Estúdios Babelsberg celebram 99 anos de cinema na Alemanha | Cultura europeia, dos clássicos da arte a novas tendências | DW | 26.04.2011
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Cultura

Estúdios Babelsberg celebram 99 anos de cinema na Alemanha

Iniciativa privada, potência cinematográfica internacional, instrumento do nazismo e do socialismo, berço de superproduções: os estúdios perto de Berlim atravessaram diversas fases em quase um século de existência.

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Vista aérea dos estúdios

Os estúdios Babelsberg comemoram em 2011 os seus 99 anos de existência. A construção do atelier cinematográfico de 300 metros quadrados da firma Bioscop, às margens do Lago Griebnitz, no bairro de Potsdam Babelsberg, foi iniciada já no final de 1911, em pleno inverno europeu.

Apenas três meses mais tarde era dada a partida para a primeira produção: Totentanz (Dança dos mortos), com a estrela dinamarquesa Asta Nielsen. Um ano mais tarde erguia-se no terreno um segundo ateliê e uma oficina de cópias. A fachada desta última era uma miscelânea de diferentes estilos arquitetônicos, prestando-se, portanto, a cenário para as mais diversas produções.

Mão de obra barata

Durante a Primeira Guerra Mundial, a produção em Babelsberg caiu quase a zero. Mas, paradoxalmente, o setor lucrou com a consequente inflação e o desemprego em massa. Em 1922, a UFA (então Universum Film AG) mudou-se para o local às portas da metrópole Berlim e realizou películas sofisticadas à custa de mão-de-obra e figurantes baratos. Em consequência, era possível distribuir os filmes no exterior a preços moderados.

Deutschland Film Regisseur Fritz Lang

Diretor Fritz Lang rodou 'Metrópolis' em Babelsberg

Porém também houve conquistas técnicas e artísticas. Durante a rodagem de O último homem (Der letzte Mann, 1924), de Friedrich Wilhelm Murnau, foi utilizada pela primeira vez uma câmera móvel. O fotógrafo Karl Freund simplesmente soltara o equipamento do tripé e o prendera no peito com uma correia.

A novidade causou sensação em Hollywood, que enviou seus melhores profissionais para se aperfeiçoarem em Babelsberg. Apenas três anos mais tarde, o diretor austríaco Fritz Lang criava num grande galpão, construído especialmente para isso, uma obra-prima do cinema mudo e clássico precoce do gênero ficção científico: Metrópolis (1927).

Cinema falado

Em 1929, Babelsberg lançava sua primeira produção sonorizada: Melodia do coração (Melodie des Herzens), de Willy Fritsch. Em tempo recorde haviam sido construídos quatro galpões isolados acusticamente. Hollywood colocara o estúdio sob pressão ao lançar no país os primeiros filmes falados, que também agradaram o público alemão.

O primeiro grande êxito de Babelsberg no novo gênero foi O Anjo Azul (Der blaue Engel, 1930), rodado em alemão e inglês e estrelado por Marlene Dietrich, então com 29 anos de idade. A produção marcou o início da carreira internacional da diva alemã.

Enquanto isso, o país mergulhava cada vez mais na crise. Se por um lado o número de desempregados crescia sem parar, a sétima arte reagia com diversão escapista e distração inofensiva. Em 1933, os nacional-socialistas assumiram o poder.

Cinema sob a suástica

Desde o início, Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda de Adolf Hitler, percebeu o potencial do novo meio. Para tal, tinha a sua disposição os diretores e atores que não haviam sido sacrificados no delírio racista do regime.

Filmszene Jud Süss

Cena do antissemita 'O judeu Süss'

Sob a orientação de Goebbels, Babelsberg lançou tanto películas escapistas quanto material de propaganda. Um dos exemplares mais notórios dessa última categoria é a obra de agitação antissemítica Jud Süss (O judeu Süss), de Veit Harlan, protagonizado por Ferdinand Marian.

Em plena Segunda Guerra Mundial, a firma UFA comemorou seu 25º aniversário com um suntuoso conto de vigarista: Münchhausen. O roteiro fora escrito sob pseudônimo por Erich Kästner, autor proscrito pelo nazismo. O papel-título coube ao legendário Hans Albers.

Para parte dos profissionais envolvidos, participar das produções – além de ser inevitável – significava escapar da mobilização para o front. Muito embora por vezes fosse necessário só fingir que se estava produzindo, por exemplo, quando faltava material de filmagem.

