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Economia

Estourou a bolha de sabão

Os irmãos Thomas e Florian Haffa estão sendo processados por manipulação fraudulenta das cotações de ações da empresa de mídia EM.TV. O escândalo acabou com as ilusões e o capital de inúmeros acionistas.

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Thomas Haffa (e) Florian Haffa, na abertura do julgamento

O processo que começou nesta segunda-feira perante o Tribunal Estadual de Munique atraiu atenção por vários motivos: é o primeiro contra executivos de uma empresa cotada no Mercado Novo da Bolsa de Frankfurt, sacudido por uma série de escândalos no último ano. Em segundo lugar, porque o auditório estava repleto de acionistas que perderam milhões com ações da EM.TV. Eles exigem uma punição severa dos acusados. Isso, porém, não será fácil: esse é o primeiro processo do gênero desde que entrou em vigor a emenda da lei que rege o mercado financeiro e, embora ela aumente as penas, impôs maior rigor na apresentação de provas.

No banco dos réus estão os irmãos Thomas e Florian Haffa, acusados de manipulação fraudulenta da cotação das ações da empresa. Através de falsificação de dados nos balancetes e falsas informações sobre o transcurso dos negócios, eles teriam procurado manter alta a cotação da ação da EM.TV, empresa de mídia fundada por Thomas Haffa e da qual seu irmão era diretor financeiro.

Tapar o sol com a peneira

Com a compra dos direitos de programas como Muppet Show, Vila Sésamo ou de transmissão da Fórmula 1, Thomas Haffa fez da EM.TV uma empresa internacional de mídia, que atraiu muitos investidores na bolsa. O promotor Peter Noll acusou Thomas e Florian Haffa de "não haver informado sobre a verdadeira situação da firma, ou tê-la disfarçado". Em 2000, Thomas Haffa anunciara para 2001 um lucro de mais de 600 milhões de marcos (306,7 milhões de euros). Essa previsão só foi corrigida para 50 milhões de marcos em 1º de dezembro. Até então as ações já haviam tido uma queda de mais de 30%.

Mesmo sabendo que a nova previsão não seria cumprida, os réus continuaram dando "informações falsas propositalmente ", a fim de impedir uma desvalorização maior ainda das ações. De fato, a EM.TV fechou o ano passado com prejuízo de quase 2,8 bilhões de marcos (1,43 bilhão de euros). Embora o diretor responsável pela auditoria tivesse manifestado por escrito sérias dúvidas nos dados do balanço do primeiro semestre, Florian Haffa continuou apresentando-os a investidores em potencial, em uma turnê pelos Estados Unidos. Nos anos de boom da bolsa, os irmãos Haffa insuflaram o valor de sua firma a 13,8 bilhões de euros. Em seu auge, a ação da EM.TV chegou a valer quase 120 euros. Hoje, vale 1 euro.

Vaias para sunny boy

Thomas Haffa foi recebido com vaias ao entrar no tribunal. De festejado empresário, transformou-se no símbolo da derrocada do Mercado Novo, o segmento de firmas de mídia e tecnologia que animou os acionistas com altas taxas de valorização e que a Bolsa de Frankfurt decidiu eliminar no próximo ano.

O sonho de Thomas Haiffa era fazer de sua empresa um império semelhante à Disney nos EUA e muitos acreditaram nessa visão. O sonho acabou virando pesadelo para os acionistas e, passada a euforia, veio a ressaca. Para firmas e empresários, quanto mais alta a ascensão, pior a queda.

A carreira de Thomas Haiffa deu um salto em 1979, quando foi contratado pelo magnata da mídia Leo Kirch. Foi ele que montou todo o setor de vídeo do grupo Kirch. Em 1989, fundou sua própria firma, com base em um grande acervo de programas infanto-juvenis para tevê.

Na época áurea, Thomas Haffa era tido como o sunny boy em pessoa: bronzeado, singrava os mares em seu iate, dando grandes festas. Com a venda de participações na EM.TV, fez fortuna. Seu grande erro foi ter pago demais por algumas aquisições: quase 700 milhões de euros pelo Mupett Show e 1,5 bilhão de euros por uma participação de 50% nos direitos de transmissão da Fórmula 1.

Essas somas foram o começo do fim. Amortizações e problemas nos negócios operacionais levaram a altos prejuízos. No final, a EM.TV desmoronou como um castelo de cartas. Thomas Haffa, porém, só renunciou à presidência em meados de 2001, pouco antes de enfrentar acionistas furiosos numa assembléia geral.

Mais processos pela frente

Os irmãos Haffa estão sendo julgados na mesma sala do tribunal em que Boris Becker o foi por sonegação de impostos há duas semanas. O atual julgamento, contudo, no qual até Leo Kirch poderá ser convocado a depor, deverá ser bem mais demorado devido à recente emenda da lei que regulamenta o mercado financeiro. Ela elevou tanto as penas de prisão como as barreiras jurídicas, isto é: exige provas concludentes de manipulações de cotações através de declarações falsas. "Pode-se dizer com certeza que a mudança da lei não simplificou o processo", comentou o promotor.

O julgamento contra os irmãos Haffa é apenas o início de uma série de julgamentos de ex-executivos de firmas que brilharam no Mercado Novo. A partir de 14 de novembro será a vez de Bodo Schnabel e sua esposa Ingrid, responsabilizados pelo maior escândalo do segmento. Sua firma, a Comroad, com sede Munique, atuava na área de telemática. Uma auditoria especial verificou que 98% do seu faturamento entre 1998 e 2000 era fictício. E a cúpula da empresa de software Infomatec, de Augsburg, também irá para o banco dos réus por manipulação de cotações.