamento de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro e autor do livro O Brasil e a Segunda Guerra Mundial – história de um envolvimento forçado (Editora PUC–Rio, 2002).