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Cultura

Estreia filme sobre montagem do "Anel do Nibelungo" em Buenos Aires

Quase uma ópera, documentário coproduzido pela DW mostra que produção da versão abreviada da tetralogia de Wagner, em Buenos Aires, foi uma história de drama em suspense. Público em Berlim aplaudiu a estreia.

Pouco antes da estreia em Buenos Aires, páginas inteiras são arrancadas da partitura, instrumentistas ameaçam voltar para casa. Irritado com a orquestra, o regente deixa a sala de ensaios encolerizado. O cenário ainda está em construção. Um dos solistas vocais é substituído à última hora.

Uma soprano experiente luta com o maior desafio de sua vida. Uma jovem diretora teatral irradia energia e vigor – é possível sentir que a produção depende essencialmente de seu engajamento pessoal.

"Traição! Engano!", estronda Linda Watson no papel da valquíria Brünhilde. Corte de cena para detrás dos bastidores: fica claro que a traição não se passa só na peça, mas também na vida real. Todos os participantes perguntam, tensos: será que a estreia da ópera e do filme vão por água abaixo?

Colon Ring Buenos Aires Brünnhilde und Wotan

Brünnhilde (Linda Watson) e Wotan (Jukka Rasilainen): "A Valquíria" no palco do Colón

Corrida contra o tempo

A apresentação da tetralogia operística de Richard Wagner O anel do Nibelungo, em versão abreviada, no principal teatro de ópera da América do Sul, estava marcada para novembro de 2012. A encenação ficaria a cargo de Katharina Wagner, bisneta do compositor.

Porém, ao chegar ao Teatro Colón, seis semanas antes da estreia, ela declarou as condições de ensaio insuficientes e partiu no mesmo dia. Uma semana depois, apareceu novamente, acompanhada de um advogado. As partes se separaram amigavelmente.

Faltando quatro semanas para a estreia, foi encontrada uma nova diretora. Valentina Carrasco assumiu o cenário e o elenco da produção original, mas teve que desenvolver e executar sua própria concepção e direção de cena, mesmo com o pouco tempo disponível.

Vitória do pragmatismo

Hans Christoph von Bock, diretor cinematográfico encarregado de realizar um documentário para a TV sobre o Anel do Colón, acompanhou todo o processo. Difícil imaginar uma documentação mais emocionante sobre a estreia de uma ópera. Afinal, para um cineasta, o cancelamento sumário por parte da bisneta de Wagner foi praticamente um presente dos céus.

O diretor do projeto cinematográfico, Rolf Rische, não é dessa opinião. "Foi mais do que um golpe, foi quase um colapso total", conta. "Houve fatores decisivos para que a coisa fosse levada adiante. Estrelas internacionais como Linda Watson não foram embora. E, em vez de fazer escalar no tribunal o conflito com Katharina Wagner, o diretor do teatro optou pelo caminho pragmático".

Wagner light

O compositor, poeta, escritor e homem de teatro Richard Wagner (1813-1883) costuma ser considerado barulhento – e, acima de tudo, prolongado. Durante o documentário, o produtor musical e autor da versão curta, Cord Garben, afirma: "Podem-se cortar 20 páginas do Anel, e ninguém, que não conheça a partitura, vai notar". O público do cinema ri – e aplaude.

Cord Garben Porträt

Cord Garben é o responsável pelos cortes musicais no "Anel"

Hoje em dia, ninguém brada "heresia" ou "sacrilégio" quando se fala em abreviar as 16 horas de música e ação cênica. Será que o compositor está se virando no caixão?, diz a piada recorrente. Garben ironiza: "No início do ano, estive em Bayreuth, porque fiz um CD: as principais cenas do Anel, arranjadas para dois pianos. Nós fomos até a sepultura de Wagner e tiramos fotos: não tinha acontecido nada".

