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Cultura

Em tradução no Brasil as memórias de exílio de Lisa Fittko

Surpresa e contentamento foram as reações da judia alemã e militante antifascista Lisa Fittko, ao saber que suas memórias serão publicadas no Brasil.

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Lisa Fittko também guiou o filósofo Walter Benjamin pelos Pireneus, em sua fuga dos nazistas

Ainda ativa aos 93 anos e quase duas décadas depois do lançamento de suas memórias na Alemanha ( Mein Weg über die Pyrenäen. Erinnerungen 1940/41, Ed. Carl Hanser, Munique), a judia alemã e militante antifascista Lisa Fittko exprime surpresa e contentamento ao tomar conhecimento de que elas serão publicadas pela primeira vez no Brasil: "É uma felicidade poder viver ainda isso. Ah! tanta gente no Brasil, 175 milhões de brasileiros...! E que lá existem pessoas, por suposto, sem ligação com esses acontecimentos nesses anos na Europa, mas que têm interesse no meu livro...!".

Em Minha Rota Através dos Pirineus. Memórias 1940/41, a ser lançado no Brasil pela Editora Relume Dumará, Rio de Janeiro, ela narra, baseada no seu diário dos anos de perseguição e fuga do regime nazista na Alemanha, os perigos a que estavam expostos diariamente os exilados e emigrantes judeus e perseguidos políticos do regime nesses anos.

"Rota F"

A publicação na Alemanha, em 1988, das memórias de Lisa Fittko desvendou finalmente o mistério da "Rota F", citada anteriormente por vários autores de memórias desse tempo. Atrás do "F" esconde-se o casal Lisa e Hans Fittko. Foram eles que organizaram uma rota de fuga pelos Pirineus, através da qual muitos refugiados puderam alcançar sua liberdade, atravessando a fronteira da França para a Espanha.

Em 1940/41, arriscando a própria vida, Lisa Fittko guiou sucessivos grupos de judeus, políticos e intelectuais alemães através dessa rota, que mais tarde ganharia seu nome. Um deles, o filósofo alemão Walter Benjamin, a quem é dedicado um capítulo de seu livro, que descreve as circunstâncias da sua dramática fuga. A referência a uma pasta que ele carregava consigo deu origem a mais um mistério na sua biografia e a muita especulação nos meios científicos e literários durante muitos anos. Fittko conta que ele insistia que a pasta seria mais importante que sua própria vida, pois continha seu último manuscrito. Walter Benjamin se suicidaria logo depois na Espanha, angustiado pela ameaça de ser deportado de volta à França. No seu espólio consta de fato uma pasta, mas misteriosamente nenhum manuscrito.

Estações do exílio

A Rota F, no entanto, é apenas uma estação no longo exílio de Lisa Fittko. Nascida em 1909 em Uzhorod (hoje Ucrânia), ela cresceu em Berlim, onde iniciou sua militância política como jovem estudante ainda na década de 20. Engajou-se na resistência antifascista contra Hitler e seu regime e, já em 1933, teve de fugir da Alemanha. Foi primeiramente para Praga, onde conheceu o também antifascista jornalista alemão Hans Fittko, que se tornou mais tarde seu marido e companheiro na resistência clandestina.

Sempre fugindo da Gestapo, Lisa Fittko viveu no exílio em diversos países nesse tempo: Tchecoslováquia, Suíça, Holanda, França, Cuba, para onde o casal conseguiu finalmente um visto no final de 1941. Somente depois da Guerra, em 1948, é que o casal conseguiu um visto para os Estados Unidos. Lisa Fittko vive desde então em Chicago, onde concedeu generosamente uma entrevista exclusiva para a Deutsche Welle..

Em Chicago

Nonagenária, Lisa Fittko surpreende pela agilidade de pensamento e de memória. Fala até hoje várias línguas fluentemente e, apesar de quase cega, trabalha diariamente no computador. Primeiramente, ela faz questão de mostrar sua curiosidade em relação ao Brasil. É ela quem primeiro nos faz perguntas sobre o país e seu povo, possíveis e eventuais leitores brasileiros de suas memórias. Ela releva que esse seu livro já foi publicado em diversas línguas (alemão, inglês, francês, espanhol, japonês, etc.), "até em japonês", mas que a notícia da sua próxima publicação no Brasil lhe trouxe uma alegria inusitada. Uma nova vida na passagem do seu 93º aniversário. "Wunderbar, wunderbar!" (Maravilhoso, maravilhoso!).

Para quem conhece a sua biografia através de seus livros, a relação entusiástica de Lisa Fittko para com a vida e na sua idade é impressionante. Fala do passado sem amargura ou rancor e cultiva até hoje ligação com a cultura alemã. Sobre seus sentimentos para com os alemães, explica que "não existe povo bom ou povo mau, mas pessoas boas ou más".

"Nos Estados Unidos, as pessoas me perguntam freqüentemente como eu julgo os alemães. Respondo sempre que não houve talvez o bastante, mas que houve centenas e centenas de alemães que deram a sua vida no combate ao fascismo. Mas que, infelizmente, houve milhões que aderiram ao regime por oportunismo ou seduzidos pela propaganda dos nazistas. É decepcionante que foi a grande parte, mas eu acho que não haja país sob um regime de terror como a Alemanha nazista, que mesmo assim tenha tido uma tal porcentagem de combatentes e resistentes antifascistas. E isso é naturalmente uma tragédia. Não digo isso para defender a Alemanha. Acho que isso pode acontecer em qualquer país e que não se pode explicar que aconteceu na Alemanha 'porque os alemães seriam ruins'."

Ligação às origens

"Nunca procurei me livrar das minhas raízes alemãs. Nem esquecer a língua alemã, como muitos judeus refugiados. Porque acho que não existe uma língua na qual não tenham sido cometidos crimes. Vivi na Alemanha os anos mais decisivos do meu desenvolvimento e me sinto até hoje como uma berlinense."

Note-se que Lisa Fittko não chegou a viver a perseguição como judia na Alemanha. Ela teve de deixar a Alemanha por motivos políticos já antes do nazismo, o que não favorecia sua situação no exílio. Nesse sentido, ela explica que, mesmo em países democráticos em que viveu como refugiada política, havia sempre um interesse nas relações com a Alemanha nazista.

Na Tchecoslováquia seu marido acabou sendo preso, e na França ela foi internada na famosa prisão de Gurs, de onde conseguiu fugir em 1940. Como alemã, judia e militante antifascista, suas dificuldades não terminaram nem com o fim da Guerra. Seus últimos anos de exílio na Cuba da era Batista são narrados inclusive com humor em várias histórias curtas suas.

Depois da Guerra, não pareceu ao casal uma alternativa conveniente retornar a uma Alemanha ocupada e dividida, explica. O casal conseguiu emigrar em 1948 de Cuba para os Estados Unidos, mas Hans Fittko adoeceu gravemente, falecendo anos mais tarde em Chicago. Em 1965 Lisa Fittko recebeu finalmente um passaporte americano. Foi esse o seu primeiro documento de identidade legal, depois de 15 anos "sem papel".

Hoje ela se alegra sobretudo que as coisas mudaram. Que pessoas que como ela sobreviveram ao terror nazista podem hoje falar e ser ouvidas. "Não se deve esquecer que, mesmo nas circunstâncias mais dramáticas, há sempre uma maneira possível de se ajudar. Solidariedade é uma prática necessária. O importante é saber o que precisa ser feito e o que se tem de fazer. Na retrospectiva, eu fiz apenas o que tinha de fazer e hoje faria a mesma coisa, embora não propriamente o mesmo..."