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Economia

Efeito colateral inesperado

Criada para preservar o meio ambiente e assegurar matéria-prima para a indústria de reciclagem, a cobrança de caução para embalagens de bebidas pode tornar-se um tiro pela culatra.

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Esvaziadas na Alemanha e levadas para reciclagem na China

As intenções do ministro do Meio Ambiente, Jürgen Trittin, ao estender para embalagens PET e latinhas de bebidas a cobrança de caução, eram nobres: combater o acúmulo de lixo em lugares públicos, forçar a entrega destes materiais para reciclagem e incentivar o retorno do consumo de garrafas reutilizáveis, como os tradicionais cascos de vidro. A Confederação Alemã de Matérias-Primas Secundárias e Eliminação de Lixo (BVSE) alerta que as empresas de reciclagem estão sofrendo com a medida, ao contrário do que se esperava.

Quem está tirando o sono dos empresários do setor é a China. Até o início da cobrança do depósito, os consumidores devolviam as embalagens através de sacos plásticos específicos ou as levavam para contêineres nas ruas. A empresa DSD (Duales System Deutschland) tinha o monopólio de recolher todo o material e vendê-lo para as indústrias de reciclagem na Alemanha e em outros países da Europa.

O monopólio garantia matéria-prima e fomentou o surgimento de um significativo ramo empresarial. Somente a Alemanha instalou capacidade para reciclar mais de 100 mil toneladas de polietileno tereftalato, vulgo PET. Em toda a Europa, as indústrias estão preparadas para processar 535 mil toneladas. A quantidade recolhida gira em torno de 450 mil.

Fim do monopólio atraiu chineses

A portaria ministerial que entrou em vigor em 1º de janeiro de 2003 deixou poucas embalagens de bebidas sem cobrança da caução. Os consumidores têm agora de levá-las de volta aos comerciantes para terem o depósito reembolsado. Ao mesmo tempo, acabou com o monopólio da DSD e o comércio tornou-se responsável pelo destino das garrafas termoplásticas que lhe são devolvidas.

E aí pintaram os chineses no mercado. Em todo o ano de 2002, a Duales System Deutschland vendeu quase 62 mil toneladas de lixo PET para as indústrias de reciclagem européias. "Era o filé da DSD", resume Thomas Probst, da Confederação de Matérias-Primas e Eliminação de Lixo. Com o fim do monopólio, em fevereiro de 2003 os chineses compraram 11 mil toneladas diretamente do comércio.

A BVSE estima que atualmente até dois terços de todo o plástico PET coletado pelo comércio está sendo vendido para o Extremo Oriente. "Isso ameaça o sistema europeu e alemão e muitos empregos", diz Probst. No entanto, ele próprio ameniza seu alerta: "O passado mostra que a China, às vezes, adquire grandes quantidades durante curto espaço de tempo e depois fecha novamente o seu mercado".

Custos de mão-de-obra fazem diferença

A indústria chinesa transforma PET em fibras têxteis, casacos e camisas, assim como brinquedos. Reciclado, ele também serve para enchimentos de estofados domésticos e automotivos e lonas plásticas utilizadas na construção civil. Sob tais formas, o PET retorna às lojas européias e americanas.

Bom negócio para os fabricantes, pois o preço do lixo termoplástico subiu para até 260 euros por tonelada em 2003. Segundo a BSVE, no ano anterior a tonelada de PET transparente, de maior valor, custava entre 135 e 220 euros. Após a reciclagem, as indústrias químicas da Europa Ocidental vendiam a matéria-prima por 1000 a 1150 euros, em novembro passado, enquanto os concorrentes chineses ofereciam o mesmo material por 800 a 900 euros.

Questionamentos ambientais

A BSVE adverte que, se a reciclagem preserva o meio ambiente na Alemanha, independente de onde ela seja realizada, o mesmo não se pode dizer da China. Em vez dos caros equipamentos usados na Europa, lá a mão-de-obra barata sujeita-se a condições insalubres para selecionar e limpar o lixo. Além disso, as normas de preservação ambiental não são tão rigorosas. Na Alemanha, a lei fixa cotas de reciclagem, e quem vende e elimina lixo, tem de comprovar seu paradeiro.

Na China, a fiscalização seria impossível. A DSD também já vendeu lixo para empresas de reciclagem chinesas e o faz até hoje. Mas sempre sob inspeção de instituições alemãs de engenheiros, como o TÜV. Desta forma, se deveria evitar dumping através de baixo controle ambiental. A BSVE reconhece que hoje as empresas chinesas também apresentam certificados da eliminação, dentro das normas ambientais. "Mas parte deles dão a impressão de serem de validade duvidosa", afirma a confederação alemã.

Diante deste quadro e do recuo no comércio de garrafas de vidro, Probst questiona se a cobrança de caução na venda de bebidas em lata e plástico PET faz sentido. Ele sugere ainda que o conceito de "embalagem ecologicamente correta" seja revisto.

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