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Cinema

Em "Joaquim", diretor vê Tiradentes como brasileiro comum

Com orçamento pequeno e câmera na mão, Marcelo Gomes consegue levar seu filme para competição oficial do Festival de Cinema de Berlim. Em entrevista à DW, cineasta fala sobre a sua interpretação do herói nacional.

Joaquim, Marcelo Gomes, Berlinale, Brasilien ( Copyright REC Produtores/Ukbar Filmes)

Estrelado por Júlio Machado, "Joaquim" é uma obra de ficção sobre o herói nacional Tiradentes

Depois de três anos, o Brasil volta à competição oficial do Festival de Cinema de Berlim (Berlinale) em 2017 com Joaquim, do diretor pernambucano Marcelo Gomes. O filme está concorrendo ao lado, entre outros, de Logan, da série Wolverine, e Django, do francês Étienne Comar.

Segundo os produtores, Joaquim é uma obra de ficção que "acompanha o processo de transformação de um homem comum num rebelde anticolonialista".

"No nosso Joaquim, procuramos traçar a vida de Tiradentes a partir de outro ponto de vista", diz Marcelo Gomes, em entrevista exclusiva à DW. "Primeiramente, retratá-lo como um brasileiro comum: seus defeitos, contradições, medos, ambiguidades, com um caráter verdadeiramente humano."

Interpretado por Júlio Machado, Joaquim é um militar de destaque na captura de contrabandistas de ouro. Ele espera que sua dedicação seja recompensada com uma patente de tenente para que possa comprar a liberdade da escrava Preta (protagonizada pela atriz portuguesa Isabél Zuaa), por quem é apaixonado. Mas a promoção nunca chega.

DW: Qual a importância de ter Joaquim no Festival de Cinema de Berlim?

Marcelo Gomes: É fantástico. Primeiramente porque a Berlinale é um festival que se interessa por obras de temática política e nosso filme quer refletir sobre as fraturas sociais provocadas pelo processo de colonização de nosso país, e essas fraturas são as mesmas que aconteceram em outros países da America Latina, África e Ásia.

Em sua ficção, Marcelo Gomes enfoca a tomada de consciência do mártir da Inconfidência mineira

Em sua ficção, Marcelo Gomes enfoca a tomada de consciência do mártir da Inconfidência mineira

Em segundo lugar, porque teremos uma visibilidade imensa e para nosso filme – com pouca verba de divulgação – isso é fundamental. Por fim, a Berlinale é um festival aberto, com a presença da crítica e do público, e assim poderemos ter um primeiro contato com uma camada diversa de espectadores e sentir as primeiras reações. Participar da competição já é o nosso prêmio maior.

O público de Berlim é muito especial. Durante a minha última participação na Berlinale em 2014 com O homem das multidões (codirigido por Cao Guimarães), os debates após as sessões foram muito ricos, reflexivos e reveladores. Um grande estímulo para qualquer diretor. Um aprendizado que levo comigo. Espero que o nosso Joaquim seja igual.

Diferente de outros filmes sobre figuras relevantes no processo de emancipação da América Latina, em Joaquim, o foco recai sobre a pessoa.

Nos filmes sobre a Inconfidência Mineira, o personagem Tiradentes é representado sempre de uma forma glorificante, mítica e por vezes até endeusado. No nosso Joaquim, procuramos retratar a vida de Tiradentes a partir de outro ponto de vista. Primeiramente, retratá-lo como um brasileiro comum: seus defeitos, contradições, medos, ambiguidades, com um caráter verdadeiramente humano.

Assistir ao vídeo 01:57

Cenas do filme "Joaquim", o representante brasileiro na Berlinale

Em seguida, decidimos concentrar nossa narrativa no período em que Joaquim ocupa o cargo de alferes da Guarda Militar e realiza viagens pelas precárias, lamacentas e perigosas estradas das Minas Gerais à procura de contrabandistas de ouro. Concentrar-nos no momento que, para mim, era o mais curioso: o que levou um alferes da Guarda Real a tomar parte de um movimento conspiratório contra a Coroa Portuguesa. Essa mudança de paradigma dentro de uma ética do século 18 era o que mais me interessava.

A partir de leituras de textos históricos, entendemos que a consciência libertária nas Minas Gerais aparece logo após a independência dos EUA. A Constituição americana familiariza a elite intelectual das Minas com a ideia dos "nativos da terra". Não existia ainda essa consciência de brasileiro, mas surge um sentimento de que os nativos da terra detenham o poder político do lugar. Joaquim, embora não pertencesse a esta "elite intelectual”, viveu em contato com ela.

