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Especial

Esperar ajuda da Europa Ocidental é tradição no Leste

Seria o Ocidente responsável pelos erros no processo de democratização de outros países? O escritor ucraniano Serhij Zhadan incomoda-se com a passividade no seu país.

Os cidadãos do chamado "mundo democrático" não podem imaginar quanta esperança as pessoas de países como a Ucrânia depositam nelas. Vivendo em suas democracias europeias, essas pessoas não têm ideia do quanto são observadas com atenção nos países do Leste Europeu. Ali, acredita-se, especula-se e há decepção com a vida na Europa Ocidental. Já para os países ocidentais, o Leste é um lugar distante, onde acabam os trilhos modernos das linhas ferroviárias e o estado das estradas fica sensivelmente pior.

No mais, de onde os habitantes de Berlim, Viena ou Zurique, que vivem tranquilamente em suas zonas protegidas pelo Acordo de Schengen, iriam saber, por exemplo, que 40 milhões de ucranianos depositam esperanças num futuro melhor, a ser atingido também com recursos do contribuinte de uma Europa unida?

"A Europa nos parece o paraíso na terra"

A palavra Europa já ganhou, em ucraniano, há muito um significado metafórico. Ou se tornou quase uma marca. Na Ucrânia, Europa é sinônimo de carros caros (mesmo que eles, a esta altura, sejam fabricados na China), de alimentos saudáveis (mesmo que sejam produzidos na fronteira da Polônia com a Ucrânia), de salários altos e de um Estado de Direito que funciona, de tolerância e de sociedades multiculturais, de liberdade e do combate ao antigo regime comunista.

Boa parte dos ucranianos está convencida de que do outro lado da fronteira com a Hungria o ar tem outra composição e os problemas são resolvidos de maneira simples – ou melhor, na maioria das vezes, eles nem surgem. Para os ucranianos ávidos por liberdade, a Europa é a "terra prometida". Eles se veem como membros de uma grande família de povos irmãos, com os quais dividem valores e propósitos – e que os aguardam com muita impaciência. Para outra parte dos ucranianos, que têm saudades dos velhos tempos soviéticos, a Europa continua sendo a causa de toda a desgraça e de uma civilização corrompida.

De qualquer forma, a Europa está mais presente na Ucrânia do que pensa, inclusive entre os políticos do país, que têm opiniões diversas sobre o continente. Os donos do poder têm medo e não têm pudor de demonstrar isso. Eles sabem que são dependentes da Europa, fornecedora da maior parte dos empréstimos ao país. A oposição, por sua vez, deposita grandes esperanças na Europa. Pois dentro da Ucrânia não há em quem confiar. Argumenta-se em nome da Europa, instrumentalizando o continente. E espera-se da Europa sanções pesadas, embora justas.

Nossos políticos tratam a Europa como "torta de aniversário"

Só começamos a ser europeus quando isso toca nossos interesses. Dos representantes do atual regime arbitrário aos políticos dos partidos radicais, todos os aliados do poder depositam seu capital nos bancos europeus. Antigos comunistas apoiam as lideranças estatais na implementação de reformas sugeridas pela Europa. Jovens democratas idealistas desfilam seus esquis de preferência nas belas pistas dos Alpes. E até os nacionalistas mais rancorosos se abrem cautelosamente para a influência ocidental.

Políticos ucranianos falam da Europa como crianças de uma torta de aniversário, que está esperando há muito tempo na cozinha. E sobre a qual paira apenas a dúvida: comê-la de imediato ou esperar para fazer isso amanhã? Vivemos de ilusões e esperanças enganosas de atrairmos a atenção de estranhos e também sua proteção. Confiamos nas explicações dos chefes de Estado estrangeiros na esperança de avistarmos os claros raios da democracia globalizada por trás dos banais interesses econômicos.

Necessidade de um redentor democrático

De onde vem isso? Provavelmente de uma insegurança e da falta de forças. Da apatia, do medo, e da ausência do ideal de ser uma comunidade que se ajuda mutuamente. Uma sociedade que não acredita em seu próprio premiê é obrigada a acreditar em outros. Muitos ucranianos não teriam confiança nem de pedir ao premiê para guardar um lugar na fila – de medo de que ele neste meio tempo vendesse o lugar a terceiros.

Uma desconfiança mútua e a falta de perspectivas realistas de uma mudança são as razões de todos esses esforços desesperados em conseguir o apoio dos fortes deste mundo. A incapacidade de solucionar os próprios problemas acentua a necessidade de um defensor forte e justo. De um redentor movido por princípios democráticos, que combata todas as injustiças que nos acometem.

As esperanças depositadas sobre os países com democracias desenvolvidas são tão intensas e ao mesmo tempo tão ineficazes que acusações são inevitáveis. Mas o que se pode exigir da Europa? É possível acusá-la de ser cúmplice do poder criminoso do nosso governo, eleito por nós mesmos? Ou falar mal da falta de esforços da Europa em combater a nossa corrupção, mantida nessas alturas por todos nós juntos? Ou censurar os passos não dados pela Europa para a superação de nossos abismos linguísticos, religiosos ou de visão de mundo?

"Precisamos assumir nós próprios as responsabilidades"

Resumindo: A Europa parece estar altamente endividada conosco. A Europa é culpada de não ter resolvido nossos conflitos por nós, de não ter tomado posições a nosso favor, de não ter congelado contas, de não ter aplicado sanções, de não nos conceder vistos sem prazo de validade a nações do Acordo de Schengen, para que possamos abandonar, enfim, nosso país com todos os seus problemas e contradições.

Tenho a impressão de que o principal problema da sociedade ucraniana está em sua incapacidade e falta de vontade de responder autonomamente por seus próprios atos. Delegamos de forma rápida e despudorada a culpa de nossos erros e asneiras a terceiros. O que importa é não termos que responder por eles. Tendemos a cair na histeria e no desespero.

E apesar disso estamos sempre dispostos a esquecer todas as ofensas e mentiras de nossos políticos e a voltar a depositar (pela milésima vez) nossa confiança neles. Se observarmos sobriamente nossos problemas políticos, acabamos por perguntar: em quem devemos confiar, a não ser na Europa? Mesmo que a Europa não tenha ideia de quanta esperança depositamos nela.

Serhij Zhadan (39) é um escritor ucraniano de sucesso. Seus poemas e romances abordam o desenvolvimento da sociedade da Ucrânia após o fim do comunismo. Em 2006, Zhadan recebeu o Prêmio Hubert Burda na categoria Poesia Jovem. Durante a Revolução Laranja, ele participou diretamente dos protestos nas ruas. (sv)

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