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Futebol

Escândalo de doping no esporte pressiona futebol alemão a encarar tabu

Na Alemanha, pouco se fala sobre o doping no futebol. Mas um polêmico estudo, que acusa o Estado alemão de incentivar a prática, está obrigando jogadores, técnicos e dirigentes a se ocupar do tema - em público.

Quando, na semana passada, o técnico da seleção alemã, Joachim Löw, deu uma entrevista à imprensa para falar sobre a nova temporada de jogos internacionais, teve que se ver confrontado com perguntas sobre um tópico pouco usual quando o tema é a equipe nacional: o doping.

Mas, desde a revelação de um amplo estudo que acusa o Estado alemão de promover o doping de atletas, ainda na época da Alemanha Ocidental, os envolvidos com o esporte mais popular do país têm que lidar cada vez mais com esse desagradável assunto.

"Todos nós queremos um esporte limpo", respondeu Löw, acrescentando que, na concentração, seus jogadores já foram convocados às seis e meia da manhã para se submeterem a testes de doping. "E acho ser absolutamente positivo quando os testes são feitos com frequência."

Löw defende com veemência seu empregador, a Federação Alemã de Futebol (DFB, na sigla original), contra as acusações de doping, elogiando o trabalho da organização onde trabalha, muito embora esta tenha mostrado pouco interesse em investigar seriamente supostos casos de doping em sua própria história.

Copas de 1954 e 1966

Há sete anos, o historiador Erik Eggers publicou um artigo sobre os "heróis de Berna", como são conhecidos na Alemanha os jogadores campeões do mundo de 1954. Ele pesquisou durante anos sobre a equipe. Sua conclusão é que muitos jogadores daquela seleção receberam injeções, provavelmente de metanfetamina, na forma de um medicamento conhecido como pervitina. Este estimulante era ministrado na Segunda Guerra a soldados ​​e aviadores, para eliminar o cansaço e manter o vigor físico.

Deutsche Sportgeschichte Fußball WM 1954 Wunder von Bern

Alemanha campeã do mundo em 1954: suspeita tardia de doping

Eggers continuou pesquisando e participou do polêmico estudo Doping na Alemanha, de 1950 até hoje, realizado por estudiosos da Universidade Humboldt de Berlim, ainda não publicado na íntegra, mas revelado há pouco dias pela imprensa alemã.

Durante as pesquisas, ele descobriu uma troca de correspondências entre a Fifa e a Federação Alemã de Atletismo (DLV, na sigla original) datada de 1966. A Fifa escrevia que, depois de o controle de doping ter sido introduzido no mundial da Inglaterra, análises em laboratório teriam detectado traços de efedrina em três jogadores da equipe alemã. A efedrina era proibida mas não levava a uma suspensão do atleta.

A DFB respondeu ao questionamento, por meio de um atestado do perito Martin Nolte, que assegurava que os regulamentos antidoping de então não estavam sendo violados. A argumentação completa do especialista, entretanto, não foi publicada pela DFB, fato que irrita o historiador.

"Simplesmente divulgar declarações de que um especialista qualquer atestou o contrário não é suficiente", argumenta Eggers. Ele diz que outros documentos da época poderiam contribuir para a elucidação do caso. Mas a DFB condicionou o acesso a seus arquivos para a equipe de pesquisadores a condições rigorosas para uma publicação. Eles recusaram, e o arquivo permaneceu fechado.

"Injeção de vitaminas" de Beckenbauer

Fußball Franz Beckenbauer

Beckenbauer disse que recebia "injeções de vitaminas"

Na mesma Copa da Inglaterra, em 1966, o kaiser Franz Beckenbauer estreava, com 20 anos, num mundial. Ele também comentou recentemente as alegações de doping durante o torneio. "Eu estava lá. Não sabíamos nem o que era doping. Nem conhecíamos essa palavra."

A declaração soa estranha, já que Beckenbauer foi sorteado para o teste de doping ao menos uma vez. Em sua edição de 18 de julho de 1966, a revista Der Spiegel relata que Beckenbauer e seu companheiro de equipe Siegfried Held tiveram que "urinar em tubos de ensaio" após o primeiro jogo.