Agora em minha ficção penso que o contato com as condições de vida dos africanos vindos ao Brasil como escravos e com os índios nativos destratados pelo Império Português também foi fundamental para a tomada de consciência do personagem. Imaginei que não somente as ideias iluministas influenciaram Joaquim, mas o caldo social e cultural foi fundamental para a sua tomada de consciência.  E nesse sentido o filme é mais uma crônica sobre o Brasil Colônia do que uma novela, mais uma poesia do cotidiano do século 18 do que um relato oficial.

Quanto tempo você levou para rodar Joaquim? Onde foram feitas as filmagens?

As filmagens foram realizadas na região de Diamantina. Rodamos em quatro semanas. Isso foi possível devido a uma equipe dedicada. O orçamento foi pequeno, considerando que era um filme de época com um grande elenco. Todos na equipe se empenharam muito, e passamos bastante tempo em preparação para não perdermos nenhum momento durante a rodagem. Entre preparação, filmagem e desprodução, ficamos em Diamantina de junho a setembro.

Por que você filmou com a câmera na mão?

Nos filmes históricos existe uma tendência a utilizar uma câmera excessivamente clássica, direção de arte rebuscada, com cores excessivas e figurino pesado. Tudo isso constrói um passado glamoroso que, às vezes, passa na frente dos próprios personagens.

Filmagens de Joaquim foram realizadas na região de Diamantina

Filmagens de "Joaquim" foram realizadas na região de Diamantina

A Minas Gerais que retratei no filme tem cores esmaecidas, estradas cobertas de lama das contínuas chuvas que castigavam a região, objetos essenciais e inexistência do supérfluo. Uma direção de arte desbotada, suja, precária. Um passado sem glamour, como de fato era. Tudo o que aparece no filme tem uma função dramática, história, utilidade, dureza e secura.

A câmera na mão traria uma proximidade humana e também um passado mais real. Uma câmera que vai à busca de um registro da poética do cotidiano presente na vida de Joaquim: como morava, onde dormia, como eram suas relações afetivas e como tratava seus pacientes.

Como foi possível fazer um filme de época em apenas quatro semanas e com um orçamento pequeno?

Foi muito difícil fazer o filme em apenas quatro semanas com menos de 2 milhões de reais para produzi-lo. As locações eram de difícil acesso, e o elenco, grande. Filme de época exige uma imensa quantidade de detalhes. A criatividade foi chave para vencermos o orçamento reduzido, e contei com a inventividade de dois grandes parceiros: Marcos Pedroso na direção de arte e Pierre de Kerchove na fotografia. Além do apoio incondicional do produtor João Júnior, que me acompanha em todos os meus filmes e realizou um trabalho primoroso.

Joaquim, Marcelo Gomes, Berlinale, Brasilien ( Copyright REC Produtores/Ukbar Filmes)

Alferes Joaquim tenta comprar a liberdade da escrava Preta (Isabél Zuaa)

Foi difícil obter o financiamento para rodar Joaquim?

Na verdade, tudo começou com o convite do produtor espanhol José Maria Morales, da Wanda Films, para participar de um projeto para a TVE (Televisión Española) chamado Libertadores, para comemorar o bicentenário da independência. A ideia era realizar oito películas sobre protagonistas das lutas de independência na América Latina.

As películas pretendiam resgatar na tela o pensamento e a obra das figuras mais relevantes do processo de emancipação do continente.

Sou apaixonado por filmes históricos e já havia trabalhado em outros dois filmes de época extremamente gratificantes: Madame Satã (como roteirista) e Cinema, Aspirinas e Urubus (como roteirista e diretor). Além disso, José Maria me ofereceu completa liberdade criativa. O convite era irrecusável.

A crise na economia da Espanha paralisou o investimento da TVE em nosso filme. Nesse momento eu já estava completamente fascinado com a ideia de refletir sobre a sociedade brasileira do século 18. O meu produtor, João Vieira Jr., e eu decidimos seguir em frente com o projeto e fomos à procura de financiamento brasileiro. Algum tempo depois o filme foi também encampado pela produtora portuguesa Ukbar Films. Joaquim também conta com a participação da Dezenove Som e Imagens como produtora associada.

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