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Mundo

EUA e Arábia Saudita mantêm fortes laços após acordo com Irã

Pacto nuclear com Teerã não parece abalar relação entre Washington e Riad. "Casamento por conveniência" tem como base interesses na área de segurança e inimigos comuns, como o "Estado Islâmico", apontam analistas.

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John Kerry (esq.) e rei Salman em Riad, em maio de 2015

De um lado, um país oficialmente islâmico governado pela mesma família há 83 anos, onde a religião dita que os homens devem liderar e o que as mulheres devem vestir. Do outro, um país de maioria cristã em que os eleitores escolhem seus líderes e até influenciam leis locais. Interesses e inimigos parecem ser as únicas coisas que Estados Unidos e Arábia Saudita têm em comum e servem de base para a parceria estratégica.

"Esta aliança sobreviveu a todas as provocações possíveis que poderiam tê-la derrubado, inclusive ao reconhecimento do Estado de Israel por Truman [presidente americano] em 1948", afirma Thomas Lippman, ex-editor de Oriente Médio do jornal americano Washington Post.

Lippman acredita que a relação entre os dois países também vá resistir ao mais recente teste: o acordo nuclear assinado entre Irã e os cinco membros com poder de veto do Conselho de Segurança da ONU – Rússia, China, Estados Unidos, França e Reino Unido – mais a Alemanha (P5+1). O acordo prevê o alívio das sanções contra a República Islâmica em troca do monitoramento internacional do programa nuclear iraniano.

No último domingo, o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, deu início a sua primeira viagem ao Oriente Médio desde que ele e seus parceiros chegaram ao acordo histórico com o Irã, principal rival da Arábia Saudita em termos de influência regional.

Antes e depois do acordo, Kerry reiteradamente reafirmou o compromisso dos Estados Unidos com a segurança de seus parceiros no Golfo Pérsico. Na semana passada, o Departamento de Estado aprovou a venda de 600 mísseis do tipo Patriot para Riad, numa transação de 5,4 bilhões de dólares.

Segundo Lippman, as armas vão ajudar a contrapor o programa de mísseis iraniano, apesar de ele não acreditar que a venda esteja necessariamente relacionada ao acordo nuclear.

"Não tenho dúvida de que os sauditas menosprezam os xiitas, estão nervosos quanto aos iranianos e insatisfeitos com a atividade do Irã na região. Isso não é segredo", afirma. "Eles também sabem perfeitamente que ninguém além dos EUA vai lhes vender 600 mísseis Patriot."

Nem tanto sobre armas

Segundo Richard Murphy, ex-embaixador americano na Arábia Saudita, a apreensão regional quanto ao acordo com o Irã não diz tanto a respeito aos detalhes técnico-nucleares. De fato, o Conselho de Cooperação do Golfo – formado por Bahrain, Kuwait, Omã, Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos – endossou o acordo nuclear durante uma cúpula nos EUA, em maio.

Na verdade, os países do Golfo temem que a suspensão das sanções econômicas possa encorajar o Irã a apoiar as milícias xiitas no Iraque, Líbano, Síria e Iêmen, onde a Arábia Saudita compete por influência.

"Existe uma preocupação bastante tangível em relação à quantidade de dinheiro que vai chegar às mãos iranianas, e eles [os países do Golfo] esperam o pior do Irã", diz Murphy. "Eles lembram as palavras do aiatolá nos primeiros anos da revolução, convocando para a derrubada dos governos corruptos no mundo muçulmano. Se as palavras dele fossem compreendidas literalmente, existia apenas um governo decente, que era o dele mesmo", afirma o ex-embaixador.

"Casamento por conveniência"

Segundo o Centro de Estudos Internacionais e Estratégicos, em Washington, a Arábia Saudita gasta quatro vezes mais no setor militar que o Irã. Juntos, os países do Conselho de Cooperação do Golfo gastam de seis a sete vezes mais que o Irã. E os Estados Unidos desempenham um papel–chave em todos esses gastos.

Em 2010, a administração Obama propôs um acordo de armas com a Arábia Saudita no valor de 60 bilhões de dólares. O acordo previa a compra de 84 caças F-15 novos e a modernização de outros 70 deles, além de 70 helicópteros Apache, 72 Black Hawks, e 36 helicópteros Little Bird.

"A venda de armas tem sido uma constante no nosso relacionamento. Tornou-se um mercado bastante lucrativo para os nossos fabricantes do setor", salienta Murphy.

Tudo isso faz parte do que Lippman chama de "casamento por conveniência". E as reservas de petróleo da Arábia Saudita não são mais tão importantes para esse casamento como já foram um dia, diz. Segundo o especialista, os Estados Unidos não dependem mais do Golfo para suprir suas necessidades energéticas.

O que é mais importante são as trocas no setor de segurança. Os sauditas recebem garantias de proteção dos Estados Unidos e, em troca, Riad apoia a paz com Israel e os esforços antiterrorismo contra a rede Al Qaeda e o grupo extremista "Estado Islâmico" (EI).

"O objetivo principal [dos sauditas] é a autopreservação. Eles sabem que o EI quer Meca. Eles sabem que a Al Qaeda quer suas cabeças. E, por isso, vão combatê-los", diz Lippman.

O acordo nuclear com o Irã em combinação com o papel de Teerã na luta contra o EI fez com que se especulasse que, com o tempo, os Estados Unidos possam querer aprofundar os laços com os iranianos em detrimento dos sauditas. Mas Murphy classifica a ideia como "sem sentido".

"Os iranianos não estão procurando esse tipo de relacionamento nem nós estamos. Mas é isso o que se pensa no Golfo", conclui.

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