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Mundo

Edição pós-atentado do "Charlie Hebdo" some de bancas parisienses em minutos

Primeira publicação pós-massacre provoca filas em lojas e se esgota ainda pela manhã na capital francesa. Semanário mantém linha irreverente e sarcástica, fazendo piada com atentado, jihadistas e com o papa.

Dez minutos após a abertura da banca, já havia uma longa fila de clientes desapontados diante da banca de jornais na estação parisiense Gare du Nord. A primeira edição do Charlie Hebdo após o ataque terrorista realizado há uma semana estava esgotada.

O jornaleiro dava de ombros, impotente. "Só recebi 200 exemplares, e todos foram vendidos. Amanhã, recebo mais", afirmou.

Nesta quarta-feira, o semanário satírico saiu com uma tiragem de três milhões de cópias, 50 vezes mais do que antes do ataque, mas a distribuição dos jornais não é, logisticamente, tão fácil.

"Eu estava apenas curiosa, depois de todos os acontecimentos e dos ataques terríveis", disse uma cliente, que conseguiu comprar um exemplar, no caminho para o trabalho. "Eu não era uma leitora do Charlie Hebdo, mas agora somos todos, de alguma forma."

As associações islâmicas na França condenaram a nova edição, cuja capa mostra o profeta Maomé chorando, mas apelaram aos muçulmanos franceses que possam se sentir ofendidos a terem serenidade e prudência.

Após a grande manifestação pela liberdade de expressão no último domingo, em Paris, são raras as críticas abertas ao Charlie Hebdo. Um francês muçulmano afirmou, entretanto, ao canal de televisão BFM, que considera a edição uma "provocação".

"Tive que chorar"

A capa do novo Charlie Hebdo traz estampado o profeta Maomé chorando e segurando uma placa com a frase "eu sou Charlie", que nos últimos dias se tornou um símbolo da resistência contra o terrorismo e da liberdade de expressão. Sobre o desenho, está o dizer "tudo está perdoado".

"Mesmo o profeta chora por causa dos terroristas", explicou o autor da charge, Renald Luzier, mais conhecido como Luz. "Havia a ideia de 'eu sou Charlie". Eu desenhei o profeta Maomé chorando e escrevi 'está tudo perdoado'. Então...eu mesmo tive que chorar. E estava pronta a capa!"

Luz contou que teve de trabalhar duro para terminar o jornal e que não houve muito tempo para o luto. Ele afirmou que sempre se sentiu como se os amigos mortos ainda estivessem lá. Materiais e ideias dos cartunistas mortos também foram usados, segundo o editor-chefe Gerard Biard.

"Nesta edição, ninguém morreu. Eles ainda estão aqui. Eles estão no jornal, porque sempre estiveram conosco", disse.

Compromisso com secularismo

O editor-chefe Gerard Biard agradece, em seu editorial, o apoio a seu jornal. Ele também reclama que foi necessário um ataque terrorista para que o meio político se comprometesse explicitamente com a laicidade, a separação entre religião e Estado.

"Todas as pessoas anônimas, todos os políticos, as mídias, os líderes religiosos que disseram 'eu sou Charlie', precisam saber que também disseram 'eu sou secularista'", afirmou. Segundo ele, não deve haver um meio-termo, depois do ataque terrorista contra o humor.

Biard anunciou na terça-feira, numa entrevista coletiva improvisada, que seu jornal seguirá sem poupar religião alguma e que o direito à blasfêmia deve ser defendido.

"Secularismo não é apenas um conceito vago, é um sistema de valores, é preciso ficar claro que a separação entre Igreja e Estado é o princípio mais importante da nossa república. Sem ela, não é possível haver liberdade, igualdade e fraternidade", defendeu.

Devemos continuar rindo

Nas 16 páginas da edição atual, os artistas e autores sobreviventes fazem piada sobre o atentado e criticam adolescentes que viajam para lutar pela jihad. "Onde estão agora as 70 virgens?", pergunta um jihadista ao chegar ao céu. "Elas já estão se divertindo com os redatores do Charlie Hebdo'' é a resposta que sai de uma nuvem divina. O semanário também faz piada com o papa e os negócios envolvendo reféns ocidentais na África.

Charlie Hebdo Pressekonferenz 13.01.2015

Editor-chefe Gerard Briard, ao microfone, e cartunista Renald Luzier, conhecido como Luz (centro), em entrevista coletiva

A equipe do Charlie Hebdo foi abrigada pelo diário Libération. Outros meios de comunicação doaram computadores e material de trabalho. "Eles não tinham mais nada. Os lápis e laptops manchados de sangue estão selados na cena do crime", disse Pierre Fradidenraich, membro da administração do Libération. O prédio do Libération, a editora e o centro de distribuição, estão fortemente vigiados pela polícia. Há o medo de novos ataques.

"Apenas um homem bom"

O governo francês quer apoiar o semanário com cerca de um milhão de euros. Se toda a edição for vendida, os editores do Charlie Hebdo arrecadarão mais do que em um ano inteiro.

"Se o ataque foi bom para alguma coisa, foi para a promoção do Charlie Hebdo", comentou sarcasticamente Luz. Durante a entrevista coletiva, entretanto, ele teve que conter as lágrimas várias vezes e ser consolado pelo editor.

Luz também disse não compreender a irritação que a capa da edição provocou entre alguns líderes muçulmanos no Egito e no Paquistão. "Esta não é uma capa com terroristas. Não há terrorista algum. É apenas um homem chorando. Um homem bom que chora. Sinto muito se alguém esperou outra coisa. Esta foi nossa escolha", justificou.

Charlie Hebdo - 1. Ausgabe nach Attentat

Nova edição dá prosseguimento a filosofia iconoclasta do periódico

"Claro que queremos que este seja um jornal engraçado. Vamos fazer os leitores rir, porque não sabemos fazer outra coisa. Isso deixa claro também que não conseguiram matar Charlie", observou Biard depois de uma reunião de pauta, da qual também participou o primeiro-ministro francês, Manuel Valls.

Se os terroristas quiseram calar a publicação satírica, eles fracassaram. Conseguiram o oposto. Desta vez, o jornal ainda foi traduzido para seis idiomas, incluindo o árabe.

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