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Cultura

Estação Berlim: passagem literária pela capital alemã

O projeto literário "Amores Expressos" envia escritores brasileiros a 16 destinos e um deles é Berlim. A escritora carioca Cecilia Giannetti falou à DW-WORLD sobre sua missão de se perder na capital alemã.

Cecilia Giannetti

Cecilia Giannetti: 'A cidade range. Não dá grandes solos de guitarra, canta e sopra com voz de quem morre da overdose de passado'

São 16 autores com 16 destinos diferentes, entre veteranos e estreantes. Cada um dos participantes do projeto literário Amores Expressos tem a missão de se perder numa cidade e lá buscar inspiração para um romance. Os destinos não foram escolhidos ao acaso: a condição era que se criassem "ruídos" entre os autores e as cidades.

Para explicar esses "ruídos" em seu blog pessoal, a escritora Cecilia Giannetti cita Susan Sontag: "Os sentimentos que mais inspiram a escrita são a raiva e o medo, o pavor". Cecilia foi jogada aos leões em Berlim: sem saber uma palavra da língua e com uma idéia vaga do que encontraria, a carioca, cujo primeiro romance tem lançamento previsto para o segundo semestre de 2007, pôs-se a caminho da capital alemã.

Depois de um mês na cidade, Cecilia Giannetti terá, assim como os demais participantes, um ano para escrever uma história de amor. Os livros serão publicados na coleção que leva o nome do projeto, sendo que também estão previstos DVDs e adaptações para o cinema. Além disso, cada autor relata suas experiências em um blog diário.

Uma brasileira em Berlim

As primeiras fotos de Cecilia não negam sua origem: munida de gorro de lã e luvas, ela chegou na cidade em 11 de abril, quando a maioria dos berlinenses já escondia os casacos de inverno no armário e colocava as pernas de fora, e as farmácias já expunham os protetores solares na vitrine.

Instalada em um apartamento no bairro de Kreuzberg, na parte ocidental da cidade, Cecilia passou seus primeiros dias caminhando a esmo. Logo se identificou com o burburinho da Oranienstrasse e percebeu que os punks da praça Kottbusser Tor nem sempre são os mais amáveis.

Bem-humorada, resolveu se divertir com sua falta de experiência na língua. "Qualquer coisa que eu digo em alemão soa proposital e remotamente como Peter Sellers falando inglês com sotaque de francês na pele do inspetor Closeau. Não vou fazer amigos assim, mas é mais divertido para mim desse jeito.”

"E então ao 'bah' seguiu-se um 'tchê'. Dessa vez, virei para trás decidida a estilhaçar a alucinação. Parece piada de gaúcho, mas lá estava alguém tomando chimarrão e tudo, atrás do balcão de uma barraquinha de café da plataforma da [estação de metrô] Warschauer [Strasse]. Um não, dois gaúchos e mais um carioca de Jacarepaguá", conta a escritora em seu blog, aliviada após os conterrâneos lhe indicarem que trem tomar. "Foi uma coincidência louca, mas veio em boa hora", disse à DW-WORLD.

Oranienstrasse

A Oranienstrasse, um dos lugares favoritos de Giannetti – pelo menos na primeira semana

História, passado e choque cultural

Além das barreiras óbvias para quem não domina a língua, Cecilia Giannetti viu-se em uma cidade que ainda respira a história e seu passado. "Logo no segundo dia, dei de cara com o Checkpoint Charlie. Para quem vive aqui e acha cômico aquele enxame de turistas em torno do local, ele já pode ter perdido muito de seu significado. Para mim, a visita ao Mauer Museum [Museu do Muro] foi emocionante", explica.

"Depois, encontrei a exposição ao ar livre Topografia do Terror e o trecho do Muro de Berlim que ainda resta por lá. De pé no terreno onde funcionava a sede da Gestapo, ouvindo as vozes dos julgamentos do Tribunal de Nurembergue, entendi que Berlim não quer, não pode e não deve esquecer seu passado – ou ele se voltaria contra ela mesma. Seria como uma violação."

Cecilia Giannetti surpreendeu-se com um povo que, apesar de cosmopolita, deixa sobressair os ruídos da cidade, um a um. "O silêncio de Berlim é algo que me surpreende mais a cada dia. Surpreende-me poder ouvir passos dos pedestres nas calçadas e as rodas das bicicletas girando em ruas urbanizadíssimas."

"Mesmo na hora do rush, tem pouco movimento de carros, mesmo de pessoas, em comparação com a insanidade do trânsito e a superpopulação do Rio de Janeiro e de São Paulo. Os momumentos e locais históricos – e basicamente todos os lugares em Berlim, para a qual o mundo inteiro já olhou, têm o peso da história – ganham outro significado com esse silêncio."

Em busca do tipicamente alemão

Depois de uma semana vivendo em Berlim, coletando anedotas para contar e se deixando inspirar e surpreender a cada momento, a autora arrisca definições do que seria Berlim, de quem seria o berlinense. Pelo menos a sua Berlim e os seus berlinenses, aqueles que descobriu nesta primeira semana, que não bastou nem para que se acostumasse com os seis tipos diferentes de latas de lixo.

"Antes de vir para cá, esperava um povo que ainda está redescobrindo sua alegria, reconstruindo eternamente sua vida. De certa forma, o berlinense corresponde a essa expectativa. Já fui a alguns lugares em que pensei, 'este é um lugar tipicamente berlinense'. Onde mais poderia existir o [clube noturno] SO36 se não em Kreuzberg, em Berlim?"

"Já Mitte é a nova Alemanha, acredito. Todo o burburinho em torno do Hackescher Markt, as cadeiras de praia espalhadas à beira do rio Spree, o povo bebendo cervejas maravilhosas e fumando cigarros como se fossem o próprio ar que respiram, esse jeito de conviver e a vontade de estar na rua para mais uma primavera, tudo isso deve ser tipicamente alemão (com apelo universal). A primavera é mais alemã que o inverno. Não acredito que seja um povo frio. Só precisam de um pouco de sol para se mostrarem mais abertos."

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