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Cultura

Em disco e show, Marisa Monte canta o amor com charme e simplicidade

No novo disco e na turnê que passa pela Europa, cantora brasileira mantém a linha de exaltar o amor em melodias simples, interpretadas com charme e desenvoltura.

Quem já conhecia O que você quer saber de verdade, oitavo disco solo da discografia da ex-tribalista Marisa Monte, lançado no Brasil em 2011, já sabia que a turnê Verdade, uma ilusão seria a reafirmação de uma tendência adotada pela cantora nos últimos tempos, sem o menor receio: a de arrebanhar multidões de fãs cantando o amor em melodias simples, como as do tempo da Jovem Guarda, interpretadas com desenvoltura e charme.

E assim têm sido os concertos que ela vem apresentando na Europa, num giro que começou na Inglaterra, passou pela Alemanha no sábado passado (20/04), e segue até Madri, com escalas em Porto, Lisboa e Barcelona.

A turnê pelo exterior, que se estende pelos próximos meses e que, segundo o site da artista, já tem datas em Buenos Aires, Miami e Nova York, será intercalada por algumas apresentações na capital paulista e no interior de São Paulo, sendo que está previsto também a gravação de DVD homônimo no Rio de Janeiro, em maio ou junho, desse mesmo show que percorre agora o Velho Continente.

Em 2012, Marisa frisava que fazia questão de levar ao público europeu a mesma estrutura de palco que costuma montar nas temporadas pelo Brasil adentro. No que diz respeito à banda que a acompanha, não houve mudanças no time de instrumentistas, em que se destacam o baixista Dadi (que tocou nos Novos Baianos e em A Cor do Som e que é co-produtor do mais recente álbum dela) e três integrantes da Nação Zumbi, anunciados por Marisa como "power-trio de Pernambuco": Pupilo na bateria (ele que já vinha trabalhando com ela desde 2006), Lúcio Maia na guitarra e Dengue no baixo.

A bela iluminação concebida para o espetáculo também vem sendo apresentada na turnê pela Europa, mas o cenário com a grande estrutura em que são projetadas obras de artistas plásticos brasileiros, exibidas no decorrer do show, não foi usado na apresentação de Mainz, na Alemanha.

Domínio pleno do palco

Brasilien Marisa Monte CD O Que Voce Quer Saber De Verdade

O novo disco "O que você quer saber de verdade"

Se a opção da artista em seguir um repertório de textura romântica tem garantido à ela vendagens muito expressivas de seus mais recentes álbuns, os fãs dos primórdios de sua carreira se sentem meio desamparados ao ouvir hoje a grande intérprete, que outrora se jogava de corpo e alma em arranjos de inventividade rasgada que marcaram trabalhos como o primeiro disco, Marisa Monte, de 1989, o Mais, de 1991, e o Verde, Anil, Amarelo, Cor de Rosa e Carvão, de 94.

Marisa, que também se consolidou como produtora de álbuns interessantes como o pulsante Omelete Man, de Carlinhos Brown, do ano de 1998, e o providencial Tudo Azul - Velha Guarda da Portela, de 2007, resolveu ampliar sua forma de trabalhar no mundo da música, chegando a comentar recentemente algo meio polêmico: "Hoje em dia, o meu trabalho de compositora vai além do de intérprete", afirmou ela à Gazeta do Povo em maio do ano passado.

Quando está no palco, Marisa o domina com uma simplicidade impressionante. Cativa o público com muita sutileza, apoiada na belíssima voz que possui, irresistível ao entoar canções como Para ver as meninas, o samba antológico de Paulinho da Viola, ele também um portelense como ela, ou Diariamente, da lavra de Nando Reis, do tempo em que ele era baixista dos Titãs e um dos principais parceiros dela.

Marisa só fala o indispensável com seu público, o que parece ressaltar ainda mais a força inquestionável de sua presença em cena. Espécie de ícone da feminilidade, ela exerce verdadeiro fascínio especialmente sobre as mulheres, e isso com a maior discrição.

Produtividade à toda prova

Marisa Monte

Discos recentes de Marisa focam no romantismo

Há sete anos, Marisa bancava o risco de lançar simultaneamente dois álbuns. Enquanto Infinito Particular soava como um inspirado passeio pelo pop brasileiro, em arranjos sinuosos engendrados por Phillip Glass, Eumir Deodato e o bossa-novista de primeira hora João Donato, o disco Universo ao Meu Redor encantava pela mescla de antigos sambas do acervo sentimental de Marisa com músicas assinadas em parceria com os amigos tribalistas Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes.

"Para mim, os dois álbums têm a mesma vocação de comunicação com o público, os dois têm letras lindas, há uma coesão no conceito. Eles são diferentes e é natural que o ouvinte prefira um ou outro, mas eu vejo um equilíbrio grande entre eles. As pessoas que gostam de mim, gostam dos dois", afirmou ela na ocasião.

Muito pouca gente sabe que Marisa quase se tornou cantora erudita. "Eu vi que não poderia ser cantora lírica por ter que abrir mão de toda a minha cultura no Brasil. Eu teria que morar fora para sempre e me dedicar a um repertório anacrônico, de outro tempo, e isso não fazia sentido para mim. Mas como técnica foi muito bom. Passei a saber mais sobre o aparelho vocal, pude desenvolvê-lo, além de ter conhecido um repertório lindo", contou ela em 2006. "Estudei na Itália quase um ano, teria que engrenar mesmo lá na faculdade, mas quando vi que seriam quatro anos, não dava!."

Tocar na Europa sempre foi fundamental para ela. "Já são muitos anos de trabalho por aí [na Europa], e além disso há também o fato de a música brasileira ter grande força no exterior. Existem vários outros artistas do Brasil que já têm um espaço estabelecido por aí, o que torna isso tudo um movimento natural. O meu trabalho é muito coloquial, direto, não é uma coisa hermética, feita para poucos", enfatizava ela.

Ano promissor

O sucesso de Marisa em sua passagem pela Alemanha na noite de 20 de abril deve voltar a aquecer o interesse dos promotores de shows de música brasileira na região. Ainda que os custos de trazer grandes nomes da música brasileira sejam considerados muito altos (se comparados a artistas de outras origens e com considerável grau de popularidade), o ano de 2013 promete ser muito fértil em termos de visibilidade para a cultura brasileira em geral. Afinal, o Brasil é o tema da Feira Internacional do Livro de Frankfurt, que se realiza em outubro. Haveria aliado mais nobre para os literatos brasileiros do que os grandes compositores do Brasil, interpretados pelas melhores vozes do país?

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