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Cultura

Escancarando as feridas do passado

Mais de uma década após a queda do Muro de Berlim, estréia no país peça de teatro sobre adoções forçadas na ex-Alemanha Oriental.

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O mundo de Marion (Anna-Maria Kuricová) desmorona frente à verdade sobre sua adoção

Em 1993, a dramaturga alemã Renate Ahrens escreveu seu primeiro trabalho. Com os originais nas mãos, Ahrens bateu às portas de vários teatros alemães. As reações foram semelhantes. "Ninguém queria saber de nada parecido. Diziam para que eu voltasse dez ou quinze anos mais tarde. Era provavelmente cedo demais para tocar na ferida, pois o Muro havia caído apenas três ou quatro anos antes", conta Ahrens em entrevista à DW-WORLD.

A peça concebida pela dramaturga alemã retrata um capítulo negro e até hoje pouco conhecido da história do país. Nos anos 70, o governo comunista da então Alemanha Oriental tirou à força bebês das mãos de seus pais, quando estes procuravam fugir em direção ao Ocidente. Essas crianças eram então entregues a casais que viviam satisfeitos e conformados com o regime comunista.

Renate Ahrens

Renate Ahrens

Uma década depois das primeiras tentativas de levar a peça aos palcos alemães, Mütter-Los (um jogo de palavras que entre Sem Mães e Mães, Vão Embora), estreou em fins de fevereiro (com casa lotada), em Nurembergue, depois de uma passagem de sucesso por diversos teatros irlandeses. A peça trata do clássico conflito leste-oeste através das lentes confusas e angustiadas da jovem Marion, de 18 anos.

Vivendo em uma pequena cidade da Alemanha Oriental, Marion é repentinamente confrontada com a chegada de sua mãe biológica. Esta havia vivido até então na Alemanha Ocidental e capitalista, tendo tido apenas após a queda do Muro de Berlim oportunidade de voltar à sua terra natal para desvendar os mistérios envolvendo a adoção involuntária da filha.

Coincidências em relação à história irlandesa

Ironicamente, Ahrens avalia que foi mais fácil montar seu espetáculo na Irlanda, longe da Alemanha, cenário da peça. "Como eu não queria esperar dez ou 15 anos, decidir levar o projeto adiante", conta a dramaturga, hoje com 48 anos, os motivos que a levaram a procurar teatros de Dublin, dispostos a encenar a peça. Em 1997, Ahrens, que já vivia na Irlanda desde 1986, encontrou um diretor interessado no espetáculo.

A dramaturga acredita ter levado a peça ao público irlandês "na hora certa". Em 1997, veio à tona na Irlanda uma série de casos de adoções forçadas, ocorridas nos anos 50 e 60, quando mulheres que engravidavam sem serem casadas eram forçadas pela Igreja Católica a entregar seus filhos para serem adotados por pais norte-americanos.

Magdalene Sisters (2002)

Cena de The Magdalene Sisters (2002)

"Essas mulheres tinham freqüentemente 17 ou 18 anos de idade e eram obrigadas a prometer que jamais tentariam encontrar seus filhos. As crianças recebiam novos nomes, fazendo com que se tornasse completamente impossível localizá-las no futuro. Décadas mais tarde, a descoberta de alguns desses casos trouxe à Irlanda uma leva de cidadãos norte-americanos em busca de seus pais biológicos", conta Ahrens. O longa The Magdalena Sisters, dirigido pelo escocês Peter Mullan, documenta esse árduo capítulo da história irlandesa.

Tendo esses casos como pano de fundo, um grupo de atores decidiu, em 1998, levar a peça de Ahrens aos palcos sob o título Quando o Muro Caiu, excursionando em seguida pelo país e pela Irlanda do Norte. Embora essencialmente alemão, o tema encontrou ressonância na Irlanda, que acabara de desvendar um segredo semelhante, envolvendo sua própria história. "É melhor quando você vê algo de você nos outros", comenta Ahrens.

Teste decisivo em Berlim

Em julho de 1999, a dramaturga enfrentou pela primeira vez um teste frente ao público alemão, quando o grupo irlandês levou a peça a um pequeno teatro de língua inglesa no bairro berlinense Kreuzberg. O resultado foi um sucesso absoluto: casa lotada e uma excelente reação da mídia, com uma série de críticas positivas. "Havia na platéia pessoas do leste e do oeste, foi fascinante. Havia inclusive pessoas dizendo que conheciam famílias que haviam passado por isso", embora a reação de praxe da maioria tenha sido "nunca soubemos disso", lembra Ahrens.

Interesse despertado através de uma notícia de jornal

Ahrens tropeçou pela primeira vez no tema das adoções forçadas na ex-Alemanha Oriental por acaso, ao ler um artigo de jornal em 1990. O tema havia sido mantido em sigilo por anos pelo antigo governo comunista. Ahrens lembra até mesmo que uma sucursal do semanário Der Spiegel havia sido fechada em Berlim Oriental, em 1975, depois que um repórter noticiou os casos de adoções forçadas. "Houve um escândalo enorme, mas depois disso o tema desapareceu da mídia. Nos 15 anos seguintes, não ouvi falar nada a respeito", conta Ahrens.

Desde então, a dramaturga despendeu boa parte de seu tempo refletindo sobre as dificuldades que envolvem o passado alemão. "As contradições entre as duas Alemanhas me interessam realmente. Nasci e cresci na parte ocidental e todas as vezes em que ia visitar o lado oriental me sentia incrivelmente estrangeira, apesar de eles falarem a mesma língua. Encontrar aquela notícia me fez decidir a fazer algo sobre essa discrepância", fala Ahrens.

Após extensas pesquisas em arquivos de jornais e bibliotecas, a dramaturga descobriu o que chama de "engraçado": ao invés de "dez ou quinze adoções forçadas, ocorridas por motivos políticos, fui percebendo que se tratava de centenas de casos". A queda do Muro de Berlim, em 1989, facilitou as pesquisas, ao abrir parte dos arquivos da Stasi, a polícia política da ex-Alemanha Oriental, ao acesso público.

"Chegou a hora certa de discutir"

"Eu não tinha um propósito político exato, quando escrevi a peça. Estava apenas interessada nos personagens e nas histórias. Sinto que todos nós, alemães, temos que viver com nosso passado de um país dividido. Vejo a Marion como uma encarnação disso tudo", afirma a dramaturga.

Hoje, mais de uma década após a queda do Muro de Berlim, "há ainda imensas feridas dos dois lados. Não acredito que as duas Alemanhas tenham realmente se juntado, mas, levando em conta as reações ao espetáculo, acredito que há hoje pelo menos uma espécie de abertura. Parece que chegou a hora certa de uma discussão", completa Ahrens.

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