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Cultura

Estréia de Brook enfoca choque de culturas

Peter Brook marca presença na RuhrTriennale com peça sobre a tolerância dentro do islamismo. Crítica alemã comenta estréia do consagrado diretor e teórico de teatro inglês.

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Peter Brook, na estréia de "Tierno Bokar", em Duisburg

"Ruínas sempre me tocam, em qualquer parte do mundo, talvez porque eu sinta que neste espaço se passaram vidas humanas. Aqui na região do Ruhr, o que sinto é a intensa atividade de pessoas que construíram do nada algo que até hoje dá testemunho sobre seu saber, sua criatividade e sua força", declarou Peter Brook sobre o cenário do festival trienal de música e teatro realizado na região industrial do Rio Ruhr, onde antigas usinas de carvão e edifícios industriais funcionam como centros de eventos culturais.

A tradição da tolerância islâmica

Em meio à paisagem industrial alemã, a peça recém-estreada de Peter Brook - Tierno Bokar - apresenta ao público, no entanto, o ambiente do interior da África, um continente cuja cultura o diretor britânico residente em Paris incorporou ao seu repertório desde a primeira viagem africana com sua companhia, em 1972. O espetáculo destaca momentos da vida e obra do sufi Tierno Bokar (1875-1940), que pregou um islamismo tolerante, considerado um sincretismo de tradições animistas e islâmicas próximo ao misticismo.

A peça escrita por Marie Helénne-Estienne se baseia no romance Vida e Obra de Tierno Bokar, do etnólogo e filósofo malinês Amadou Hampâté Bâ, discípulo de Bokar. O enredo mostra como divergências menores, como a disputa por uma chaleira ou o dilema de uma oração a ser repetida 11 ou 12 vezes, podem desencadear catástrofes de dimensão insuspeita, desterros e massacres.

Em sua mais recente produção, integrada por antigos membros da companhia, como Yoshi Oïda e Bruce Myers, Brook reafirma princípios centrais de seu teatro, como a variedade multicultural na atuação, a atribuição de diversos papéis ao mesmo ator, a extrema economia de recursos, a redução do cenário ao essencial, o laconismo e a simplicidade de sua "pesquisa teatral".

Mais forte que qualquer peça sobre Bagdá e Bush

Apesar de esta forma de teatro não ter gerado uma tradição reconhecível na Alemanha, a teoria teatral de Brook ( O Espaço Vazio) teve e continua tendo ampla recepção no país. A recepção de sua mais recente peça também mostra o respeito da crítica para com este clássico do teatro europeu. A grande ressalva em relação à montagem foi o cenário, folclórico demais para o gosto local e comparado pelo Frankfurter Allgemeine Zeitung e pelo Frankfurter Rundschau à linha de móveis folclóricos de alguma grande loja de decoração.

Sobretudo a dimensão política da obra de Brook ainda exerce fascinação sobre a crítica. O jornal suíço de língua alemã Neue Zürcher Zeitung destacou que "o rigor estético deste místico do teatro continua tendo um componente político". Para o Süddeutsche Zeitung, Tierno Bokar tem "um impacto político mais forte do que qualquer peça sobre Bagdá e Bush". O Frankfurter Rundschau, por sua vez, considera a mensagem da peça direta e simplista demais. O Frankfurter Allgemeine Zeitung, por fim, louvou a forma despretensiosa e direta com que Brook conta sua parábola sobre o choque de culturas.

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