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Música

Em disco solo, cantora Odara Sol revê vida entre São Paulo e Berlim

Brasileira ficou conhecida na cena hip hop da capital alemã como backing vocal de nomes como Samy Deluxe e Marteria. Com o álbum "Realidade", vai para a frente dos holofotes.

Numa noite chuvosa, a brasileira Odara Sol sobe no palco de um descolado clube no bairro de Kreuzberg, em Berlim. A cantora paulistana já se apresentou na Alemanha antes, mas desta vez é diferente. Entre suas confessionais letras em português e um alemão perfeito usado para se comunicar com a plateia, Sol avisa que o que está cantando no palco é a história de sua vida.

"Foi meu primeiro show solo. Foi muito legal, energia pura", diz após a apresentação realizada no fim de maio. "Tentei criar uma sequência cronológica para o show. São músicas sobre o cotidiano, com as quais muitas pessoas podem se identificar. Preocupo-me em passar sentimentos reais. Meu tema é a realidade, com todos os sentimentos, de um dia, um ano ou uma vida."

Realidade é o nome do primeiro disco solo da artista, que acaba de ser lançado. A brasileira vive em Berlim desde 2007 e já passou por grandes palcos da Europa, ao lado de populares nomes do hip hop, do soul e do dancehall alemães.

Da realidade aos palcos

O lançamento de Realidade é um grande triunfo para ela, que chegou em Berlim sem falar alemão ou inglês. "Era muito difícil, achei que não tinha chance. Por isso, demorou um pouco para as coisas ingressarem. Mas, depois de muito trabalho, consegui fazer as pessoas acreditarem em mim."

O disco conta literalmente a história da vida de Sol. Algumas canções foram escritas na época em que morava na periferia de São Paulo; outras, em seus primeiros meses na Alemanha.

Ela escreveu a música que dá nome ao CD logo que chegou à Alemanha e ainda trabalhava como faxineira num hotel. "Mas chegou um momento em que eu não queria mais fazer aquilo, e decidi voltar para a música. Foi aí que comecei a escrever. Um amigo DJ me deu uns beats e comecei a compor."

Sängerin - Odara Sol

À frente do palco, Sol canta canções compostas na periferia de São Paulo e nos primeiros tempos de Alemanha

A paixão de Sol pelo canto foi despertada muito antes disso, aos 12 anos, quando viu Whitney Houston na televisão. "Ela pegava cada palavra e transformava em música. Isso me encantou."

Sol começou, então, a cantar na igreja e em bandas que faziam versões de sucessos do rock e do pop nacionais. Na adolescência, fez parte de diversas bandas de hardcore, mas foi no hip hop que encontrou sua voz.

"Venho da periferia de São Paulo, e foi o hip hop que me mostrou o caminho, foi onde eu me identifiquei. Comecei a trabalhar com jovens e, com isso, fui aprendendo a chegar ao fundo da alma, a sentir e observar melhor a realidade – minha e das pessoas à minha volta. Aprendi que, para o rap, o que importa são as coisas reais. Isso cria um diálogo com as pessoas. Imagino que seja isso o que a plateia quer ouvir", considera.

Caminho tortuoso

Entretanto, o caminho de Sol no hip hop não foi fácil. "Quando comecei, ouvia que fazer hip hop era coisa de mulher de bandido. Era difícil, os grupos só colocavam as meninas para fazer backing vocal. Com a Conceitos de Rua, queríamos colocar as meninas na frente", conta.

Conceitos de Rua era a ONG da qual Sol fazia parte, e foi por meio dela que a cantora fez um intercâmbio na Alemanha. Depois de algumas idas e vindas, acabou ficando em Berlim.

"Aqui em Berlim, as coisas não são diferentes. Mulher vai cantar bonitinho e ficar no fundo, mas aqui as meninas são mais ligeiras. O acesso é mais fácil. A cultura católica no Brasil faz o machismo ser mais forte, mas as coisas também estão mudando por lá", diz Sol.

Na Alemanha, quem deu a primeira grande chance à brasileira foi justamente uma das grandes artistas do hip hop local. "A Miss Platnum me ajudou e me apoiou muito. Já nos conhecíamos e, quando uma cantora saiu de sua banda, ela me chamou. Mesmo não falando alemão direito, ela me deu uma chance. Foi assim que tudo começou. Ela foi uma grande amiga, uma mãe", conta.

Sol passou, então, a trabalhar como backing vocal ao lado de grandes nomes do hip hop alemão. Em 2010, a Miss Platnum produziu um show do Marteria e ela acabou entrando para a banda dele. Logo surgiu o convite para cantar com Samy Deluxe. "Uma porta foi abrindo a outra, e eu não deixei de correr atrás."

Sol ainda participou de projetos e faixas de outros artistas, como Kid Simius, e dos trabalhos solos de Johnny Strange e Larsito, ambos membros do popular coletivo de dancehall Culcha Candela.

Para a artista, o processo de ser backing vocal foi duro no começo, mas a experiência e aprendizado estão sendo úteis agora que ela está à frente do palco. "Aprendi a trabalhar em grupo e a perceber o trabalho de cada um que está ao meu lado no palco", diz.

Sängerin - Odara Sol

Novo álbum 'Realidade' reflete a história da vida da cantora, que chegou a Berlim sem falar alemão ou inglês

O show deve continuar

O show em Berlim, no final de maio, contou com diversas participações dessas pessoas que ajudaram a brasileira a chegar aonde chegou. Ela cantou em alemão ao lado de Johnny Strange, animou o público com o rapper Marteria e transformou tudo em festa com a faixa Costa do Sol, uma surf music apocalíptica criada pelo espanhol Kid Simius.

Outro destaque foi a sonoridade da cantora no palco. Se no CD as faixas de Realidade têm um tom mais tranquilo, explorando os vocais de Sol, ao vivo o show ganha um peso e um toque extra de guitarras, que lembram o som dos cariocas do Rappa, banda da qual ela é fã. "Eles são uma das bandas que mais admiro, porque é difícil determinar exatamente o estilo deles. Chamo isso de música urbana. É isso que eu quero fazer", comenta.

Nascida Solange Miranda de Souza, a brasileira quer que o projeto Odara Sol não tenha fronteiras. Ela quer cantar em português e, quem sabe, produzir em outras línguas. Agora, com seu disco solo lançado, Sol deve continuar trabalhando com seus parceiros, mas também vai focar em conduzir o palco ela mesma.

E o país natal também está nos planos. "Quero fazer minha primeira turnê no Brasil. Ainda não temos datas definidas, mas deve acontecer até, no máximo, o começo do ano que vem", adianta.

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