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Alemanha

Escravas do novo milênio

Teóricos apontam feminização dos processos migratórios. Milhares de mulheres deixam o Terceiro Mundo para tentar a sorte em países industrializados. E acabam se transformando na face feudal das sociedades privilegiadas.

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Sonho de uma vida melhor pode se transformar em pesadelo

Tráfico humano, prostituição involuntária, casamentos forçados. São vários os métodos da escravidão moderna, que têm em homens de países industrializados seus mentores e nas mulheres de nações pobres suas vítimas. Segundo estatísticas oficiais, cerca de 350 mil homens alemães saem do país anualmente em busca de relacionamentos amorosos ou de contato com prostitutas. Outra forma de aproximação escolhida é o catálogo, onde milhares de mulheres de todo o mundo são expostas para a escolha, como mercadoria.

As razões de tal comportamento, segundo especialistas, é a incapacidade dos homens alemães de lidar com a emancipação e autoconfiança das européias. "Muitos deles alimentam o sonho de ter ao lado uma mulher estrangeira, eternamente sorridente", descreve Lea Ackermann, uma das fundadoras da organização "Solidarity with women in distress" – Solwodi. Nesses casos, o ideal almejado é uma mulher submissa, que de preferência não fale o idioma do país e se torne completamente dependente, caso venha a viver na Alemanha.

Sem happy end

Symbolbild Trennung Scheidung

Para as vítimas desse tráfico humano moderno, no entanto, o sonho de uma vida melhor quase sempre se desmorona mais rápido do que o esperado. Vindas de regiões pobres do planeta, essas mulheres chegam à Alemanha acreditando na promessa de um dia-a-dia mais confortável e tranqüilo. O preço disso é, porém, quase sempre alto demais: o casamento com homens que elas mal conhecem e com os quais nem ao menos podem conversar.

O happy end, nesse contexto, é exceção. São poucas as que acabam se apaixonando de verdade pelo "comprador" europeu. Em muitos casos, o relacionamento é completamente destruído pela opressão, violência e, não raras vezes, por uma verdadeira escravidão.

A organização Solwodi oferece a essas mulheres postos de atendimento em praticamente toda a Alemanha. Lá são relatadas com freqüência histórias escabrosas, conta Ackermann. "Às vezes são os vizinhos que denunciam a situação. Então pedimos que entreguem à mulher um pequeno bilhete sobre nossa organização, escrito em 12 idiomas diferentes, contendo também nosso número de telefone."

Primeiros socorros

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Ackermann acredita que boa parte dos casamentos "arranjados" ou da "compra" de mulheres estrangeiras acaba em decepção. A imagem do europeu confiável, não raro, passa por uma guinada de 180 graus: ele se transforma naquele que aprisiona a mulher em casa, bate, humilha. A organização Solwodi toma, de início, medidas de "primeiros socorros". Isso significa libertar a vítima das amarras do parceiro, levá-la até um local seguro e notificar a polícia, se for o caso.

"Quando a mulher está ilegal na Alemanha, tentamos conseguir uma permissão de estadia. Se são jovens e têm interesse em continuar no país, procuramos oportunidades de formação profissional, para que tenham alguma coisa em mãos quando voltarem a seus países de origem. Temos também o projeto para as que querem retornar", conta Ackermann. A Solwodi oferece a essas mulheres um empréstimo em dinheiro, para que elas possam reconstruir suas vidas dentro ou fora da Alemanha. Por ano, são cerca de 600 vítimas recebendo auxílio da organização, oriundas de mais de 80 países.

Domésticas globalizadas

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Mulheres vivendo na ilegalidade, diga-se de passagem, não são poucas na Alemanha. Segundo o semanário Die Zeit, "a migração tem se tornado feminina", com milhares de mulheres bem qualificadas, vindas de países pobres, que se submetem a trabalhar como domésticas em nações ricas. Um caso extremo é o das Filipinas, onde há 30 anos as mulheres representavam 30% e hoje 70% do contingente migratório.

Diariamente, 1900 filipinas saem do país em busca de emprego no exterior. Em várias cidades são oferecidos cursos específicos para mulheres que querem exercer tais atividades longe de casa. Aí se encontram professoras, dentistas ou contadoras, aprendendo como arrumar uma cama de hotel na Alemanha, quais os costumes das crianças italianas ou como funciona uma lava-louça francesa.

Depois de seis meses de curso, são "domésticas diplomadas" e podem seguir caminho. Nessa feminização dos processos migratórios, comenta o Die Zeit, "misturam-se de forma estranha um passado feudal com um presente emancipado. Professoras filipinas, estudantes mexicanas, tradutoras equatorianas, advogadas africanas seguem rumo a outros países, nos quais as mulheres hoje dirigem multinacionais, universidades ou partidos políticos, para assumir ali trabalhos que há séculos são considerados femininos: limpar, cozinhar e cuidar de crianças".

Protecionismo esclerosado

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O contingente de mulheres migrantes no mercado de trabalho hoje é hoje superior a 50%. Se por um lado elas são valorizadas diretamente por seus empregadores "particulares", as portas do mercado oficial de empregos mantêm-se completamente cerradas a elas. Segundo estimativas do Instituto Alemão de Pesquisa Econômica, cerca de quatro milhões de lares no país empregam auxiliares domésticos. Às vezes legais, mas principalmente ilegais.

Ao sugerir uma flexibilização maior das leis trabalhistas e de imigração européias, que possibilitasse aos enormes contingentes de imigrantes pelo menos permissões temporárias de trabalho – até mesmo como forma de aplainar as ondas migratórias –, o diário suíço Neue Zürcher Zeitung conclui: "Com isso, seria possível pôr um fim à esquizofrenia dos europeus, que exigem dos países em desenvolvimento que respeitem os princípios do comércio livre, enquanto continuam a praticar um protecionismo esclerosado em relação a seus próprios mercados de trabalho".

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