Escândalo do leite foi ″seqüência de dissimulações″, diz jornalista chinês | Notícias e análises internacionais mais importantes do dia | DW | 25.09.2008
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Mundo

Escândalo do leite foi "seqüência de dissimulações", diz jornalista chinês

Escritor, jornalista e perito em alimentos chinês Zhou Qing aconselha os chineses a prestar muita atenção na origem de seus alimentos. Para ele, o escândalo do leite pode até levar a uma revolução.

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Preparo de amostras para controle de leite na China

O jornalista e escritor Zhou Qing, nascido em 1965, mora em Pequim. Ele passou dois anos na prisão após os protestos estudantis de 1989. Depois de vários anos de pesquisa, ele publicou em 2004 seu estudo intitulado What Kind of God, um relatório detalhado sobre a segurança alimentar na China, que acabou sendo proibido no país.

DW-WORLD.DE: De uma hora para a outra, o mundo inteiro passou a temer o leite contaminado da China. O escândalo o surpreendeu?

Zhou Qing: De forma nenhuma! Em meu livro, eu já havia previsto que nossos alimentos se tornariam ainda menos seguros.

Seu livro trata de alimentos para bebês?

De fato, já tivemos escândalos com leite em pó. Em 2004, bebês de Fuyang, na província de Henan, adoeceram após terem sido alimentados com leite em pó completamente sem valor nutricional. Primeiro tiveram hidrocefalia e muitas morreram de inanição.

Naquela época, uma província foi a principal atingida. Desta vez, é o país inteiro...

Em seu cerne, os dois escândalos têm a mesma causa. Os erros estão no sistema. Só que desta vez os atingidos não são apenas agricultores pobres de Henan, mas 22 empresas que vendem seus produtos em quase todas as cidades.

Onde exatamente está o problema?

Todos dividem a responsabilidade e isso significa: se um comete um erro, todos são atingidos. Além disso, muitas empresas de laticínios receberam um certificado de qualidade do governo, o que os libera de diversos testes. São certificados sem importância nenhuma e que são comprados por muitas empresas. Os órgãos públicos deveriam fazer seu trabalho, pois para isso são pagos pelo contribuinte.

Agora, até a comida para bebês está contaminada – ainda existe algum alimento no qual os consumidores chineses podem confiar?

Eu sempre aconselho às pessoas: quanto mais simples, melhor. Não comprem alimentos muito baratos, nem muito caros!

Por que é preciso cuidado com alimentos caros?

Porque as margens de lucro são maiores. Se puder ser faturado muito dinheiro com um produto acrescentando-lhe uma substância tóxica, haverá pessoas dispostas a fazê-lo. Na China, também não se pode fazer compras em supermercados muito grandes. Quanto mais influentes as empresas, maiores as possibilidades de manipularem os consumidores. E há ainda outra regra: os melhores produtos são os menos industrializados.

Como reagem os consumidores na China? As pessoas ficaram mais precavidas? Ou se acostumaram às más notícias?

O cidadão comum no momento tem muitas preocupações. Alguns perderam muito dinheiro na Bolsa de Valores, os preços imobiliários estão caindo – os alimentos são, neste caso, apenas um problema a mais. E às vezes o governo apenas usa os escândalos alimentícios para desviar a atenção de outros problemas.

É o caso deste escândalo?

Primeiro, foram presos 19 agricultores – apenas para encobrir os verdadeiros responsáveis. Mais tarde, foram fechadas 12 estações de coleta de leite. Mas nem isso foi suficiente. Daí um vice-prefeito renunciou, em seguida um prefeito, e só então o escândalo atingiu as grandes empresas de laticínios.

Todo o escândalo foi uma grande série de dissimulações. O que aprendemos disso? As empresas são poderosas e compram a proteção das administrações locais. No Ocidente, isso seria inimaginável.

O que os consumidores chineses podem fazer contra isso?

Em primeiro lugar, precisam se conscientizar de que eles próprios têm de se proteger. E que eles próprios realmente têm de tomar isso nas mãos. Este será um processo demorado na China. Afinal, isso significa que o governo tem de ceder parte do poder. A mídia chinesa precisa desempenhar um papel central nesta questão, pois ela é a única arma na luta contra os grandes conglomerados.

Há alimentos seguros hoje na China?

O maior problema são os controles. Eu acredito que a situação seja ainda muito pior do que o que sabemos sobre a indústria do leite em pó. Afinal, alimentos para bebês são os mais controlados em todo o mundo.

O primeiro bebê já morreu há alguns meses. Por que o hospital não chamou a atenção para o problema, se o controle de alimentos havia fracassado?

Todo o escândalo envolvendo a empresa Sanlu só chegou à opinião pública por acaso. Eu não acredito que a imprensa esteja noticiando abertamente sobre a dimensão real do problema. A primeira vítima era procedente da província de Gansu. Se o escândalo tivesse acontecido em uma das cidades onde foram disputados os Jogos Olímpicos, eu asseguro que jamais teríamos tomado conhecimento do fato.

Não há padrões morais na indústria alimentícia chinesa e entre os controladores?

Moral é conversa-fiada, não ajuda em país algum. A única solução são leis rígidas.

Nas últimas semanas, praticamente a cada dia havia más notícias sobre o escândalo do leite em pó. O que ainda pode acontecer?

A crise poderia levar até a grandes tumultos e protestos – ela poderia ser o início de uma revolução.

Isso parece um pouco exagerado.

Comer é uma necessidade básica. Um dos fatos que também levou à Revolução de Outubro na Rússia foi o encarecimento repentino do pão.

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