O maior e mais caro filme do Terceiro Reich foi o épico Kolberg. Em tom patético, o diretor Veit Harlan conclamava a lutar e morrer. Porém na estreia, em janeiro de 1945, a maioria dos cinemas da Alemanha já estava há muito destruída.

Entre dois regimes

As rodagens da primeira produção alemã do pós-Guerra começaram logo no ano seguinte. Os assassinos estão entre nós (Die Mörder sind unter uns), de Wolfgang Staudte, é um questionamento sobre culpa individual e responsabilidade durante o regime nazista.

O filme que marcou o início da ascensão da diva nacional Hildegard Knef foi rodado em meio às ruínas de Berlim. Os estúdios de Babelsberg tiveram que esperar até o final de 1947 para retomar suas atividades cinematográficas, quando as autoridades da ocupação soviética liberaram o terreno.

Antes, porém, fora fundada no local a Defa (Deutsche Film AG). Com a criação da República Democrática Alemã (RDA), em 7 de outubro de 1949, a firma passou pouco a pouco a mãos alemãs. Em julho de 1950, por fim, os soviéticos transferiram ao governo comunista da RDA todas as oficinas e estúdios de filmagem e som.

Deutschland Filmstudio Babelsberg bei Potsdam Gebäude Flash-Galerie

Portão de entrada de Babelsberg

Instrumento do socialismo

Desde então até 1990, saíram de Babelsberg mais de 700 longa-metragens e 150 filmes infantis. A estes se juntaram, a partir de 1959, mais de 600 produções para a televisão estatal.

De início, os protagonistas do cinema da RDA eram, inevitavelmente, heróis socialistas. Ou seja, camaradas fiéis à ideologia, que haviam sobrevivido ao campo de concentração e transmitiam mensagens inequívocas: a social-democracia e o capitalismo haviam sido os culpados pela ascensão do nazismo. Em contraposição, os libertadores vinham da União Soviética e tinham aprendido as lições certas, a partir da história do continente.

Apesar de toda essa carga ideológica, algumas produções excepcionais conseguiram convencer o público internacional, alcançando grande êxito. Entre estas, estão Nackt unter Wölfen (Nu entre lobos – 1963) e Jakob der Lügner (Jacó, o mentiroso – 1975), ambos de Frank Beyer; ou Ich war neunzehn (Eu tinha 19 anos – 1968), de Konrad Wolf.

Os sucessos da Defa para além da Cortina de Ferro incluíam tanto contos infantis e westerns quanto tocantes filmes de atualidade. Um destes, Die Legende von Paul und Paula (A lenda de Paul e Paula), de Heiner Carow, atraiu 1,8 milhão de espectadores só no ano de estreia, 1973.

Arte e as leis do mercado

Em 1990, com a queda do Muro de Berlim, terminavam-se as décadas de direcionamento e financiamento estatal. A partir de agora, os tradicionais Estúdios Babelsberg tinham que se afirmar no contexto da economia de mercado. O terreno foi entregue à holding estatal Treuhand, encarregada de privatizar os bens do Estado socialista da RDA.

Em 1992, a sociedade fiduciária vendeu o imóvel ao conglomerado francês Compagnie Générale des Eaux – hoje, Vivendi Universal. Este investiu em torno de 500 milhões na ampliação dos estúdios, porém sem o êxito empresarial esperado.

Szene aus Der Vorleser

Kate Winslet e David Kross em cena de 'O leitor', feito em Babelsberg

Em 2004, Carl Woebcken e Christoph Fisser passaram a ser os novos proprietários. Já no ano seguinte, os dois produtores cinematográficos levaram a empresa à bolsa de valores como Studio Babelsberg AG, e a expandiram continuamente. Com uma área de 25 mil metros quadrados e 16 estúdios, Babelsberg é, hoje, um dos maiores complexos cinematográficos em um único terreno, em toda a Europa.

Nos últimos anos, numerosas superproduções foram realizadas lá: desde a tragicomédia Alameda do sol (Sonnenallee – 1999) de Leander Haussmann, os dramas de guerra Círculo do fogo (2001), de Jean-Jacques Annaud, e O pianista (2002), de Roman Polanski, ao thriller de Tom Tykwer Trama internacional (2008).

Em fevereiro de 2012, os estúdios irão celebrar oficialmente seus 100 anos de existência.

Autoria: Silke Bartlick / Augusto Valente
Revisão: Roselaine Wandscheer

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