A ideia é que essa versão curta vá facilitar aos novatos wagnerianos o contato com a obra, e permitir que casas de ópera com meios financeiros limitados a montem. No entanto, alguns solistas ficaram indignados com o corte de determinadas passagens do Anel do Colón – que, ainda assim, dura quase oito horas.

A heroína de Buenos Aires

Várias vezes durante o filme, o (visivelmente sobrecarregado) diretor da casa de ópera em Buenos Aires, Pedro Pablo Garcia Caffi, tenta instilar coragem, argumenta sobre a possibilidade de um "plano B". Entretanto, sua expressão facial passa outra mensagem – o  público ri.

Regisseurin Valentina Carrasco

Valentina Carrasco, a salvadora da pátria

O papel de Valentina Carrasco era assumir a direção e salvar a produção. Ela também tinha um "plano B"? "Em espanhol, 'B' é de 'bombero'", comentou a jovem diretora à Deutsche Welle, na noite da estreia do documentário em Berlim. "Eu vim para apagar o fogo. Eu só desenvolvi uma concepção possível, não havia tempo para pensar outra mais. Pedi 48 horas para considerar, me assegurei quanto à equipe envolvida, e aí aceitei."

A estreia do ciclo wagneriano de quatro óperas em Buenos Aires, em 27 de novembro de 2012, foi testemunho de uma concepção coerente e inconfundível. O deus-patriarca Wotan se apresenta em uniforme de general, como o ex-presidente Juan Perón, sua esposa, Fricka, aparece em look Evita – dois ícones da ditadura argentina.

Na versão de Carrasco, o líder dos anões Alberich não rouba o Ouro do Reno, mas sim um bebê. A áurea riqueza do mundo é simbolizada através das crianças – crianças que viveram um destino terrível durante a ditadura militar. Seus pais foram presos, torturados e assassinados, por motivos políticos, e eles próprios foram liberados para adoção. Durante anos, ficaram sem saber quem eram e de onde vinham.

Em torno dessa ideia, Valentina Carrasco montou uma provocante e incômoda peça de teatro-música, que explora a elucidação e "metabolização" da história política recente da Argentina. Previsivelmente, a crítica local reagiu de forma fria e distanciada – a internacional, em contrapartida, entre benevolente e entusiástica.

Colon Ring DW Drehteam bei der Premiere Kamerateam Film Hans Christoph von Bock : Teatro Colón, Ring, Wagner, Buenos Aires

Cineasta Hans Christoph von Bock (esq.) e equipe na estreia da Tetralogia em Buenos Aires

Wagner indestrutível

Da mesma forma que a produção no Colón, em seus 93 minutos de duração, também o documentário de Von Bock descreve um claro arco de tensão, registrando de forma eloquente o dilema de todos os participantes.

Valentina Carrasco confessou que, durante os ensaios, sempre confiou numa instância mais alta. "Sempre penso nas palavras do autor argentino Jorge Luis Borges. Certa vez se discutia uma má tradução do Dom Quixote. Ele disse, então: "O Dom Quixote é forte o suficiente para sobreviver a edição mais miserável'."

No caso da montagem do Anel, a diretora se sentiu de forma semelhante. "Por mais imperfeita que seja a adaptação de Cord Garben, por pior que seja a minha encenação ou a regência musical de Roberto Paternostro, Wagner é mais forte do que todos nós juntos."

A primeira apresentação de Der Colón Ring – Wagner in Buenos Aires, no último domingo (14/04), no Delphi Filmpalast de Berlim, arrancou aplausos longos e sonoros. Entre os mais de 600 espectadores, estavam políticos, deputados e representantes da imprensa. O filme será transmitido pela DW-TV em duas partes, em 11 e 18 de maio, nos idiomas alemão, inglês, espanhol e árabe.

A documentação e a filmagem multicâmeras do Anel do Teatro Colón foi produzida pela DW, em colaboração com a Bernhard Fleischer Moving Images. O filme com a montagem completa será lançado em maio de 2013 pelo selo C Major Entertainment, por ocasião do 200º aniversário de Richard Wagner.

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