No sábado passado (10/08), Beckenbauer voltou a se contradizer, ao afirmar, num programa de debates na TV pública alemã ZDF que, quando jogador, recebia o que o médico chamava de "injeções de vitaminas", sem saber o que havia dentro. Poucos minutos antes, ele havia assegurado que, em seus 20 anos como jogador, nunca fora obrigado por técnicos ou dirigentes "a tomar algo que não soubesse o que era".

Testes desde 1966

Testes antidoping passaram a ser realizados em jogos de seleções nacionais a partir de 1966. No futebol alemão, no entanto, os dirigentes se recusaram a introduzir esses controles mesmo nos anos seguintes. "Temos documentos mostrando que o então secretário-geral da DFB [Hans Passlack] simplesmente comunicou à Confederação Alemã de Esportes (DSB), em 1979, que não iria cumprir suas determinações em se tratando de doping", afirma Eggers.

Harald Toni Schumacher

Livro do goleiro Toni Schumacher revelou bastidores do doping no futebol, citando caso da Copa de 1986

O livro do ex-goleiro Toni Schumacher, Anpfiff (apito inicial), foi o ponto de virada sobre o assunto, com suas revelações sobre os bastidores do futebol, incluindo casos de doping durante a Copa do Mundo de 1986. A publicação, em 1987, custou a Schumacher o emprego no clube em que jogava, o Colônia, e também o posto de goleiro da seleção alemã.

Sob pressão da opinião pública, em 1988 a DFB decidiu se submeter às regras antidoping do Comitê Olímpico Internacional (COI) e começou a fazer controles em suas próprias competições.

Somente em 1995 começaram os primeiros controles nos treinos. A partir da atual temporada, também o sangue dos profissionais vai ser controlado nos treinos, a cargo da Agência Nacional Antidoping da Alemanha (Nada, na sigla em alemão). Hormônios de crescimento ou doping sanguíneo só conseguem ser detectados por exame de sangue e não com amostras de urina.

Controles falhos

Uma cena do filme Deutschland. Ein Sommermärchen (Alemanha, um conto de fadas de verão", em tradução livre), sobre a Copa de 2006, na Alemanha, ilustra a pouca seriedade dada ao assunto doping no futebol do país até agora. Após uma partida, o jogador da seleção alemã Oliver Neuville é convocado ao controle de antidoping e se nega a urinar na frente do fiscal. "Na frente de alguém, eu não consigo", argumenta. O fiscal concorda em esperar pelo copo com urina do lado de fora da cabine, com a porta entreaberta. Nesta situação, Neuville poderia ter tido chance de manipular sua urina.

Desde o início dos controles, houve 20 casos registrados de resultados positivos de testes antidoping, apesar dos falhos mecanismos de controle. Também internacionalmente, o futebol exibe diversos casos de emprego de doping.

Maradona in Neapel 26.02.2013

Maradona protagonizou caso mais famoso, em 1994

Em abril de 2013, o médico espanhol Eufemiano Fuentes, um dos principais acusados num escândalo de doping que abalou o ciclismo, confirmou em tribunal que agiu em diversas modalidades esportivas, incluindo o futebol. Entre os clubes atendidos por Fuentes estariam os poderosos Barcelona e Real Madrid, duas das maiores potências do futebol mundial.

Outro médico acusado de colaborar com o sistema de doping das equipes de ciclismo, Luis del Moral, trabalhou como "consultor médico" de vários clubes de futebol.

O craque argentino Diego Armando Maradona foi suspenso da Copa do Mundo de 1994 após ser pego no teste antidoping, que apontou uso de efedrina, entre outras substâncias.

Dois anos depois, a Juventus de Turin venceu a Liga dos Campeões com o uso considerável de medicamentos, segundo informações de autoridades italianas. Os documentos do processo de investigação da promotoria pública somam 40 mil páginas. Neles, é citado também o nome do francês Zinedine Zidane em conexão com a substância EPO.

O também francês Didier Deschamps foi interrogado no Senado da França sobre acusações de doping em torno da seleção francesa, que ele comandou como capitão na Copa do Mundo de 1998. A lista de casos de doping no futebol não tem fim, e a história ensina que esse bilionário esporte não está livre de manipulações.

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